Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP se estabeleceu como referência em alta complexidade para o Sistema Único de Saúde (SUS)
O passado e o futuro caminharam lado a lado nos 70 anos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP). Referência nacional em assistência de alta complexidade, ensino e pesquisa, a instituição realizou quase 27 mil cirurgias e 297 transplantes em 2025, números que ajudam a dimensionar seu papel dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Agora, aposta em novas fronteiras da saúde, como a inteligência artificial e a cirurgia robótica.
As comemorações já começaram e continuam com a abertura da exposição “Memórias do HCFMRP-USP”. Ao longo do ano, a programação inclui exposição itinerante, corrida comemorativa, lançamento de livro histórico, inauguração de espaços de memória e homenagens aos profissionais que ajudaram a construir a trajetória da instituição.
Criado em 1956 para servir de hospital-escola da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o Hospital das Clínicas (HC) acompanhou a expansão da universidade e da própria medicina brasileira. Inicialmente instalado na região central da cidade, consolidou-se ao longo das décadas como referência para casos de alta complexidade vindos de todo o interior paulista, além de participar de avanços que marcaram a medicina brasileira, como transplantes, reprodução assistida e cirurgia para tratamento da epilepsia.
Para o superintendente do hospital, o professor Ricardo Cavalli, a história da instituição pode ser compreendida a partir de três grandes momentos: o 1º foi a instalação da unidade original na região central de Ribeirão Preto; o 2º, em 1978, com a transferência para o campus da USP; e o 3º, segundo ele, está sendo construído agora. “Temos agora uma nova Unidade de Emergência. É um novo cenário. Quase uma tríade hospitalar ao longo desses 70 anos”, afirma.
Passado que pavimenta o futuro
Nova Unidade de Emergência é o maior projeto de expansão do HC nas últimas décadas | Crédito: Divulgação/HCFMRP
Já em construção, a nova Unidade de Emergência representa o maior projeto de expansão do HC nas últimas décadas. A estrutura ampliará significativamente a capacidade de atendimento do complexo hospitalar, com novos leitos, centros cirúrgicos e unidades especializadas, fortalecendo sua posição como referência para casos de alta complexidade no interior paulista.
Para Cavalli, no entanto, a nova fase do hospital não se resume ao crescimento físico. Ela também está associada à incorporação de tecnologias capazes de transformar a assistência, a pesquisa e a formação de profissionais de saúde. “Temos tecnologias de ponta em diversas áreas ligadas à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. São estruturas de excelência reconhecidas no estado de São Paulo, no Brasil e até internacionalmente”, destaca.
O desafio, de acordo com o superintendente, é incorporar inovação em um hospital que atende exclusivamente pelo SUS. “Muitas vezes a tecnologia parece cara no momento da aquisição. Mas, quando reduz complicações, tempo de internação e intercorrências, ela passa a ter custo-efetividade no médio prazo”, avalia.
Inteligência artificial no Hospital das Clínicas
A inteligência artificial costuma aparecer associada a promessas futuristas. No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, porém, ela já começa a ser incorporada à rotina de trabalho de médicos, pesquisadores e gestores.
Criado recentemente, o Núcleo de Inteligência Artificial (NIA) representa uma das apostas mais ambiciosas do hospital para os próximos anos. A ideia é construir capacidade própria para desenvolver, treinar e validar sistemas de inteligência artificial voltados às necessidades do SUS.
Uso da inteligência artificial pode ajudar na agilidade do atendimento no HCFMRP | Crédito: Divulgação/HCFMRP
“O objetivo não é simplesmente comprar tecnologia pronta, mas criar uma estrutura capaz de identificar problemas reais da rotina hospitalar, desenvolver ou adaptar soluções, validar essas ferramentas com segurança e incorporá-las de forma responsável ao cuidado, à pesquisa e à gestão”, garante o médico radiologista Julio Cesar Nather Junior, coordenador do núcleo.
