O neurologista Francisco Coletto explica que a busca por estímulos que elevam os níveis de dopamina pode ser agravado pelo excesso de redes sociais, streaming e até ultraprocessados
Você com certeza já ouviu ou leu em algum lugar a expressão “vício em dopamina”, que seria uma tendência atual de busca compulsiva por estímulos que geram prazer rápido, como as redes sociais, os jogos de azar ou comida. Mas o que gera essa compulsão? É realmente um vício? E, afinal, o que é a dopamina?
Para explicar esse conceito de uma maneira mais ampla, o Portal Zumm conversou com o neurologista Francisco Antonio Coletto (CRM 80503), que começou esclarecendo que a dopamina é a verdadeira conexão entre os nossos hábitos sociais e alimentares com a nossa mente.
A famosa dopamina
A dopamina é uma molécula química produzida pelos neurônios, que atua como mensageira no cérebro, permitindo que os próprios neurônios se comuniquem entre si e com diferentes áreas cerebrais. Popularmente conhecida como “a molécula do prazer”, ela desempenha um papel essencial no corpo, sendo responsável pelo controle de movimentos, motivação, prazer, aprendizado, atenção e tomada de decisões.
Além disso, a dopamina é como um “sinalizador” no cérebro, explica o médico, “recompensando por determinado comportamento e incentivando sua repetição; mecanismo crucial para a sobrevivência”. Sendo assim, comportamentos básicos como alimentação e reprodução estão associados à liberação desse neurotransmissor.
(Ao mesmo tempo, é daí que você pode ter visto, recentemente, alguns vídeos nas redes sociais que acusam o “vício em dopamina” como um dos fatores que causam falta de atenção e de concentração não só nas crianças como em adultos).
“Quando nos envolvemos em algo que proporciona satisfação, seja uma refeição, uma música ou interações sociais positivas, a dopamina estimula partes do cérebro muito importantes na percepção de prazer e motivação para repetir comportamentos recompensadores”, destaca o neurologista.
É como quando prometemos a nós mesmos que, depois de realizarmos uma determinada tarefa, especialmente aquelas vistas aos como difíceis e custosas, poderemos nos recompensar com doces ou com algo que nos faça feliz.
Dr. Francisco Antonio Coletto
O que é “vicio” em dopamina?
Mesmo que o especialista afirme que se “viciar” em dopamina seja algo impossível, a expressão popular é utilizada para se referir a busca compulsiva por estímulos que elevem os níveis desse neurotransmissor. Segundo Coletto, “não é a dopamina em si que causa dependência, mas o circuito de recompensa cerebral”.
Para que possamos compreender melhor, o médico explica: “o que ocorre é uma dependência de comportamentos (ou substâncias) que estimulam repetidamente esse sistema de recompensa. Esses comportamentos, por sua vez, fortalecem um circuito de ‘recompensa patológica’, no qual a pessoa afetada busca repetidamente estímulos que aumentem os níveis de dopamina, resultando na diminuição do prazer nas atividades cotidianas“.
O problema está no excesso de estímulos
Basicamente, é como se, a cada vez que temos um comportamento que estimula a produção em excesso de dopamina (como acessar redes sociais incessantemente), o cérebro registra como uma atividade de compensação rápida e satisfatória – e a dopamina aumenta. Com o tempo (que não é tão longo quanto se imagina) o cérebro “se adapta” a esse excesso e exige estímulos mais intensos para atingir o mesmo nível de prazer.
“Com a repetição excessiva desses estímulos, há redução da sensibilidade aos estímulos naturais, necessidade de doses cada vez maiores para se obter o mesmo efeito e se prioriza aquele comportamento em detrimento a outros aspectos da vida”, alerta o especialista.
Exemplo prático: uma pessoa passa horas nas redes sociais, sentindo-se bem por receber curtidas em suas postagens; contudo, logo percebe que precisa de mais engajamento para sentir o mesmo efeito. Essa dependência, como explica o médico, pode produzir sintomas de ansiedade quando a pessoa está longe do celular e até insônia (diante da necessidade de checar as notificações dia e noite).
As redes sociais não são as únicas vilãs
Uma pesquisa publicada pela revista Nature indicou que a mera presença do celular em um ambiente traz consequências negativas para a cognição, a atenção, e, consequentemente, a velocidade da realização de atividades.
Mas vale lembrar que o problema vai além das redes sociais. O cérebro humano é naturalmente programado para buscar novidades, a exemplo dos fornecidos nos ambientes digitais – de redes sociais a jogos de azar e até plataformas de streaming. Esses estímulos oferecem recompensas rápidas e intensas, o que dificulta atividades que demandam paciência ou esforço prolongado.
