Um fato intrigante é que os ajustes do mercado de trabalho estão ocorrendo via volume de contratações, e não via redução de salários
Por Gabrielle Restini Vecchi Marques*
O mercado de trabalho atravessa uma transformação profunda. Um estudo recente, intitulado “Canaries in the Coal Mine? Six Facts about the Recent Employment Effects of Artificial Intelligence” (Brynjolfsson et al., 2025), traz dados que servem como um alerta para o que podemos esperar nos próximos anos.
A IA não afeta todos de forma igual. O impacto é severo nos jovens (22 a 25 anos) em áreas expostas à tecnologia, que já enfrentam um declínio de 16%. São os “canários na mina” desta transição: enquanto o emprego para veteranos segue estável, o mercado para juniores encolheu, invertendo a lógica tradicional de contratação.
Essa disparidade ocorre porque a IA é particularmente eficiente em substituir o “conhecimento codificado” (aprendizado teórico e dados digitais), que é a base do trabalho de nível júnior. Por outro lado, o “conhecimento tácito” (experiência prática, intuição e julgamento), acumulado por profissionais seniores, permanece mais difícil de automatizar.
Um fato intrigante é que os ajustes do mercado de trabalho estão ocorrendo via volume de contratações, e não via redução de salários. As empresas estão diminuindo o fluxo de entrada de novos trabalhadores, em vez de demitir os atuais ou reduzir seus salários. Essa estratégia de ajuste pelo represamento de novas contratações, embora pareça uma solução de curto prazo para equilibrar as contas diante da automação, acende um alerta vermelho para a sustentabilidade das organizações no futuro.
Ao fechar as portas para o fluxo de entrada de novos talentos, as empresas correm o risco de interromper o ciclo vital de oxigenação interna, bloqueando a chegada de novas ideias, perspectivas disruptivas e aquela energia transformadora que costuma vir das gerações que já nasceram em um ecossistema transformado.
Gabrielle Restini Vecchi Marques
Um mercado de trabalho que não se renova é um ambiente que caminha para a estagnação. Sem a troca constante entre o “conhecimento tácito” dos veteranos e a visão nativa digital dos recém-chegados, a cultura corporativa envelhece precocemente, perdendo a capacidade de inovação e a flexibilidade necessárias para sobreviver a uma era de mudanças exponenciais.
O mercado de trabalho está pedindo um upgrade e o futuro, ainda que cada vez mais digital, nunca precisou ser tão humano e estratégico quanto agora.
* Gabrielle Restini Vecchi Marques (OAB/SP 344.991) é advogada, sócia do Gatto Martinussi e Pelissari Advogados, com atuação em gestão estratégia de passivos trabalhistas, contencioso trabalhista e controladoria jurídica.
A nova realidade do trabalho
Um fato intrigante é que os ajustes do mercado de trabalho estão ocorrendo via volume de contratações, e não via redução de salários
Por Gabrielle Restini Vecchi Marques*
O mercado de trabalho atravessa uma transformação profunda. Um estudo recente, intitulado “Canaries in the Coal Mine? Six Facts about the Recent Employment Effects of Artificial Intelligence” (Brynjolfsson et al., 2025), traz dados que servem como um alerta para o que podemos esperar nos próximos anos.
A IA não afeta todos de forma igual. O impacto é severo nos jovens (22 a 25 anos) em áreas expostas à tecnologia, que já enfrentam um declínio de 16%. São os “canários na mina” desta transição: enquanto o emprego para veteranos segue estável, o mercado para juniores encolheu, invertendo a lógica tradicional de contratação.
Essa disparidade ocorre porque a IA é particularmente eficiente em substituir o “conhecimento codificado” (aprendizado teórico e dados digitais), que é a base do trabalho de nível júnior. Por outro lado, o “conhecimento tácito” (experiência prática, intuição e julgamento), acumulado por profissionais seniores, permanece mais difícil de automatizar.
Um fato intrigante é que os ajustes do mercado de trabalho estão ocorrendo via volume de contratações, e não via redução de salários. As empresas estão diminuindo o fluxo de entrada de novos trabalhadores, em vez de demitir os atuais ou reduzir seus salários. Essa estratégia de ajuste pelo represamento de novas contratações, embora pareça uma solução de curto prazo para equilibrar as contas diante da automação, acende um alerta vermelho para a sustentabilidade das organizações no futuro.
Ao fechar as portas para o fluxo de entrada de novos talentos, as empresas correm o risco de interromper o ciclo vital de oxigenação interna, bloqueando a chegada de novas ideias, perspectivas disruptivas e aquela energia transformadora que costuma vir das gerações que já nasceram em um ecossistema transformado.
Um mercado de trabalho que não se renova é um ambiente que caminha para a estagnação. Sem a troca constante entre o “conhecimento tácito” dos veteranos e a visão nativa digital dos recém-chegados, a cultura corporativa envelhece precocemente, perdendo a capacidade de inovação e a flexibilidade necessárias para sobreviver a uma era de mudanças exponenciais.
O mercado de trabalho está pedindo um upgrade e o futuro, ainda que cada vez mais digital, nunca precisou ser tão humano e estratégico quanto agora.
* Gabrielle Restini Vecchi Marques (OAB/SP 344.991) é advogada, sócia do Gatto Martinussi e Pelissari Advogados, com atuação em gestão estratégia de passivos trabalhistas, contencioso trabalhista e controladoria jurídica.
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