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Do privado para o público: as cartas de personalidades literárias

“Me baixa o peso do tempo, e dos meus 38 anos, e dos cabelos caindo, e de tudo indo embora e fugindo e se perdendo – e o amor sem acontecer, quando estou assim todo maduro, e limpo, e pronto, e luminoso como uma maçã no galho, pronta para ser colhida. Ninguém estende a mão para a maçã, pouco antes de começar o processo de apodrecimento”. Esse poderia perfeitamente ser o trecho de um conto introspectivo de Caio Fernando Abreu, mas não: trata-se de uma carta do escritor a seu amigo, Sérgio Keuchgerian, escrita em 27 de janeiro de 1987.

Muitas vezes, a correspondência de escritores desafia uma de suas características centrais – a efemeridade – e passa das folhas amassadas, escritas em papel de improviso, a páginas de livros, tornando-se obras amplamente difundidas no âmbito literário. É o caso de algumas compilações como “Cartas”, de Caio Fernando Abreu (que reúne a correspondência do autor a amigos e familiares ao longo de sua vida), “Cartas perto do coração”, de Clarice Lispector (que compila os escritos trocados entre a escritora e Fernando Sabino entre 1946 e 1969).

Mas, afinal, que interesse esses documentos de caráter privado podem despertar? Por um lado, não se pode negar que essas cartas causem no leitor uma espécie de voyeurismo, com a possibilidade de conhecer um pouco da intimidade de um determinado escritor. Por outro, esses textos têm grande valor literário. Em primeiro lugar, a correspondência de um escritor pode ter valor estético, atingindo altos graus de literariedade. Assim, não surpreende o fato de grande parte das citações de Caio Fernando Abreu encontradas na internet serem extraídas de sua correspondência.

Além disso, as missivas nos permitem, muitas vezes, acompanhar as diferentes fases de produção de uma composição literária, da concepção até a publicação, englobando, inclusive, a sua recepção pelo público. Pelas cartas, conhecemos uma obra não apenas em sua apresentação final, mas desde seu alicerce, passando pelo levantamento das paredes, pela inserção do teto, até o acabamento, com os retoques finais do artista. Contemplar a beleza de uma obra pode ser algo prazeroso. Conhecer sua história, entretanto, pode ser uma experiência ainda mais inebriante.

André Alselmi_Coluna Educação

Prof. André Alselmi
Coordenador do curso de Letras do
Centro Universitário Barão de Mauá
andre.alselmi@baraodemaua.br
www.baraodemaua.br

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