O que acontece é que quando uma recompensa é adquirida rapidamente, de forma intensa e frequente, há uma redução da tolerância à frustração, ao esforço e ao tempo de espera. “O cérebro se ajusta, diminuindo o nível da atividade dopaminérgica. Isso faz com que busquemos estímulos ainda mais intensos para alcançar o mesmo grau de prazer”.
O mesmo poderia ser dito sobre alimentos ultraprocessados, uma vez que comidas ricas em açúcar, sal e gordura são bioquimicamente programados para provocar a liberação de dopamina.
Como identificar uma sobrecarga de dopamina no sistema?
Coletto aponta que a busca incessante por estímulos recompensadores podem gerar sintomas como:
Dificuldade de manter foco em tarefas simples;
Irritabilidade ou ansiedade quando afastado do estímulo (por exemplo, celular ou redes sociais);
Sensação constante de tédio e prazer diminuído em atividades cotidianas;
Necessidade de estímulos cada vez mais vívidos;
Procrastinação e uma busca incessante por gratificação instantânea;
Redução do prazer em atividades simples e corriqueiras.
Apesar de a maioria serem sintomas perceptíveis, o neurologista deixa claro que esses sinais devem sempre ser avaliados no contexto clínico individual e que, se esses sintomas interferem na vida diária, é muito importante buscar orientação profissional.
O tão sonhado equilíbrio dopaminérgico
Uma vez identificado esse esgotamento descrito por Coletto, é necessário passar por um processo para reconquistar o equilíbrio dopaminérgico. Não se engane: não é um “detox” de dopamina como se o objetivo fosse chegar a 0. O neurotransmissor é muito importante para a saúde da nossa mente e não pode ser encarado como vilão.
“A ideia é reequilibrar o circuito dopaminérgico, restaurar a sensibilidade de receptores de dopamina e diminuir a necessidade de gratificação imediata e instantânea”.
Assim, algumas medidas para amenizar a situação podem incluir a redução de estímulos altamente recompensadores, “como pausas digitais com restrição ao uso de redes sociais e dispositivos eletrônicos; ter sono suficiente e de qualidade; manter exercícios físicos regulares (fazer atividades como meditação, ioga e caminhadas); estabelecer rotinas, metas progressivas e realistas; e acompanhamento médico e psicológico quando necessário”.
Tais estratégias trabalham para ajudar o cérebro a restaurar seu prazer com recompensas naturais, fáceis e significativas.
Durante esse processo de “desintoxicação”, alguns comportamentos tendem a aparecer como dificuldade de adaptação, irritabilidade e uma sensação de vazio: “o cérebro está ‘viciado’ em estímulos intensos e facilmente obtidos”.
Como exemplo disso basta observar as inúmeras tentativas de detox das redes sociais baseadas única e exclusivamente em deletar o aplicativo do celular. No 1º dia, a pessoa naturalmente sente ansiedade, pega instintiva e automaticamente o celular várias vezes, e sente que “não há nada para fazer”. Sua mente busca a gratificação que antes vinha facilmente.
“Esse desconforto inicial se assemelha a sensação de abstinência encontrada em dependências químicas, mas é importante lembrar ao paciente que isso é normal e esperado”.
O neurologista esclarece que após a fase inicial de abstinência, muitos parecem experimentar algum tipo de prazer em tarefas simples que antes passavam despercebidas.
“Um jovem que estava hiperestimulado pelas redes sociais percebe que consegue mergulhar mais profundamente na leitura de um livro, algo que antes achava monótono. Ele menciona sentir uma sensação de satisfação ao terminar capítulos inteiros, quando antes não completava sequer uma página sem querer checar o telefone”, conta. É a partir dessa “desintoxicação” que o cérebro começa a reavaliar atividades demoradas e a reconfigurá-las como recompensadoras, sem a necessidade de hiperestimulação.
Deixa fluir
Pesquisas revelam que interrupções repetidas, mesmo de até 2 a 3 minutos, podem levar até 25 minutos para que o cérebro retorne ao mesmo nível de foco. “Com menos estímulos artificiais, as pessoas se sentem mais conectadas emocionalmente ao momento presente e percebem uma redução das flutuações de humor devido aos picos e quedas repentinos de dopamina”.
