Talvez seja isso que nos mantém em movimento: a certeza silenciosa de que, mesmo carregando o que pesa, ainda existe vida pulsando
Por Marina Kocourek*
Eu pensei em não escrever sobre esse tema na coluna. Por muito tempo, associei lifestyle a uma certa leveza, escolhas, viagens, encontros, esportes, relacionamentos… aquilo que a gente constrói com prazer.
Mas a vida real não se organiza só em torno do que é bom. Ela é atravessada pelo que nos desmonta também. E o luto é a ausência, mas também a continuidade: a vida se reorganiza depois de uma perda, que, inevitavelmente, passa a fazer parte do jeito que a gente vive.
Nos últimos dois anos e oito meses, eu perdi duas pessoas muito importantes na minha vida e, nesse tempo, entendi que não existe um “fora” do luto. Ele não é um capítulo isolado, nem um período que começa e termina. Ele se infiltra em todos os espaços – no trabalho, nas viagens, nos treinos, nos novos relacionamentos, nas conversas, no silêncio de uma tarde qualquer. Muitas vezes, ele chega sem aviso, como um grito no meio do sono, um choro no meio do dia, desses que não pedem licença e também não pedem explicação.
A vida segue, sim. Eu sigo – sigo trabalhando, viajando, encontrando pessoas, sigo treinando. Existe, em mim, quase como um instinto de proteção que é o de esconder o que me aconteceu e continuar tocando a vida, por mim e pelos que estão ao meu redor. Mas isso cobra um preço alto.
Marina e as filhas
Porque a dor não desaparece só porque eu não olho para ela. Ela vem disfarçada, chega como um cansaço estranho, uma irritação fora de lugar, um peso que não sei explicar. E, por um momento, parece não ter relação com nada. Até que eu entendo: é ela, a dor do luto encontrando um caminho, mesmo quando tento guardá-lo.
Na minha última maratona, eu estava exatamente nesse lugar. Fiz toda a minha periodização atravessada por esse luto, organizei treinos como quem tenta, também, organizar o que estava por dentro. Foi um processo solitário, profundo, exaustivo, não no corpo, mas em um lugar mais difícil de nomear. Uma dor que não se mede em quilômetros, mas em silêncio, em saudade, em tudo aquilo que não tem mais para onde ir.
E agora eu preciso começar uma nova periodização, para uma próxima maratona. E existe uma aflição aí. Um medo enorme de reencontrar tudo aquilo que senti antes, como se cada treino pudesse abrir de novo espaços que levei tanto tempo para aprender a atravessar. Como se o percurso não fosse só físico, mas emocional também.
Mas, ainda assim, eu vou. Vou tentar, não apesar de tudo isso, mas talvez também por causa disso. Porque, de algum jeito, eu sinto que é nesse movimento que eu consigo trabalhar o que ficou, o que mudou, o que ainda dói.
Ainda assim, eu sigo. Sigo a vida como ela é hoje, inteira, mesmo com faltas. E talvez seja isso que eu esteja aprendendo: a dor não vai embora, ela não termina, não se resolve, não fica para trás. Ela está dentro de mim.
Com o tempo, é como se alguma coisa ao redor dela fosse crescendo, quase como uma luz, uma camada de proteção, que não apaga a dor, mas permite que eu caminhe com ela sem me perder completamente. Ela faz parte de mim agora e, de algum jeito, sempre vai fazer.
Portanto, vou em frente com saudade, com amor, com tudo aquilo que não desapareceu, só mudou de forma. E provavelmente seja isso que nos mantém em movimento: a certeza silenciosa de que, mesmo carregando o que pesa, ainda existe vida pulsando, pedindo passagem, convidando a gente a ir.
* Marina Kocourek é atleta e empresária no comando da 220Volts, uma agência de viagens que busca levar grupos de mulheres para correr em diferentes lugares do mundo.
Correr com o que não passa
Talvez seja isso que nos mantém em movimento: a certeza silenciosa de que, mesmo carregando o que pesa, ainda existe vida pulsando
Por Marina Kocourek*
Eu pensei em não escrever sobre esse tema na coluna. Por muito tempo, associei lifestyle a uma certa leveza, escolhas, viagens, encontros, esportes, relacionamentos… aquilo que a gente constrói com prazer.
