Descuido, será?

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Tomemos o cuidado de avaliar o contexto antes de julgar o amor alheio

Nessas minhas incursões palestrando e “standupiando” fiz bastante coisas em APAES, tanto na daqui de Ribeirão Preto quanto na de Brodowski, durante a “Semana da Pessoa com Deficiência”.

Engraçado, que nos dois lugares o tema do evento era “Família”, melhor seria se fosse “Cadeira Vazia”, porque família mesmo não tínhamos. Duas mães em Ribeirão e um casal de pais em Brodowski, que, aliás, eram meus primos.

Sei que, para quem organiza esse tipo de ação e trabalha com inclusão esse cenário de ausência de público alvo é frustrante e gera um senso comum de negligência, abandono mesmo. Não podemos excluir essa possibilidade, mas, será que é só isso? Bora analisar melhor.

Será que esses pais não têm que batalhar demais para sustentar o filho deficiente e os outros? Será que essas mães e esses pais tem cozinheira, faxineira e passadeira para pagar enquanto eles vão ao evento? Eu, com a autoridade de quem frequentou a APAE como paciente, respondo: A imensa maioria não tem.

Se formos colocar em proporção, me arrisco a dizer que, a cada 200 pacientes, 1 tem esse conforto. Muitas vezes, inclusive – e muitas vezes não é raro – temos um pai ou uma mãe para lidar com um deficiente e mais três ou quatro filhos. Como ir a eventos nessas condições?

Nem todo mundo tem uma estrutura capaz de lhe permitir uma folga no tempo suficiente para frequentar esse tipo de ação – extremamente válida. Nem por isso existe falta de amor ou cuidado. A análise é mais complexa. 

Gabriel Pereira 
Jornalista, deficiente físico e escritor
Autor do livro “NEM TE CONTOs”
@gabspjornalista

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