“Adaptação não é abandonar aquilo que você sabe. É descobrir outra maneira de usar esse conhecimento”, aconselha Amaury Martins, com quem conversei essa semana
Por Miguel El Debs*
Há empreendedores que constroem a trajetória seguindo um plano. Outros vão construindo o caminho na medida em que aprendem a ler as mudanças do mercado. A história de Amaury Martins me parece pertencer ao segundo grupo.
Quando olho para suas mais de três décadas de atuação profissional e empreendedora, o que chama minha atenção não é apenas a quantidade de experiências acumuladas, mas a capacidade de aproveitar o aprendizado de uma fase para entrar mais preparado na seguinte.
Amaury começou cedo e, em 1993, com quase 19 anos, já estava à frente de uma pizzaria. Foi trabalhando nela que teve sua 1ª aula prática sobre negócios. Foi garçom, motoboy, comprador, cuidou da contabilidade e aprendeu até a fazer pizza.
E foi também quando entendeu uma regra que carregaria pela vida: quem empreende precisa conhecer o próprio negócio. Só que alguns anos depois viria uma 2ª lição, talvez ainda mais importante.
Conhecer tudo não significa fazer tudo
Já em uma agência de publicidade, Amaury viveu uma fase de crescimento rápido. Os anos iniciais trouxeram bons resultados e, junto a eles, veio a vontade de ampliar. Agência de modelos, distribuição de panfletos, produtora. Parecia uma evolução natural. Não foi.
“Querer verticalizar tudo parecia força, mas virou fragilidade”, avalia Amaury sobre aquele momento. A operação perdeu o controle e a experiência colocou em xeque muito mais que um projeto empresarial. É difícil ver algo que você construiu escapar das mãos e simplesmente seguir como se nada tivesse acontecido.
Então, Amaury fez uma leitura importante daquele momento. Não tratou a experiência como prova de que não sabia empreender e percebeu que havia cometido erros de gestão. Voltou para a CLT e passou anos aprendendo exatamente aquilo que havia faltado.
Esse ponto da história me interessa particularmente porque existe uma maturidade que só aparece quando conseguimos separar fracasso de identidade.
Um negócio pode dar errado. Uma decisão pode ser ruim. Isso não significa que toda a trajetória terminou ali.
Quando voltou a empreender, Amaury tinha outra cabeça: continuava querendo entender todas as partes do negócio, mas já não queria executar tudo sozinho. Vieram parceiros, sócios e especialistas. “Continuo querendo entender tudo, mas hoje construo com gente boa do lado”, explica.
Quando a ameaça vira pergunta
A 3ª grande virada aconteceu durante os anos de gestão no rádio e ganhou força na pandemia. O modelo tradicional já vinha sendo pressionado pelo digital e, de repente, adaptar deixou de ser uma discussão sobre futuro para virar necessidade imediata. Dessa inquietação nasceram novas iniciativas, entre elas a Rádio Break e, mais tarde, a Star Live, e projetos digitais começaram a caminhar junto com a mídia tradicional.
Amaury resume essa fase de um jeito interessante: “adaptação não é abandonar aquilo que você sabe. É descobrir outra maneira de usar esse conhecimento”. Isso muda a forma de olhar para uma transformação de mercado.
“Em vez de perguntar o que eu vou perder, eu pergunto: o que isso me permite fazer que eu não fazia antes?”
— Amaury Martins
Foi assim quando percebeu que a compra de mídia em rádio poderia ser facilitada por meio de uma plataforma. Tem sido assim com o social commerce e agora também com a inteligência artificial, que ele enxerga como uma forma de reduzir processos demorados e abrir espaço para novas possibilidades.
A frase dele que talvez melhor sintetize essa visão é simples: “Ameaça, para mim, nunca foi a mudança. A ameaça é ficar parado enquanto ela passa”.
E ficar parado parece ser justamente algo difícil para Amaury. Hoje, depois de tantos anos, ele continua procurando modelos novos, canais diferentes e oportunidades que ainda não estão evidentes para todo mundo. Fala sobre regionalização do rádio para o agronegócio e novas funções que surgem junto com essas transformações.
Não é novidade pela novidade; é curiosidade aplicada ao negócio.
O que permanece quando tudo muda
No fim da nossa conversa, pedi que Amaury imaginasse um encontro com aquele jovem de 1993. O que ele diria? “Ele falaria sobre delegar, sobre escolher bem quem caminha ao seu lado. Diria que erros vão acontecer e que alguns deles serão aprendizados caros”, afirma.
Mas completa garantindo que falaria principalmente sobre duas coisas que não aparecem em balanços ou apresentações comerciais: relações e reputação.
“Negócios mudam, mercados mudam, mas as pessoas que confiam em você e no nome que constrói acompanham você a vida inteira.”
Talvez esteja aí uma das boas lições dessa trajetória. Empreender durante muitos anos não significa acertar durante muitos anos. Significa aprender, mudar de opinião, reconhecer erros, construir novas parcerias e continuar curioso o suficiente para perceber que aquilo que funcionou ontem pode não ser suficiente amanhã. Experiência não deveria servir para nos convencer de que já sabemos.
Talvez seu maior valor seja justamente nos ensinar a continuar perguntando.
Miguel El Debs | Crédito: Érico Andrade
Se você conhece alguém com uma história empreendedora que merece ser contada, escreva para 📩 contato@grupozumm.com.br
* Miguel El Debs é sócio do Grupo ZK, conselheiro estratégico de empresas de pequeno e médio porte, head do DBS|Hub, colunista da Zumm e da KissFM sobre empreendedorismo.
