Sinto que estamos vivendo uma fase em que evoluir significa, em muitos aspectos, voltar a hábitos simples e a entender que nem tudo precisa ser compartilhado
Eu sei, esse tema é batido. Há anos falamos sobre nossa relação com o celular, sobre o excesso de telas, sobre como estamos cada vez mais conectados e, paradoxalmente, cada vez mais distantes. Sei que não estou trazendo uma grande novidade, mas talvez esse seja justamente o problema. A gente já sabe de tudo isso… e continua fazendo igual.
Outro dia, um insight me veio. Uma imagem que vi – uma mãe amamentando enquanto mexia no celular – e aquilo mexeu comigo. Me dei conta de como o tempo passa rápido e de como nós aceleramos ainda mais esse processo por termos acesso a tanta informação. Informação que, na maioria das vezes, chega em momentos que não condizem com a importância do que estamos vivendo.
A atenção virou algo raro e o presente, algo constantemente interrompido.
Marina Kocourek
Falar sobre lifestyle, para mim, nunca foi sobre mostrar uma rotina perfeita, uma alimentação impecável ou uma agenda cheia de hábitos saudáveis. Lifestyle, no fim das contas, é sobre qualidade de vida. E cada vez mais tenho acreditado que qualidade de vida passa, obrigatoriamente, por aprender a se desconectar.
Porque quando nos distraímos o tempo todo, deixamos de viver o agora. Muitas vezes, a vida pede presença, mas a gente entrega ausência. Estamos conectados com tudo, menos com o momento presente. E, quando isso acontece, perdemos a realidade.
No dia a dia, a conexão, os sinais e, principalmente, nossos pensamentos, ideias e opiniões, acabam sendo empurrados para longe. Vamos nos desconectando de nós mesmos. Esquecemos a nossa identidade, o que concordamos, o que gostamos, o que nos faz bem ou mal. Já não sabemos se fazemos parte de uma tribo ou de nenhuma, se o que seguimos nos fortalece ou apenas nos anestesia.
Como se a importância de uma notificação no celular fosse maior que ouvir a pessoa à nossa frente, maior que conversar sobre o trabalho, discutir uma série ou um livro com um amigo, ou até mesmo ouvir um filho contar uma história qualquer, dessas simples, mas que constroem tudo.
Normalizamos acordar e, antes mesmo de escovar os dentes, checar notificações. Normalizamos responder mensagens durante conversas presenciais. Normalizamos registrar momentos em vez de vivê-los. E o mais curioso é que tudo isso acontece enquanto repetimos, quase como um mantra, que estamos cansados, ansiosos e sem tempo.
Como alguém que vive o esporte, e principalmente a corrida, percebo isso com muita clareza. Correr sempre foi, para mim, um dos poucos momentos em que a vida desacelera. É quando o pensamento organiza, quando o corpo assume o protagonismo e quando o silêncio vira companhia. Mas, nos últimos anos, até esse espaço começou a ser invadido. A corrida virou conteúdo, virou dado, virou postagem, virou comparação.
E não me entendam mal. Eu amo compartilhar o esporte. Ele transformou minha vida. Mas existe uma linha tênue entre compartilhar a experiência e deixar de vivê-la por inteiro. Talvez uma das maiores dificuldades dos tempos atuais seja simplesmente conseguir estar presente.
Estar presente numa conversa sem olhar o celular; estar presente em um jantar sem fotografar o prato; estar presente em um treino sem se preocupar com o ritmo que alguém, em algum lugar da internet, verá depois.
Sinto que estamos vivendo uma fase em que evoluir significa, em muitos aspectos, retroceder; voltar a hábitos simples; voltar a aceitar o tédio; voltar a permitir momentos sem estímulos constantes; voltar a entender que nem tudo precisa ser compartilhado para ser especial.
Existe uma paz muito particular em viver coisas que ficam só na memória e não no feed.
Não se trata de demonizar a tecnologia ou as redes sociais. Elas aproximam pessoas, informam, inspiram e criam comunidades incríveis. O problema nunca foi a ferramenta; o problema começa quando perdemos o controle do quanto ela ocupa da nossa vida.
Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer seja: quanto do nosso tempo online realmente soma? E quanto apenas preenche silêncios que desaprendemos a sustentar?
Grupo de mulheres que foram correr a prova Paris-Versailles com a 220V, aproveitando para se desconectarem do celular e estabelecerem conexões verdadeiras
Qualidade de vida não é sobre eliminar o celular. É sobre voltar a escolher quando ele participa da nossa rotina e quando não.
Tenho sentido isso na minha própria vida. Percebi que, aos poucos, fui trocando hábitos que me faziam bem – como ler, escrever, me entediar, até simplesmente não fazer nada – por minutos (e horas) de scroll automático no celular. Não por falta de tempo, mas por falta de escolha consciente.
Esse texto não é um manifesto contra o celular, nem uma crítica aos outros. É, antes de tudo, uma proposta, para mim e para todos nós. Para irmos além da reclamação constante sobre o cansaço, a correria e a sensação de que o tempo está sempre voando.
Não vamos conseguir fazer o tempo passar mais devagar. Mas, sim, conseguir fazer com que ele seja mais longo no que importa. Mais prazeroso. Mais vivido. Mais importante.
Que a gente volte a valorizar o tempo não pelo quanto rende, mas pelo quanto faz sentido. E que os momentos que realmente importam deixem de ser apenas registrados, e passem, de fato, a ser vividos (e a mãe amamentando no celular. Uma pena!)
