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Portal Zumm
Mulheres (e mães) estão redefinindo o mercado imobiliário
Mercado Imobiliário

Mulheres (e mães) estão redefinindo o mercado imobiliário; especialista analisa o que muda

By Laura Oliveira on 6 de agosto de 2026

Para a diretora-presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário, Elisa Rosenthal, entender as mulheres que estão à procura de um imóvel é estratégia comercial essencial

No passado, ser mulher significava, muitas vezes, viver à margem dos maridos, quase como um enfeite adornando a vida social e particular masculina. Com o passar dos anos e com a luta de muitas mulheres, essa realidade mudou, especialmente no sentido de quem toma as decisões.

Sendo assim, apesar de muitos espaços ainda carregarem o estereótipo masculino, as mulheres passaram a dominar diversos setores, e principalmente, tomar as decisões. Uma pesquisa realizada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) indicou que são elas as responsáveis ​​por mais de 90% das decisões de compras dentro dos lares brasileiros.

Mas e quanto à busca por esses lares? Quem decide onde morar?

O Raio-X FipeZAP do 1º trimestre de 2026 – um relatório que reúne o perfil da demanda para compra de imóveis no país elaborado pelo Grupo OLX – apontou que, ainda, o comprador típico de imóvel é o homem, acima de 50 anos, com renda superior a R$ 10 mil.

Apesar disso, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Anual (PNADC/A), feita pelo IBGE, apontam que das 15,6 milhões de pessoas morando sozinhas em 2025, 45,1% são mulheres.

Incorporadoras que ainda desenham stands de vendas e discursos comerciais pensando só no ‘casal comprador’ estão deixando dinheiro na mesa

Futuro do mercado imobiliário

Elisa Rosenthal

Para a diretora-presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário, Elisa Rosenthal, a mulher que compra sozinha não é só a consumidora final: ela é a influenciadora de decisão mesmo quando não é a única na escritura. “Incorporadoras que ainda desenham stands de vendas e discursos comerciais pensando só no ‘casal comprador’ estão deixando dinheiro na mesa”, explica a especialista, que também é autora do livro “Proprietárias: Autonomia como Patrimônio”.

Segundo Elisa, a mulher que compra sozinha e ainda mais jovem representa a maior oportunidade de crescimento inexplorada do setor.

“Entender essa consumidora não é pauta de inclusão, é estratégia comercial.”

– Elisa Rosenthal

Inclusive, relatórios mais recentes da NAR (National Association of Realtors), dos Estados Unidos, mostram que por lá mulheres solteiras já são o 2º maior grupo de compradores de imóveis, atrás apenas de casais casados e bem à frente dos homens solteiros, que representam menos da metade dessa fatia. 

“Entre a Geração Z, o dado é ainda mais expressivo: 35% dos compradores solteiros já são mulheres, contra 18% de homens”. Para Elisa, essa é uma tendência que vale da geração millennial em diante e que aponta para onde o nosso mercado está caminhando.

Mães e proprietárias

Outro fator que a presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário destaca como importante na análise do futuro desse mercado está no fato que, em 2022, nos EUA, as mulheres acima de 40 anos tiveram, de maneira inédita, mais filhos que as mulheres adolescentes (15 a 19 anos) – dados do National Center for Health Statistics/CDC.

Aqui no Brasil, ainda que o cenário não seja o mesmo, os nascimentos entre mulheres 40+ cresceram 35,2% em 10 anos, tomando como referência os dados de 2025 da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente.

Isso mostra uma mudança de prioridade por partes das mulheres, que passaram a buscar a consolidação de suas carreiras e a conquista da tão sonhada estabilidade financeira antes de começar ou aumentar a família.

“Quando a maternidade vem mais tarde, a compra do 1º imóvel também muda de lugar na linha do tempo. Muitas mulheres já compram sozinhas, antes de qualquer decisão familiar. O imóvel deixa de ser ‘o passo depois de casar’ e passa a ser uma conquista individual, construída com o próprio dinheiro e no próprio ritmo”, observa Elisa.

