Na tentativa de proteger nossos filhos de tudo, talvez estejamos eliminando também o esforço, a frustração, os desafios e as experiências que ajudam uma criança a crescer
Por Arthur Dias Rezende*
Existe uma pergunta incômoda porque toca em algo que quase todo pai e toda mãe faz com boa intenção: será que estamos facilitando demais a infância? Hoje, boa parte da rotina das crianças acontece em ambientes cada vez mais controlados, com menos espaços livres para explorar, improvisar e testar os próprios limites. Ao mesmo tempo, tentamos antecipar imprevistos porque queremos proteger nossos filhos.
O problema começa quando a proteção vira a eliminação de qualquer dificuldade. Uma criança que nunca encontra pequenos desafios também perde oportunidades de descobrir que é capaz de superá-los. Conforto não é o mesmo que segurança. Nenhuma criança precisa ser exposta a riscos desnecessários; segurança é responsabilidade do adulto. Mas existe uma diferença enorme entre colocar uma criança em perigo e permitir que ela enfrente uma dificuldade adequada à idade.
Subir em uma estrutura, aprender a mergulhar, pedalar sem rodinhas, tentar um novo movimento, errar uma sequência, esperar sua vez ou perder uma brincadeira. Para um adulto, podem parecer experiências pequenas, mas para uma criança, são laboratórios de desenvolvimento. É nelas que começa a nascer uma mensagem poderosa: “Eu consigo enfrentar coisas difíceis”.
Talvez estejamos ajudando demais. Para quem cuida de uma criança, é difícil resistir ao impulso de resolver imediatamente. Ela não consegue abrir algo, o adulto abre. Não alcança, o adulto pega. Está com dificuldade, o adulto interfere. Sem perceber, substituímos experiências de autonomia por eficiência. Para o adulto, tudo fica mais rápido; para criança, desaparece uma oportunidade de aprender.
Queremos filhos independentes, mas muitas vezes não suportamos assistir ao processo necessário para que construam independência. Autonomia demora, faz bagunça, exige repetição e produz erros. E exige do adulto algo talvez ainda mais difícil do que ajudar: esperar.
Frustração também faz parte
Nenhum pai gosta de ver o filho frustrado. Mas a solução não pode ser construir uma vida em que ele nunca precise lidar com frustração. A infância oferece uma oportunidade privilegiada para experimentar pequenas doses dela em ambientes seguros.
No esporte, isso acontece o tempo todo. A criança tenta um movimento e erra. Tenta novamente. Observa. Recebe orientação. Melhora. Quase consegue. E finalmente realiza. O valor dessa experiência vai além da habilidade aprendida: ela percebe que nem tudo acontece na 1ª tentativa.
CompetiShow na academia Tio Arthur | Crédito: Rafael Cautella
Existe ainda outra consequência de uma infância excessivamente confortável: o corpo deixa de ser colocado à prova. Criança precisa correr, saltar, equilibrar, arremessar, garrar, empurrar, puxar, escalar, rolar, dançar, nadar e pedalar. Precisa experimentar diferentes velocidades, superfícies, alturas, direções e movimentos. Não para transformá-la em atleta, mas porque o corpo aprende usando o próprio corpo.
É por isso que ambientes com desafios progressivos têm tanto valor. O desafio precisa provocar esforço, sem se transformar em ameaça. Essa é uma linha delicada – e é justamente aí que entra o papel de um bom professor.
Um bom professor não remove o desafio. Ele torna o desafio possível. Uma cena comum em uma aula infantil acontece quando a criança olha para uma tarefa e diz: “Não consigo!”. A partir daí, existem dois caminhos: retirar o desafio ou ajudá-la a descobrir como enfrentá-lo. Às vezes, o professor reduz a dificuldade. Em outras, oferece apoio, demonstra, segura uma mão ou simplesmente diz: “Vamos tentar juntos”.
Até que um dia a ajuda não é mais necessária e algo importante acontece: a criança fez. A tarefa era apenas o cenário. A verdadeira conquista foi perceber a própria capacidade. É assim que a confiança se constrói.
Por isso, ensinar atividade física infantil exige entender mais que exercício. Exige entender sobre desenvolvimento. Durante a infância, podemos oferecer experiências em que a criança descubra que esforço não é punição; errar não é fracasso; cair não encerra uma tentativa; esperar também faz parte; e algumas conquistas exigem tempo. Principalmente, ela precisa descobrir que é capaz de evoluir. Talvez, então, a pergunta não seja “como proteger meu filho de todo desconforto?”, mas “quais desafios meu filho já é capaz de enfrentar?”.
Arthur Dias Rezende
Isso muda a posição do adulto. Deixamos de remover todas as pedras do caminho e passamos a criar um ambiente seguro para que a criança aprenda a atravessá-las. Talvez nossos filhos não precisem de uma infância mais confortável, precisem de uma infância rica em experiências, com proteção suficiente para que se sintam seguros e desafios suficientes para descobrirem do que são capazes. Porque existe uma diferença enorme entre criar uma criança protegida e criar uma criança preparada.
* Arthur Dias Rezende é educador físico e fundador da Tio Arthur Academia. Há mais de uma década, atua com atividade física infantil e na criação de experiências que unem desenvolvimento, segurança, movimento e diversão.