Mas a vida real não se organiza só em torno do que é bom. Ela é atravessada pelo que nos desmonta também. E o luto é a ausência, mas também a continuidade: a vida se reorganiza depois de uma perda, que, inevitavelmente, passa a fazer parte do jeito que a gente vive.
Nos últimos dois anos e oito meses, eu perdi duas pessoas muito importantes na minha vida e, nesse tempo, entendi que não existe um “fora” do luto. Ele não é um capítulo isolado, nem um período que começa e termina. Ele se infiltra em todos os espaços – no trabalho, nas viagens, nos treinos, nos novos relacionamentos, nas conversas, no silêncio de uma tarde qualquer. Muitas vezes, ele chega sem aviso, como um grito no meio do sono, um choro no meio do dia, desses que não pedem licença e também não pedem explicação.
A vida segue, sim. Eu sigo – sigo trabalhando, viajando, encontrando pessoas, sigo treinando. Existe, em mim, quase como um instinto de proteção que é o de esconder o que me aconteceu e continuar tocando a vida, por mim e pelos que estão ao meu redor. Mas isso cobra um preço alto.
Porque a dor não desaparece só porque eu não olho para ela. Ela vem disfarçada, chega como um cansaço estranho, uma irritação fora de lugar, um peso que não sei explicar. E, por um momento, parece não ter relação com nada. Até que eu entendo: é ela, a dor do luto encontrando um caminho, mesmo quando tento guardá-lo.
Na minha última maratona, eu estava exatamente nesse lugar. Fiz toda a minha periodização atravessada por esse luto, organizei treinos como quem tenta, também, organizar o que estava por dentro. Foi um processo solitário, profundo, exaustivo, não no corpo, mas em um lugar mais difícil de nomear. Uma dor que não se mede em quilômetros, mas em silêncio, em saudade, em tudo aquilo que não tem mais para onde ir.
E agora eu preciso começar uma nova periodização, para uma próxima maratona. E existe uma aflição aí. Um medo enorme de reencontrar tudo aquilo que senti antes, como se cada treino pudesse abrir de novo espaços que levei tanto tempo para aprender a atravessar. Como se o percurso não fosse só físico, mas emocional também.
Mas, ainda assim, eu vou. Vou tentar, não apesar de tudo isso, mas talvez também por causa disso. Porque, de algum jeito, eu sinto que é nesse movimento que eu consigo trabalhar o que ficou, o que mudou, o que ainda dói.
Ainda assim, eu sigo. Sigo a vida como ela é hoje, inteira, mesmo com faltas. E talvez seja isso que eu esteja aprendendo: a dor não vai embora, ela não termina, não se resolve, não fica para trás. Ela está dentro de mim.
Com o tempo, é como se alguma coisa ao redor dela fosse crescendo, quase como uma luz, uma camada de proteção, que não apaga a dor, mas permite que eu caminhe com ela sem me perder completamente. Ela faz parte de mim agora e, de algum jeito, sempre vai fazer.
Portanto, vou em frente com saudade, com amor, com tudo aquilo que não desapareceu, só mudou de forma. E provavelmente seja isso que nos mantém em movimento: a certeza silenciosa de que, mesmo carregando o que pesa, ainda existe vida pulsando, pedindo passagem, convidando a gente a ir.
* Marina Kocourek é atleta e empresária no comando da 220Volts, uma agência de viagens que busca levar grupos de mulheres para correr em diferentes lugares do mundo.
Leia também
Marca de beleza brasileira recria pele humana para teste de dermocosméticos
Produzida pela Creamy, a tecnologia ajuda a avaliar novos ativos; o desenvolvimento …
Sisley em Ribeirão: conheça o espaço da marca francesa que chegou na cidade
Marca de beleza mundialmente conhecida por suas fórmulas de maquiagem, skincare e …
Nova versão de sauna promete alivio de dores e bem-estar
A técnica Sauna infrared foi inspirada na prática de banho de sol, …
O Boticário inaugura loja no Santa Maria Outlet reforçando presença na região
Grupo Cedro, franqueado O Boticário, expande presença na região da Ribeirão Preto …