Antonio Carlos França, da Destilaria Ligáli, fala sobre a construção de um negócio entre propósito, técnica e tempo
Por Miguel El Debs*
Ao longo das histórias que acompanho no empreendedorismo, existe algo que se repete entre trajetórias mais consistentes: raramente elas começam do zero. Quase sempre, elas são fruto de uma longa construção invisível, feita de observação, repertório e convivência com quem já percorreu parte do caminho. E a história do Antonio Carlos França é um bom exemplo disso.
Advogado, diretor jurídico e sócio da Interunion, ele não iniciou sua trajetória empreendedora impulsionado apenas pela vontade de abrir um negócio. Antes da Destilaria Ligáli existir, foram mais de três décadas de aprendizado ao lado de grandes empresários de Ribeirão Preto.
“Posso dizer que tive um curso intensivo e longo, com grandes professores, antes de me aventurar como empreendedor”, define o fundador da Ligáli.
O empreendedorismo a partir da curiosidade
A ideia da destilaria começou enquanto Antonio elaborava contratos internacionais de venda de equipamentos para produção de rum. Desse universo dos contratos internacionais ligados a destilarias, a curiosidade fez surgir propósito; da inquietação, nasceu a vontade de construir algo próprio.
“O contato com a parte técnica despertou minha curiosidade de entender mais sobre esse universo”, explica Antonio, que fundou a Ligáli em 2020, em plena pandemia, tornando-se a 1ª destilaria urbana de Ribeirão Preto.
O caminho, porém, nunca foi tratado como uma jornada solitária. “Empreender exige reconhecer rapidamente as lições e buscar ajuda especializada”, alerta o empresário. E talvez essa seja uma das grandes maturidades da sua visão. A de entender que liderança não significa saber tudo, mas saber quem chamar para construir junto.
Crise também revela oportunidade
Antonio Carlos França | Crédito: Renato Lopes (@rlopes1968)
Abrir uma destilaria durante a pandemia poderia parecer o pior timing possível. Mas o mercado de bebidas alcoólicas seguia aquecido, enquanto outros setores desaceleravam ou até paravam.
Ainda assim, vieram obstáculos relevantes: escassez de garrafas, aumento no custo de embalagens e dificuldades logísticas exigiram criatividade e capacidade de adaptação.
“Foi preciso muito trabalho, pesquisa e criatividade para desenvolver nossas primeiras cachaças e encontrar alternativas”, lembra. Uma das soluções, por exemplo, veio com garrafas importadas e embalagens pensadas estrategicamente para manter a operação viável.
Mais recentemente, outro desafio atingiu o setor com a repercussão negativa envolvendo bebidas adulteradas com metanol, que gerou desconfiança generalizada no mercado.
Só que aí, de novo, a crise virou oportunidade. “Reforçamos nosso programa de visitas à destilaria para mostrar todo o controle de qualidade e a rastreabilidade dos nossos produtos”. Mais que vender bebida, a Ligáli passou a oferecer conhecimento, transparência e experiência.
Uma empresa é um organismo vivo
Ao falar sobre resiliência, Antonio usa uma definição que me chamou atenção: “Depois de constituída, a empresa vira literalmente um organismo vivo”. Negócios mudam, crescem, impõem ritmo, criam demandas inesperadas.
Por isso, para ele, trabalho em equipe deixou de ser discurso e virou estratégia prática. “Nem sempre acertamos, nem sempre evitamos falhas. Mas registrar lições aprendidas e compartilhar isso com todos é essencial”.
A cultura da aprendizagem contínua se torna, aqui, parte da própria sustentabilidade do negócio.
O desafio de não centralizar tudo
Uma das falhas mais importantes da jornada de Antonio foi acreditar que todas as decisões deveriam passar por ele. “A ilusão de centralizar tudo foi um erro que ainda exige atenção”.
Fundador da Ligáli | Crédito: Renato Lopes (@rlopes1968)
Portanto, esse é um aprendizado recorrente entre empreendedores maduros: entender que crescer exige confiança e confiança exige delegação. Nem sempre é confortável. Mas é necessário.
Antonio também faz uma leitura muito lúcida sobre inovação. Hoje, segundo ele, o excesso de estímulos pode ser tão perigoso quanto a ausência deles. “Em poucos minutos nas redes sociais, você se depara com o sucesso alheio e uma comparação inevitável”.
O desafio está no filtro
Saber o que faz sentido para o momento do negócio sem perder o foco no que realmente sustenta crescimento. Foi assim que surgiram novos movimentos dentro da Ligáli, como os RTDs (Ready To Drink), bebidas prontas para consumo já apresentadas ao público em eventos da cidade. “Inovar exige cronograma, maturação e muito pé no chão”, garante.
Tudo isso me leva a uma reflexão importante: empreender não é apenas construir algo novo. É aprender, todos os dias, a administrar energia, expectativas e tempo. Inclusive o tempo com o quê e com quem importa.
Miguel El Debs | Crédito: Érico Andrade
“É um conselho que continuo me dando: administrar melhor o tempo entre família, trabalho, desenvolvimento pessoal e lazer”, afirma Antonio.
No fim, talvez esse seja um dos maiores desafios do empreendedor maduro. Não apenas crescer, mas crescer sem perder aquilo que faz o crescimento valer a pena.
Se você conhece alguém com uma história empreendedora que merece ser contada, escreva para contato@grupozumm.com.br.