A inquietação de quem escolheu continuar aprendendo
“Adaptação não é abandonar aquilo que você sabe. É descobrir outra maneira de usar esse conhecimento”, aconselha Amaury Martins, com quem conversei essa semana
Por Miguel El Debs*
Há empreendedores que constroem a trajetória seguindo um plano. Outros vão construindo o caminho na medida em que aprendem a ler as mudanças do mercado. A história de Amaury Martins me parece pertencer ao segundo grupo.
Quando olho para suas mais de três décadas de atuação profissional e empreendedora, o que chama minha atenção não é apenas a quantidade de experiências acumuladas, mas a capacidade de aproveitar o aprendizado de uma fase para entrar mais preparado na seguinte.
Amaury começou cedo e, em 1993, com quase 19 anos, já estava à frente de uma pizzaria. Foi trabalhando nela que teve sua 1ª aula prática sobre negócios. Foi garçom, motoboy, comprador, cuidou da contabilidade e aprendeu até a fazer pizza.
E foi também quando entendeu uma regra que carregaria pela vida: quem empreende precisa conhecer o próprio negócio. Só que alguns anos depois viria uma 2ª lição, talvez ainda mais importante.
Conhecer tudo não significa fazer tudo
Já em uma agência de publicidade, Amaury viveu uma fase de crescimento rápido. Os anos iniciais trouxeram bons resultados e, junto a eles, veio a vontade de ampliar. Agência de modelos, distribuição de panfletos, produtora. Parecia uma evolução natural. Não foi.
“Querer verticalizar tudo parecia força, mas virou fragilidade”, avalia Amaury sobre aquele momento. A operação perdeu o controle e a experiência colocou em xeque muito mais que um projeto empresarial. É difícil ver algo que você construiu escapar das mãos e simplesmente seguir como se nada tivesse acontecido.
Então, Amaury fez uma leitura importante daquele momento. Não tratou a experiência como prova de que não sabia empreender e percebeu que havia cometido erros de gestão. Voltou para a CLT e passou anos aprendendo exatamente aquilo que havia faltado.
Esse ponto da história me interessa particularmente porque existe uma maturidade que só aparece quando conseguimos separar fracasso de identidade.
Quando voltou a empreender, Amaury tinha outra cabeça: continuava querendo entender todas as partes do negócio, mas já não queria executar tudo sozinho. Vieram parceiros, sócios e especialistas. “Continuo querendo entender tudo, mas hoje construo com gente boa do lado”, explica.
Quando a ameaça vira pergunta
A 3ª grande virada aconteceu durante os anos de gestão no rádio e ganhou força na pandemia. O modelo tradicional já vinha sendo pressionado pelo digital e, de repente, adaptar deixou de ser uma discussão sobre futuro para virar necessidade imediata. Dessa inquietação nasceram novas iniciativas, entre elas a Rádio Break e, mais tarde, a Star Live, e projetos digitais começaram a caminhar junto com a mídia tradicional.
Amaury resume essa fase de um jeito interessante: “adaptação não é abandonar aquilo que você sabe. É descobrir outra maneira de usar esse conhecimento”. Isso muda a forma de olhar para uma transformação de mercado.
Foi assim quando percebeu que a compra de mídia em rádio poderia ser facilitada por meio de uma plataforma. Tem sido assim com o social commerce e agora também com a inteligência artificial, que ele enxerga como uma forma de reduzir processos demorados e abrir espaço para novas possibilidades.
A frase dele que talvez melhor sintetize essa visão é simples: “Ameaça, para mim, nunca foi a mudança. A ameaça é ficar parado enquanto ela passa”.
E ficar parado parece ser justamente algo difícil para Amaury. Hoje, depois de tantos anos, ele continua procurando modelos novos, canais diferentes e oportunidades que ainda não estão evidentes para todo mundo. Fala sobre regionalização do rádio para o agronegócio e novas funções que surgem junto com essas transformações.
Não é novidade pela novidade; é curiosidade aplicada ao negócio.
O que permanece quando tudo muda
No fim da nossa conversa, pedi que Amaury imaginasse um encontro com aquele jovem de 1993. O que ele diria? “Ele falaria sobre delegar, sobre escolher bem quem caminha ao seu lado. Diria que erros vão acontecer e que alguns deles serão aprendizados caros”, afirma.
Mas completa garantindo que falaria principalmente sobre duas coisas que não aparecem em balanços ou apresentações comerciais: relações e reputação.
“Negócios mudam, mercados mudam, mas as pessoas que confiam em você e no nome que constrói acompanham você a vida inteira.”
Talvez esteja aí uma das boas lições dessa trajetória. Empreender durante muitos anos não significa acertar durante muitos anos. Significa aprender, mudar de opinião, reconhecer erros, construir novas parcerias e continuar curioso o suficiente para perceber que aquilo que funcionou ontem pode não ser suficiente amanhã. Experiência não deveria servir para nos convencer de que já sabemos.
Talvez seu maior valor seja justamente nos ensinar a continuar perguntando.
Se você conhece alguém com uma história empreendedora que merece ser contada, escreva para 📩 contato@grupozumm.com.br
* Miguel El Debs é sócio do Grupo ZK, conselheiro estratégico de empresas de pequeno e médio porte, head do DBS|Hub, colunista da Zumm e da KissFM sobre empreendedorismo.
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