Para a diretora presidente do Instituto Mulheres do Imobiliário, Elisa Rosenthal, entender essa consumidora não é pauta de inclusão, é estratégia comercial

Como o setor imobiliário deve reagir?

Elisa explica que, quando a compra acontece antes ou até mesmo independentemente da formação de uma família, os critérios para a escolha desse imóvel mudam.

“Localização e mobilidade urbana pesam mais que metragem; segurança do entorno se torna inegociável; e a flexibilidade de uso do espaço importa mais que a quantidade de dormitório”, cita, como exemplo.

Levando em consideração que essa mulher está comprando para o momento de vida que tem hoje, mas sabendo que esse imóvel pode precisar se adaptar amanhã, ela se torna uma consumidora mais recorrente do setor, saindo da ideia engessada do “imóvel para a vida toda”.

Em um tête-à-tête com o Portal Zumm, Elisa detalha um pouco mais de como essa realidade afeta (de forma prática) o mercado imobiliário, e ao que ele deve ficar atento. Confira a seguir:

Como essa busca “antecipada” por um imóvel redefine o papel das mulheres?

O patrimônio construído antes, e sem depender de um relacionamento, muda a posição de poder da mulher em qualquer decisão futura, inclusive sobre ter ou não filhos, e quando. Quem já é proprietária não depende de um 2º nome na escritura para ter onde morar. Isso é autonomia com endereço.

A que você atribui essa mudança no comportamento das mulheres, como o adiamento da maternidade?

Não vejo isso como adiamento no sentido de espera passiva, mas como sequenciamento de prioridades. As mulheres estão priorizando consolidar carreira e estabilidade financeira antes da maternidade e isso só é possível porque hoje elas têm mais autonomia para tomar essa decisão no seu próprio tempo, algo que há duas gerações não existia da mesma forma. É um reflexo, também, dos avanços nos tratamentos para fertilidade e no congelamento de óvulos, por exemplo. 

O que significa para o mercado imobiliário esse sequenciamento de prioridades?

Significa que o mercado precisa acompanhar, reconhecer e saber dialogar com as mudanças sociais, especialmente quando diz respeito à principal influenciadora da decisão de compra, que é a mulher.

No meu 2º livro, “Degrau Quebrado”, aprofundo no tema e na ascensão profissional feminina e cito, como um dos impactos, a maternidade. Trata-se também de uma mudança estrutural na jornada de consumo e do poder de decisão. Para nosso setor, as mulheres que adiam a maternidade podem procurar imóveis mais cedo, que atendam necessidades mais compactas, por exemplo, e migrarem para imóveis mais amplos, mais tarde. Outro impacto que já mapeamos há algum tempo é o aumento de mulheres investidores e compradoras solo.

O que há de diferente em um imóvel pensado para esse tipo de consumidora?

Plantas que não engessam o uso do espaço; um quarto extra que hoje é home office e amanhã pode virar quarto de bebê, sem depender de reforma estrutural. Proximidade com escola, saúde e rede de apoio, porque essa mulher, muitas vezes, está cuidando de filhos pequenos e de pais idosos ao mesmo tempo. Segurança predial e do bairro, que aparece como prioridade recorrente entre quem mora ou vai morar sozinha.

Versatilidade é a peça-chave aqui. Uma tendência que tenho acompanhado no mercado imobiliário no exterior e que, pouco a pouco, ganha espaço no mercado nacional é a entrega dos apartamentos mobiliados, não decorados, mas com os planejados, e cozinhas e lavanderia equipados. Acredito que este padrão de entrega ainda ganhará espaço no setor.

Qual conselho você daria para arquitetos e engenheiros que queiram atender essa importante faria do mercado imobiliário?

Acompanhem as mudanças e transformações sociais das suas consumidoras. As mulheres são as grandes influenciadoras na decisão de compra e cada vez mais assumem o protagonismo na aquisição. Olhem para seus times e lideranças e percebam se suas empresas estão preparadas para conversar com essa consumidora.

Posted in Destaques Capa, Mercado Imobiliário.
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