A infância está ficando confortável demais?
Na tentativa de proteger nossos filhos de tudo, talvez estejamos eliminando também o esforço, a frustração, os desafios e as experiências que ajudam uma criança a crescer
Por Arthur Dias Rezende*
Existe uma pergunta incômoda porque toca em algo que quase todo pai e toda mãe faz com boa intenção: será que estamos facilitando demais a infância? Hoje, boa parte da rotina das crianças acontece em ambientes cada vez mais controlados, com menos espaços livres para explorar, improvisar e testar os próprios limites. Ao mesmo tempo, tentamos antecipar imprevistos porque queremos proteger nossos filhos.
O problema começa quando a proteção vira a eliminação de qualquer dificuldade. Uma criança que nunca encontra pequenos desafios também perde oportunidades de descobrir que é capaz de superá-los. Conforto não é o mesmo que segurança. Nenhuma criança precisa ser exposta a riscos desnecessários; segurança é responsabilidade do adulto. Mas existe uma diferença enorme entre colocar uma criança em perigo e permitir que ela enfrente uma dificuldade adequada à idade.
Subir em uma estrutura, aprender a mergulhar, pedalar sem rodinhas, tentar um novo movimento, errar uma sequência, esperar sua vez ou perder uma brincadeira. Para um adulto, podem parecer experiências pequenas, mas para uma criança, são laboratórios de desenvolvimento. É nelas que começa a nascer uma mensagem poderosa: “Eu consigo enfrentar coisas difíceis”.
Talvez estejamos ajudando demais. Para quem cuida de uma criança, é difícil resistir ao impulso de resolver imediatamente. Ela não consegue abrir algo, o adulto abre. Não alcança, o adulto pega. Está com dificuldade, o adulto interfere. Sem perceber, substituímos experiências de autonomia por eficiência. Para o adulto, tudo fica mais rápido; para criança, desaparece uma oportunidade de aprender.
Queremos filhos independentes, mas muitas vezes não suportamos assistir ao processo necessário para que construam independência. Autonomia demora, faz bagunça, exige repetição e produz erros. E exige do adulto algo talvez ainda mais difícil do que ajudar: esperar.
Frustração também faz parte
Nenhum pai gosta de ver o filho frustrado. Mas a solução não pode ser construir uma vida em que ele nunca precise lidar com frustração. A infância oferece uma oportunidade privilegiada para experimentar pequenas doses dela em ambientes seguros.
No esporte, isso acontece o tempo todo. A criança tenta um movimento e erra. Tenta novamente. Observa. Recebe orientação. Melhora. Quase consegue. E finalmente realiza. O valor dessa experiência vai além da habilidade aprendida: ela percebe que nem tudo acontece na 1ª tentativa.
Existe ainda outra consequência de uma infância excessivamente confortável: o corpo deixa de ser colocado à prova. Criança precisa correr, saltar, equilibrar, arremessar, garrar, empurrar, puxar, escalar, rolar, dançar, nadar e pedalar. Precisa experimentar diferentes velocidades, superfícies, alturas, direções e movimentos. Não para transformá-la em atleta, mas porque o corpo aprende usando o próprio corpo.
É por isso que ambientes com desafios progressivos têm tanto valor. O desafio precisa provocar esforço, sem se transformar em ameaça. Essa é uma linha delicada – e é justamente aí que entra o papel de um bom professor.
Um bom professor não remove o desafio. Ele torna o desafio possível. Uma cena comum em uma aula infantil acontece quando a criança olha para uma tarefa e diz: “Não consigo!”. A partir daí, existem dois caminhos: retirar o desafio ou ajudá-la a descobrir como enfrentá-lo. Às vezes, o professor reduz a dificuldade. Em outras, oferece apoio, demonstra, segura uma mão ou simplesmente diz: “Vamos tentar juntos”.
Até que um dia a ajuda não é mais necessária e algo importante acontece: a criança fez. A tarefa era apenas o cenário. A verdadeira conquista foi perceber a própria capacidade. É assim que a confiança se constrói.
Por isso, ensinar atividade física infantil exige entender mais que exercício. Exige entender sobre desenvolvimento. Durante a infância, podemos oferecer experiências em que a criança descubra que esforço não é punição; errar não é fracasso; cair não encerra uma tentativa; esperar também faz parte; e algumas conquistas exigem tempo. Principalmente, ela precisa descobrir que é capaz de evoluir. Talvez, então, a pergunta não seja “como proteger meu filho de todo desconforto?”, mas “quais desafios meu filho já é capaz de enfrentar?”.
Isso muda a posição do adulto. Deixamos de remover todas as pedras do caminho e passamos a criar um ambiente seguro para que a criança aprenda a atravessá-las. Talvez nossos filhos não precisem de uma infância mais confortável, precisem de uma infância rica em experiências, com proteção suficiente para que se sintam seguros e desafios suficientes para descobrirem do que são capazes. Porque existe uma diferença enorme entre criar uma criança protegida e criar uma criança preparada.
* Arthur Dias Rezende é educador físico e fundador da Tio Arthur Academia. Há mais de uma década, atua com atividade física infantil e na criação de experiências que unem desenvolvimento, segurança, movimento e diversão.
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