* Marina Kocourek é atleta e empresária no comando da 220Volts, uma agência de viagens que busca levar grupos de mulheres para correr em diferentes lugares do mundo.
Às vezes, é preciso retroceder e desconectar…
Sinto que estamos vivendo uma fase em que evoluir significa, em muitos aspectos, voltar a hábitos simples e a entender que nem tudo precisa ser compartilhado
Por Marina Kocourek*
Eu sei, esse tema é batido. Há anos falamos sobre nossa relação com o celular, sobre o excesso de telas, sobre como estamos cada vez mais conectados e, paradoxalmente, cada vez mais distantes. Sei que não estou trazendo uma grande novidade, mas talvez esse seja justamente o problema. A gente já sabe de tudo isso… e continua fazendo igual.
Outro dia, um insight me veio. Uma imagem que vi – uma mãe amamentando enquanto mexia no celular – e aquilo mexeu comigo. Me dei conta de como o tempo passa rápido e de como nós aceleramos ainda mais esse processo por termos acesso a tanta informação. Informação que, na maioria das vezes, chega em momentos que não condizem com a importância do que estamos vivendo.
Falar sobre lifestyle, para mim, nunca foi sobre mostrar uma rotina perfeita, uma alimentação impecável ou uma agenda cheia de hábitos saudáveis. Lifestyle, no fim das contas, é sobre qualidade de vida. E cada vez mais tenho acreditado que qualidade de vida passa, obrigatoriamente, por aprender a se desconectar.
Porque quando nos distraímos o tempo todo, deixamos de viver o agora. Muitas vezes, a vida pede presença, mas a gente entrega ausência. Estamos conectados com tudo, menos com o momento presente. E, quando isso acontece, perdemos a realidade.
No dia a dia, a conexão, os sinais e, principalmente, nossos pensamentos, ideias e opiniões, acabam sendo empurrados para longe. Vamos nos desconectando de nós mesmos. Esquecemos a nossa identidade, o que concordamos, o que gostamos, o que nos faz bem ou mal. Já não sabemos se fazemos parte de uma tribo ou de nenhuma, se o que seguimos nos fortalece ou apenas nos anestesia.
Como se a importância de uma notificação no celular fosse maior que ouvir a pessoa à nossa frente, maior que conversar sobre o trabalho, discutir uma série ou um livro com um amigo, ou até mesmo ouvir um filho contar uma história qualquer, dessas simples, mas que constroem tudo.
Normalizamos acordar e, antes mesmo de escovar os dentes, checar notificações. Normalizamos responder mensagens durante conversas presenciais. Normalizamos registrar momentos em vez de vivê-los. E o mais curioso é que tudo isso acontece enquanto repetimos, quase como um mantra, que estamos cansados, ansiosos e sem tempo.
Como alguém que vive o esporte, e principalmente a corrida, percebo isso com muita clareza. Correr sempre foi, para mim, um dos poucos momentos em que a vida desacelera. É quando o pensamento organiza, quando o corpo assume o protagonismo e quando o silêncio vira companhia. Mas, nos últimos anos, até esse espaço começou a ser invadido. A corrida virou conteúdo, virou dado, virou postagem, virou comparação.
E não me entendam mal. Eu amo compartilhar o esporte. Ele transformou minha vida. Mas existe uma linha tênue entre compartilhar a experiência e deixar de vivê-la por inteiro. Talvez uma das maiores dificuldades dos tempos atuais seja simplesmente conseguir estar presente.
Estar presente numa conversa sem olhar o celular; estar presente em um jantar sem fotografar o prato; estar presente em um treino sem se preocupar com o ritmo que alguém, em algum lugar da internet, verá depois.
Sinto que estamos vivendo uma fase em que evoluir significa, em muitos aspectos, retroceder; voltar a hábitos simples; voltar a aceitar o tédio; voltar a permitir momentos sem estímulos constantes; voltar a entender que nem tudo precisa ser compartilhado para ser especial.
Não se trata de demonizar a tecnologia ou as redes sociais. Elas aproximam pessoas, informam, inspiram e criam comunidades incríveis. O problema nunca foi a ferramenta; o problema começa quando perdemos o controle do quanto ela ocupa da nossa vida.
Talvez a pergunta mais honesta que possamos fazer seja: quanto do nosso tempo online realmente soma? E quanto apenas preenche silêncios que desaprendemos a sustentar?
Qualidade de vida não é sobre eliminar o celular. É sobre voltar a escolher quando ele participa da nossa rotina e quando não.
Tenho sentido isso na minha própria vida. Percebi que, aos poucos, fui trocando hábitos que me faziam bem – como ler, escrever, me entediar, até simplesmente não fazer nada – por minutos (e horas) de scroll automático no celular. Não por falta de tempo, mas por falta de escolha consciente.
Esse texto não é um manifesto contra o celular, nem uma crítica aos outros. É, antes de tudo, uma proposta, para mim e para todos nós. Para irmos além da reclamação constante sobre o cansaço, a correria e a sensação de que o tempo está sempre voando.
Não vamos conseguir fazer o tempo passar mais devagar. Mas, sim, conseguir fazer com que ele seja mais longo no que importa. Mais prazeroso. Mais vivido. Mais importante.
Que a gente volte a valorizar o tempo não pelo quanto rende, mas pelo quanto faz sentido. E que os momentos que realmente importam deixem de ser apenas registrados, e passem, de fato, a ser vividos (e a mãe amamentando no celular. Uma pena!)
* Marina Kocourek é atleta e empresária no comando da 220Volts, uma agência de viagens que busca levar grupos de mulheres para correr em diferentes lugares do mundo.
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