Entre sonhos e pesadelos: o diário de Carolina Maria de Jesus

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Escrita na década de 50, a obra Quarto de despejo: diário de uma favelada retrata o cotidiano de Carolina Maria de Jesus, uma mulher negra, catadora de papel que, na época, vivia na antiga favela do Canindé, às margens do rio Tietê, em São Paulo. Publicado pelo jornalista Audálio Dantas, que descobriu Carolina quando fazia uma reportagem no local, o livro mantém quase todos os desvios de escrita da autora.

Pela ótica de uma mulher situada à margem do rio e da vida, o leitor é capaz de experimentar a tristeza e a revolta de uma mãe que não tem como sustentar os três filhos. Em um dos trechos, Carolina relata: “Como é horrível ver um filho comer e perguntar: ‘tem mais’? Essas palavras ficam oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panelas e vê que não tem mais”.

O diário é construído a partir de uma tensão: ao mesmo tempo em que se constitui como espaço de relato das dificuldades da autora, também lhe serve como uma forma de fuga por meio da escrita, que lhe permite encontrar um brilho de felicidade: “Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. […] É preciso criar este ambiente de fantasia para esquecer que estou na favela”.

Obras como a de Carolina, por vezes ainda fora do cânone literário, permanecem como um retrato vivo – e infelizmente atual – da pobreza a que foram relegados os moradores do quarto de despejo, lugar escolhido pela autora para designar metaforicamente a favela. Ao percorrer o diário da escritora, o leitor tem a oportunidade de praticar a empatia. Experimentar a dor do outro – ainda que de maneira simbólica – pode ser um importante exercício para a prática do altruísmo.

André Alselmi_Coluna EducaçãoProf. André Alselmi
Coordenador do curso de Letras do Centro Universitário Barão de Mauá
andre.alselmi@baraodemaua.br
www.baraodemaua.br

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