O projeto nasceu de uma matéria-prima valiosa, que são os dados produzidos diariamente pelo próprio hospital. Somente em 2025, o HC realizou mais de 800 mil consultas e procedimentos, mais de 1 milhão de atendimentos multidisciplinares e mais de 4 milhões de exames laboratoriais. Somados a décadas de registros médicos, exames de imagem, laudos e prontuários, esses dados formam uma das maiores bases de informações clínicas do país. Transformar esse volume de informação em conhecimento útil para a assistência, a pesquisa e a gestão é um dos principais objetivos do Núcleo de Inteligência Artificial.
Segundo Nather, o núcleo já atua em projetos que utilizam inteligência artificial para triagem de tomografias de crânio com suspeita de hemorragia, identificação de alterações em ressonâncias magnéticas, detecção de novas lesões em pacientes com esclerose múltipla e análise de radiografias de tórax, abdômen e membros inferiores. “Em vez de substituir especialistas, os sistemas funcionam como uma camada adicional de apoio. Exames potencialmente graves podem ser sinalizados mais rapidamente, permitindo que casos urgentes recebam prioridade”.
Outra frente de trabalho busca atacar um dos maiores gargalos da medicina contemporânea: a burocracia. Projetos em desenvolvimento permitem que a inteligência artificial transforme automaticamente consultas gravadas em textos estruturados para prontuários eletrônicos. Em outra aplicação, sistemas analisam informações já registradas e produzem versões preliminares de relatórios médicos, reduzindo o tempo gasto com tarefas repetitivas.
“Quando a inteligência artificial ajuda a recuperar informações do prontuário, apoiar codificação hospitalar, organizar filas ou priorizar exames, ela libera tempo para que os profissionais possam se dedicar ao que realmente importa: o atendimento ao paciente.”
– Julio Cesar Nather Junior, médico radiologista
A expectativa é que os primeiros impactos apareçam justamente nas áreas que concentram grandes volumes de informação. “Diagnóstico por imagem e gestão hospitalar tendem a ser os setores com ganhos mais rápidos. A inteligência artificial pode ajudar a organizar filas, prever demanda, otimizar agendas, apoiar a regulação de leitos e reduzir retrabalho”, explica.
A escolha de desenvolver essas soluções dentro de um hospital universitário também tem uma dimensão estratégica. Enquanto boa parte dos algoritmos disponíveis no mercado internacional é treinada com populações e sistemas de saúde muito diferentes da realidade brasileira, o NIA pretende construir modelos baseados em dados produzidos no próprio SUS.
“Muda muito a lógica. Quando a inteligência artificial é desenvolvida a partir das necessidades do SUS, a prioridade não é apenas criar um produto comercial, mas resolver problemas de acesso, filas, tempo de atendimento, segurança do paciente e uso eficiente dos recursos públicos”, afirma o pesquisador. Ao mesmo tempo, a equipe procura estabelecer salvaguardas para questões éticas e de privacidade, de forma que os projetos passam por processos de governança, anonimização de dados, controle de acesso e avaliação ética antes de serem incorporados às rotinas assistenciais.
O futuro como legado
Com 938 leitos e mais de 52 mil internações registradas em 2025, o HC se consolidou como uma das maiores estruturas hospitalares vinculadas ao SUS no Brasil. Para o diretor da FMRP, Jorge Elias Junior, a importância do hospital vai além da assistência prestada à população. Ao longo de sete décadas, o Hospital das Clínicas se tornou um dos principais ambientes de formação de profissionais de saúde do Brasil, oferecendo aos estudantes contato com diferentes níveis de atenção, casos de alta complexidade e a realidade do sistema público de saúde.
HC de Ribeirão Preto busca ser referência nacional em inteligência artificial aplicada ao SUS | Crédito: Divulgação/HCFMRP
“A crescente adoção de tecnologias como a cirurgia robótica, a inteligência artificial e métodos avançados de diagnóstico influencia diretamente a formação de nossos estudantes e residentes. Essas ferramentas ampliam as possibilidades de diagnóstico, tratamento e gestão do cuidado, mas exigem profissionais capazes de utilizá-las de forma crítica, ética e centrada no ser humano”, afirma.
