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Recuperações judiciais são pedidas para evitar falências
Direito

O recorde de recuperações judiciais (e não de falências!)

By Redação Zumm on 16 de setembro de 2026

Não estamos falando de empresas que fecharam as portas ou faliram, mas daquelas que escolheram se reorganizar

Por Giuliane Restini Vecchi Marques*

Há uma cena que se repete no Judiciário brasileiro e diz muito sobre o momento da economia: empresas sólidas, com marca conhecida e décadas de história, entrando na Justiça para pedir tempo. O nome técnico é “recuperação judicial”, mas o que ela traduz é o fato de o empresário ainda acreditar no próprio negócio e decidir reorganizá-lo antes que o caixa dite o desfecho.

Os números confirmam que a cena deixou de ser exceção. Em 2025, o Brasil registrou 2.466 empresas em recuperação judicial – alta de 13% sobre 2024 e o maior patamar da série histórica, segundo a Serasa Experian. Foram 977 processos, média de 53 por mês. O agronegócio liderou (743 casos, representando 30,1%), seguido de serviços (739, 30%).

O pano de fundo é conhecido: juros altos, crédito seletivo e inadimplência sem trégua. Quando o custo do dinheiro sobe, o caixa é o primeiro a sentir. A recuperação judicial entra como respiro, já que suspende cobranças, organiza credores e devolve o que é escasso em qualquer crise: a previsibilidade.

E há um detalhe que muda tudo. No mesmo período, os pedidos de falência não acompanham o crescimento, e sim sofrem retração. O recorde, portanto, não é de empresas que fecharam as portas, mas de empresas que escolheram reorganizá-las.

Vale uma opinião: o crescimento dos pedidos de recuperação judicial não é, por si só, má notícia. Há um lado maduro na estatística. Recorrer à recuperação de forma planejada é sinal de que o mercado aprendeu a enxergar a lei como ferramenta de gestão, não como certidão de fracasso.

É preciso, contudo, honestidade na outra ponta. Nem todo pedido nasce de boa-fé: há quem use o instrumento como manobra para adiar obrigações ou ganhar tempo, sem intenção real de reerguer o negócio. É o cuidado com esses sinais que preserva a credibilidade do sistema sem esvaziar um instituto valioso.

Giuliane Restini Vecchi Marques
Giuliane Restini Vecchi Marques

Ainda merece atenção o timing. Entre 2024 e 2025, para cada 16 recuperações judiciais, apenas uma negociação extrajudicial foi formalizada. Ou seja, o empresário ainda demora a pedir ajuda e recorre ao Judiciário quando alternativas mais leves e baratas já não estão disponíveis.

E aqui a conversa deixa de ser sobre balanços e passa a ser sobre pessoas. Cada empresa que se reorganiza a tempo é um conjunto de famílias que mantém a renda e uma comunidade que segue de pé. A recuperação judicial, bem conduzida, não é o epílogo de uma história, é a vírgula que permite escrever o próximo capítulo. Pedir tempo, no momento certo, também é um ato de coragem e contribui diretamente para que não batamos, também, o recorde de falências.

* Giuliane Restini Vecchi Marques (OAB/SP 424476) é advogada, sócia do Gatto Martinussi e Pelissari Advogados, com atuação no contencioso cível empresarial e controladoria jurídica.

Posted in Destaques Capa, Direito.
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