Da mesma forma, durante o “detox”, a falta de estímulos rápidos reduz a compulsão por decisões impulsivas, refletindo em um maior autocontrole. “Uma das mudanças mais relatadas é quanto à qualidade do sono. Ao evitar telas antes de dormir (especialmente redes sociais), a produção de melatonina deixa de ser inibida pela luz. Isso resulta em um sono mais profundo e reparador”. Isso porque, de acordo com vários estudos, a luz azul pode atrasar o início do sono em até 90 minutos, afetando negativamente o ciclo natural de sono e acarretando cansaço em longo prazo.
“Longe de ser vilã, a dopamina é uma aliada essencial para a saúde física e emocional, mas exige equilíbrio. Ajustando nossos hábitos e diminuindo hiperestimulações artificiais, conseguimos reconectar o cérebro a prazeres simples e significativos, que não dependem de picos rápidos de recompensa.”
Especialista explica ‘vício em dopamina’ e sua relação com a internet
O neurologista Francisco Coletto explica que a busca por estímulos que elevam os níveis de dopamina pode ser agravado pelo excesso de redes sociais, streaming e até ultraprocessados
Você com certeza já ouviu ou leu em algum lugar a expressão “vício em dopamina”, que seria uma tendência atual de busca compulsiva por estímulos que geram prazer rápido, como as redes sociais, os jogos de azar ou comida. Mas o que gera essa compulsão? É realmente um vício? E, afinal, o que é a dopamina?
Para explicar esse conceito de uma maneira mais ampla, o Portal Zumm conversou com o neurologista Francisco Antonio Coletto (CRM 80503), que começou esclarecendo que a dopamina é a verdadeira conexão entre os nossos hábitos sociais e alimentares com a nossa mente.
A famosa dopamina
A dopamina é uma molécula química produzida pelos neurônios, que atua como mensageira no cérebro, permitindo que os próprios neurônios se comuniquem entre si e com diferentes áreas cerebrais. Popularmente conhecida como “a molécula do prazer”, ela desempenha um papel essencial no corpo, sendo responsável pelo controle de movimentos, motivação, prazer, aprendizado, atenção e tomada de decisões.
Além disso, a dopamina é como um “sinalizador” no cérebro, explica o médico, “recompensando por determinado comportamento e incentivando sua repetição; mecanismo crucial para a sobrevivência”. Sendo assim, comportamentos básicos como alimentação e reprodução estão associados à liberação desse neurotransmissor.
(Ao mesmo tempo, é daí que você pode ter visto, recentemente, alguns vídeos nas redes sociais que acusam o “vício em dopamina” como um dos fatores que causam falta de atenção e de concentração não só nas crianças como em adultos).
É como quando prometemos a nós mesmos que, depois de realizarmos uma determinada tarefa, especialmente aquelas vistas aos como difíceis e custosas, poderemos nos recompensar com doces ou com algo que nos faça feliz.
O que é “vicio” em dopamina?
Mesmo que o especialista afirme que se “viciar” em dopamina seja algo impossível, a expressão popular é utilizada para se referir a busca compulsiva por estímulos que elevem os níveis desse neurotransmissor. Segundo Coletto, “não é a dopamina em si que causa dependência, mas o circuito de recompensa cerebral”.
Para que possamos compreender melhor, o médico explica: “o que ocorre é uma dependência de comportamentos (ou substâncias) que estimulam repetidamente esse sistema de recompensa. Esses comportamentos, por sua vez, fortalecem um circuito de ‘recompensa patológica’, no qual a pessoa afetada busca repetidamente estímulos que aumentem os níveis de dopamina, resultando na diminuição do prazer nas atividades cotidianas“.
O problema está no excesso de estímulos
Basicamente, é como se, a cada vez que temos um comportamento que estimula a produção em excesso de dopamina (como acessar redes sociais incessantemente), o cérebro registra como uma atividade de compensação rápida e satisfatória – e a dopamina aumenta. Com o tempo (que não é tão longo quanto se imagina) o cérebro “se adapta” a esse excesso e exige estímulos mais intensos para atingir o mesmo nível de prazer.
Exemplo prático: uma pessoa passa horas nas redes sociais, sentindo-se bem por receber curtidas em suas postagens; contudo, logo percebe que precisa de mais engajamento para sentir o mesmo efeito. Essa dependência, como explica o médico, pode produzir sintomas de ansiedade quando a pessoa está longe do celular e até insônia (diante da necessidade de checar as notificações dia e noite).
As redes sociais não são as únicas vilãs
Uma pesquisa publicada pela revista Nature indicou que a mera presença do celular em um ambiente traz consequências negativas para a cognição, a atenção, e, consequentemente, a velocidade da realização de atividades.