* Miguel El Debs é empresário, head do DBS|Hub e do LIDE Empreendedor, sócio do Grupo ZK, e conselheiro estratégico com foco em Branding e Marketing.
Empreender também é saber dividir o comando
Antonio Carlos França, da Destilaria Ligáli, fala sobre a construção de um negócio entre propósito, técnica e tempo
Por Miguel El Debs*
Ao longo das histórias que acompanho no empreendedorismo, existe algo que se repete entre trajetórias mais consistentes: raramente elas começam do zero. Quase sempre, elas são fruto de uma longa construção invisível, feita de observação, repertório e convivência com quem já percorreu parte do caminho. E a história do Antonio Carlos França é um bom exemplo disso.
Advogado, diretor jurídico e sócio da Interunion, ele não iniciou sua trajetória empreendedora impulsionado apenas pela vontade de abrir um negócio. Antes da Destilaria Ligáli existir, foram mais de três décadas de aprendizado ao lado de grandes empresários de Ribeirão Preto.
O empreendedorismo a partir da curiosidade
A ideia da destilaria começou enquanto Antonio elaborava contratos internacionais de venda de equipamentos para produção de rum. Desse universo dos contratos internacionais ligados a destilarias, a curiosidade fez surgir propósito; da inquietação, nasceu a vontade de construir algo próprio.
“O contato com a parte técnica despertou minha curiosidade de entender mais sobre esse universo”, explica Antonio, que fundou a Ligáli em 2020, em plena pandemia, tornando-se a 1ª destilaria urbana de Ribeirão Preto.
O caminho, porém, nunca foi tratado como uma jornada solitária. “Empreender exige reconhecer rapidamente as lições e buscar ajuda especializada”, alerta o empresário. E talvez essa seja uma das grandes maturidades da sua visão. A de entender que liderança não significa saber tudo, mas saber quem chamar para construir junto.
Crise também revela oportunidade
Abrir uma destilaria durante a pandemia poderia parecer o pior timing possível. Mas o mercado de bebidas alcoólicas seguia aquecido, enquanto outros setores desaceleravam ou até paravam.
Ainda assim, vieram obstáculos relevantes: escassez de garrafas, aumento no custo de embalagens e dificuldades logísticas exigiram criatividade e capacidade de adaptação.
“Foi preciso muito trabalho, pesquisa e criatividade para desenvolver nossas primeiras cachaças e encontrar alternativas”, lembra. Uma das soluções, por exemplo, veio com garrafas importadas e embalagens pensadas estrategicamente para manter a operação viável.
Mais recentemente, outro desafio atingiu o setor com a repercussão negativa envolvendo bebidas adulteradas com metanol, que gerou desconfiança generalizada no mercado.
Só que aí, de novo, a crise virou oportunidade. “Reforçamos nosso programa de visitas à destilaria para mostrar todo o controle de qualidade e a rastreabilidade dos nossos produtos”. Mais que vender bebida, a Ligáli passou a oferecer conhecimento, transparência e experiência.
Uma empresa é um organismo vivo
Ao falar sobre resiliência, Antonio usa uma definição que me chamou atenção: “Depois de constituída, a empresa vira literalmente um organismo vivo”. Negócios mudam, crescem, impõem ritmo, criam demandas inesperadas.
Por isso, para ele, trabalho em equipe deixou de ser discurso e virou estratégia prática. “Nem sempre acertamos, nem sempre evitamos falhas. Mas registrar lições aprendidas e compartilhar isso com todos é essencial”.
A cultura da aprendizagem contínua se torna, aqui, parte da própria sustentabilidade do negócio.
O desafio de não centralizar tudo
Uma das falhas mais importantes da jornada de Antonio foi acreditar que todas as decisões deveriam passar por ele. “A ilusão de centralizar tudo foi um erro que ainda exige atenção”.
Portanto, esse é um aprendizado recorrente entre empreendedores maduros: entender que crescer exige confiança e confiança exige delegação. Nem sempre é confortável. Mas é necessário.
Antonio também faz uma leitura muito lúcida sobre inovação. Hoje, segundo ele, o excesso de estímulos pode ser tão perigoso quanto a ausência deles. “Em poucos minutos nas redes sociais, você se depara com o sucesso alheio e uma comparação inevitável”.
O desafio está no filtro
Saber o que faz sentido para o momento do negócio sem perder o foco no que realmente sustenta crescimento. Foi assim que surgiram novos movimentos dentro da Ligáli, como os RTDs (Ready To Drink), bebidas prontas para consumo já apresentadas ao público em eventos da cidade. “Inovar exige cronograma, maturação e muito pé no chão”, garante.
Tudo isso me leva a uma reflexão importante: empreender não é apenas construir algo novo. É aprender, todos os dias, a administrar energia, expectativas e tempo. Inclusive o tempo com o quê e com quem importa.
“É um conselho que continuo me dando: administrar melhor o tempo entre família, trabalho, desenvolvimento pessoal e lazer”, afirma Antonio.
No fim, talvez esse seja um dos maiores desafios do empreendedor maduro. Não apenas crescer, mas crescer sem perder aquilo que faz o crescimento valer a pena.
Se você conhece alguém com uma história empreendedora que merece ser contada, escreva para contato@grupozumm.com.br.
* Miguel El Debs é empresário, head do DBS|Hub e do LIDE Empreendedor, sócio do Grupo ZK, e conselheiro estratégico com foco em Branding e Marketing.
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