A maturidade não é a ausência de irritação, é a capacidade de estabelecer uma ordem entre as irritações
Por Marina Kocourek*
Uma das consequências menos comentadas do sofrimento é que ele reorganiza a nossa hierarquia de valores. Não necessariamente nos torna melhores, nem mais sábios, nem mais fortes. Mas altera a proporção entre as situações da vida.
Os estoicos entendiam bem essa questão da proporção, e grande parte de sua filosofia não consistia em eliminar emoções, como se costuma dizer, mas em aprender a julgar corretamente o que merece nossa atenção.
O problema, para eles, não era sentir; era atribuir importância excessiva ao que tem importância limitada. Talvez seja por isso que algumas experiências funcionem como uma espécie de corretivo filosófico involuntário.
Quem já enfrentou uma perda significativa dificilmente consegue manter o mesmo grau de indignação diante de pequenos inconvenientes. Não por virtude, mas por comparação. A experiência cria referências.
Depois de conhecer determinados tipos de dor, passamos a enxergar com mais clareza a diferença entre um contratempo e uma tragédia; entre uma contrariedade e uma ameaça real; entre um desconforto e um sofrimento.
Marco Aurélio escrevia para si mesmo que a vida é curta e que a maior parte da energia humana é desperdiçada em assuntos sem relevância. Não era uma crítica moral; era quase uma observação prática. Se o tempo é limitado, então a atenção também.
A pergunta deixa de ser “o que me incomoda?” e passa a ser “isso merece me incomodar?”. Essa é uma distinção importante, porque maturidade não é a ausência de irritação, é a capacidade de estabelecer uma ordem entre as irritações.
Nem tudo que nos afeta merece ocupar espaço equivalente dentro de nós.
Os estoicos chamavam isso de discernimento, a habilidade hierarquizar valores, de separar o essencial do acessório, o permanente do passageiro, aquilo que realmente toca nossa existência daquilo que apenas atravessa um dia ruim. Talvez seja por isso que algumas pessoas pareçam mais serenas com o passar dos anos.
Não porque a vida tenha ficado mais simples, mas porque elas aprenderam algo que a juventude raramente concede: a maioria dos sofrimentos não tem o tamanho que imaginamos quando está acontecendo.
Sempre tive uma queda pelo estoicismo, embora desconfie um pouco da forma como ele passou a circular nos últimos anos – menos uma filosofia e mais um repertório de frases motivacionais.
O que me atrai nos estoicos é a busca pela coerência entre pensamento e ação, entre aquilo que dizemos valorizar e a maneira como atravessamos os dias.
No fim, a sabedoria talvez seja apenas isso: devolver a cada dor o seu verdadeiro tamanho.
*Marina Kocourek é atleta e empresária no comando da 220Volts, uma agência de viagens que busca levar grupos de mulheres para correr em diferentes lugares do mundo.
A nossa hierarquia de valores
A maturidade não é a ausência de irritação, é a capacidade de estabelecer uma ordem entre as irritações
Por Marina Kocourek*
Uma das consequências menos comentadas do sofrimento é que ele reorganiza a nossa hierarquia de valores. Não necessariamente nos torna melhores, nem mais sábios, nem mais fortes. Mas altera a proporção entre as situações da vida.
Os estoicos entendiam bem essa questão da proporção, e grande parte de sua filosofia não consistia em eliminar emoções, como se costuma dizer, mas em aprender a julgar corretamente o que merece nossa atenção.
O problema, para eles, não era sentir; era atribuir importância excessiva ao que tem importância limitada. Talvez seja por isso que algumas experiências funcionem como uma espécie de corretivo filosófico involuntário.
Depois de conhecer determinados tipos de dor, passamos a enxergar com mais clareza a diferença entre um contratempo e uma tragédia; entre uma contrariedade e uma ameaça real; entre um desconforto e um sofrimento.
Marco Aurélio escrevia para si mesmo que a vida é curta e que a maior parte da energia humana é desperdiçada em assuntos sem relevância. Não era uma crítica moral; era quase uma observação prática. Se o tempo é limitado, então a atenção também.
A pergunta deixa de ser “o que me incomoda?” e passa a ser “isso merece me incomodar?”. Essa é uma distinção importante, porque maturidade não é a ausência de irritação, é a capacidade de estabelecer uma ordem entre as irritações.
Os estoicos chamavam isso de discernimento, a habilidade hierarquizar valores, de separar o essencial do acessório, o permanente do passageiro, aquilo que realmente toca nossa existência daquilo que apenas atravessa um dia ruim. Talvez seja por isso que algumas pessoas pareçam mais serenas com o passar dos anos.
Não porque a vida tenha ficado mais simples, mas porque elas aprenderam algo que a juventude raramente concede: a maioria dos sofrimentos não tem o tamanho que imaginamos quando está acontecendo.
Sempre tive uma queda pelo estoicismo, embora desconfie um pouco da forma como ele passou a circular nos últimos anos – menos uma filosofia e mais um repertório de frases motivacionais.
O que me atrai nos estoicos é a busca pela coerência entre pensamento e ação, entre aquilo que dizemos valorizar e a maneira como atravessamos os dias.
No fim, a sabedoria talvez seja apenas isso: devolver a cada dor o seu verdadeiro tamanho.
*Marina Kocourek é atleta e empresária no comando da 220Volts, uma agência de viagens que busca levar grupos de mulheres para correr em diferentes lugares do mundo.
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