Trinta anos em um mês

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Não é só comédia

Pode parecer estranho falar isso, mas, a verdade é que nunca me vi como deficiente. Claro que isso tem um lado superpositivo: eu nunca fui diferente. Em casa, eu levava as mesmas cintadas que meu irmão, Thiago (meu irmão mais velho), nunca me poupou das tradicionais brigas entre primogênito e caçula, com os moleques do bairro até futebol joguei, no colégio, eu não era o cara que sofria o bullying, mas o que o arquitetava contra os outros.

Por outro lado, me ver como uma pessoa “normal” me fez, durante muito tempo, não dar a menor bola para coisas que eu, enquanto deficiente físico paralisado cerebral devia, sim, ter me importado. Minha fala é um exemplo claro disso. Faço sessões de fonoaudiologia desde que Deus colocou areia na praia, mas, pelo fato de meus amigos e minha família sempre me entenderem, nunca me vi precisando daquilo. Um jogo de futebol, um cochilo, tudo era motivo para faltar à sessão, fazer os exercícios em casa era impensável.

Na real, só fui entender que minha fala precisava de reparos já na faculdade. Mas, e aí? Como reverter anos de desleixo? Começando do zero! A hora que chegou-se a essa conclusão, o desalento se abateu sobre meus pais e, principalmente na profissional que cuida de mim nessa parte. Porém, aí surgiu o stand-up comedy na minha vida… Durante os ensaios, fui percebendo que os detalhes que me tornarão melhor e mais engraçado têm ligação direta com os exercícios de fono que eu, convenientemente, me “esqueci” de fazer durante trinta anos. Resultado, no último mês minha dicção evoluiu o equivalente a três décadas. Bendita seja a comédia! 

Gabriel Pereira
Jornalista, deficiente físico e escritor
Autor do livro “NEM TE CONTOs”
@gabspjornalista

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