Mas vale lembrar que o problema vai além das redes sociais. O cérebro humano é naturalmente programado para buscar novidades, a exemplo dos fornecidos nos ambientes digitais – de redes sociais a jogos de azar e até plataformas de streaming. Esses estímulos oferecem recompensas rápidas e intensas, o que dificulta atividades que demandam paciência ou esforço prolongado.
O que acontece é que quando uma recompensa é adquirida rapidamente, de forma intensa e frequente, há uma redução da tolerância à frustração, ao esforço e ao tempo de espera. “O cérebro se ajusta, diminuindo o nível da atividade dopaminérgica. Isso faz com que busquemos estímulos ainda mais intensos para alcançar o mesmo grau de prazer”.
O mesmo poderia ser dito sobre alimentos ultraprocessados, uma vez que comidas ricas em açúcar, sal e gordura são bioquimicamente programados para provocar a liberação de dopamina.
Como identificar uma sobrecarga de dopamina no sistema?
Coletto aponta que a busca incessante por estímulos recompensadores podem gerar sintomas como:
Apesar de a maioria serem sintomas perceptíveis, o neurologista deixa claro que esses sinais devem sempre ser avaliados no contexto clínico individual e que, se esses sintomas interferem na vida diária, é muito importante buscar orientação profissional.
O tão sonhado equilíbrio dopaminérgico
Uma vez identificado esse esgotamento descrito por Coletto, é necessário passar por um processo para reconquistar o equilíbrio dopaminérgico. Não se engane: não é um “detox” de dopamina como se o objetivo fosse chegar a 0. O neurotransmissor é muito importante para a saúde da nossa mente e não pode ser encarado como vilão.
Assim, algumas medidas para amenizar a situação podem incluir a redução de estímulos altamente recompensadores, “como pausas digitais com restrição ao uso de redes sociais e dispositivos eletrônicos; ter sono suficiente e de qualidade; manter exercícios físicos regulares (fazer atividades como meditação, ioga e caminhadas); estabelecer rotinas, metas progressivas e realistas; e acompanhamento médico e psicológico quando necessário”.
Tais estratégias trabalham para ajudar o cérebro a restaurar seu prazer com recompensas naturais, fáceis e significativas.
Durante esse processo de “desintoxicação”, alguns comportamentos tendem a aparecer como dificuldade de adaptação, irritabilidade e uma sensação de vazio: “o cérebro está ‘viciado’ em estímulos intensos e facilmente obtidos”.
Como exemplo disso basta observar as inúmeras tentativas de detox das redes sociais baseadas única e exclusivamente em deletar o aplicativo do celular. No 1º dia, a pessoa naturalmente sente ansiedade, pega instintiva e automaticamente o celular várias vezes, e sente que “não há nada para fazer”. Sua mente busca a gratificação que antes vinha facilmente.
O neurologista esclarece que após a fase inicial de abstinência, muitos parecem experimentar algum tipo de prazer em tarefas simples que antes passavam despercebidas.
“Um jovem que estava hiperestimulado pelas redes sociais percebe que consegue mergulhar mais profundamente na leitura de um livro, algo que antes achava monótono. Ele menciona sentir uma sensação de satisfação ao terminar capítulos inteiros, quando antes não completava sequer uma página sem querer checar o telefone”, conta. É a partir dessa “desintoxicação” que o cérebro começa a reavaliar atividades demoradas e a reconfigurá-las como recompensadoras, sem a necessidade de hiperestimulação.
Deixa fluir
Pesquisas revelam que interrupções repetidas, mesmo de até 2 a 3 minutos, podem levar até 25 minutos para que o cérebro retorne ao mesmo nível de foco. “Com menos estímulos artificiais, as pessoas se sentem mais conectadas emocionalmente ao momento presente e percebem uma redução das flutuações de humor devido aos picos e quedas repentinos de dopamina”.
Da mesma forma, durante o “detox”, a falta de estímulos rápidos reduz a compulsão por decisões impulsivas, refletindo em um maior autocontrole. “Uma das mudanças mais relatadas é quanto à qualidade do sono. Ao evitar telas antes de dormir (especialmente redes sociais), a produção de melatonina deixa de ser inibida pela luz. Isso resulta em um sono mais profundo e reparador”. Isso porque, de acordo com vários estudos, a luz azul pode atrasar o início do sono em até 90 minutos, afetando negativamente o ciclo natural de sono e acarretando cansaço em longo prazo.
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