Segundo o diretor, a expansão do complexo HC-FMRP-Faepa (Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do HCFMRP), que hoje inclui o Hospital Estadual de Ribeirão Preto, o Hospital Santa Tereza e a nova Unidade de Emergência em construção, amplia ainda mais as oportunidades de ensino, pesquisa e assistência dentro do SUS.
Ao refletir sobre o legado construído ao longo de sete décadas, Cavalli afirma que a principal contribuição do HC para o SUS foi consolidar um modelo de assistência altamente especializada associado ao ensino e à pesquisa. “A referência em alta complexidade salva vidas. São casos que muitas vezes só encontram solução em hospitais com esse perfil”.
70 anos depois de sua criação, o hospital que ajudou a transformar Ribeirão Preto em um dos principais polos de saúde do país continua apostando na mesma estratégia que marcou sua trajetória: combinar assistência, formação de profissionais e produção de conhecimento. A diferença é que, agora, parte desse conhecimento também está sendo usada para ensinar algoritmos, desenvolver novas tecnologias e preparar o SUS para os desafios das próximas décadas.
HC de Ribeirão Preto completa 70 anos como referência de tradição e saúde do futuro
Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP se estabeleceu como referência em alta complexidade para o Sistema Único de Saúde (SUS)
O passado e o futuro caminharam lado a lado nos 70 anos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP). Referência nacional em assistência de alta complexidade, ensino e pesquisa, a instituição realizou quase 27 mil cirurgias e 297 transplantes em 2025, números que ajudam a dimensionar seu papel dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Agora, aposta em novas fronteiras da saúde, como a inteligência artificial e a cirurgia robótica.
As comemorações já começaram e continuam com a abertura da exposição “Memórias do HCFMRP-USP”. Ao longo do ano, a programação inclui exposição itinerante, corrida comemorativa, lançamento de livro histórico, inauguração de espaços de memória e homenagens aos profissionais que ajudaram a construir a trajetória da instituição.
Criado em 1956 para servir de hospital-escola da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o Hospital das Clínicas (HC) acompanhou a expansão da universidade e da própria medicina brasileira. Inicialmente instalado na região central da cidade, consolidou-se ao longo das décadas como referência para casos de alta complexidade vindos de todo o interior paulista, além de participar de avanços que marcaram a medicina brasileira, como transplantes, reprodução assistida e cirurgia para tratamento da epilepsia.
Para o superintendente do hospital, o professor Ricardo Cavalli, a história da instituição pode ser compreendida a partir de três grandes momentos: o 1º foi a instalação da unidade original na região central de Ribeirão Preto; o 2º, em 1978, com a transferência para o campus da USP; e o 3º, segundo ele, está sendo construído agora. “Temos agora uma nova Unidade de Emergência. É um novo cenário. Quase uma tríade hospitalar ao longo desses 70 anos”, afirma.
Passado que pavimenta o futuro
Já em construção, a nova Unidade de Emergência representa o maior projeto de expansão do HC nas últimas décadas. A estrutura ampliará significativamente a capacidade de atendimento do complexo hospitalar, com novos leitos, centros cirúrgicos e unidades especializadas, fortalecendo sua posição como referência para casos de alta complexidade no interior paulista.
Para Cavalli, no entanto, a nova fase do hospital não se resume ao crescimento físico. Ela também está associada à incorporação de tecnologias capazes de transformar a assistência, a pesquisa e a formação de profissionais de saúde. “Temos tecnologias de ponta em diversas áreas ligadas à Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. São estruturas de excelência reconhecidas no estado de São Paulo, no Brasil e até internacionalmente”, destaca.
O desafio, de acordo com o superintendente, é incorporar inovação em um hospital que atende exclusivamente pelo SUS. “Muitas vezes a tecnologia parece cara no momento da aquisição. Mas, quando reduz complicações, tempo de internação e intercorrências, ela passa a ter custo-efetividade no médio prazo”, avalia.
Inteligência artificial no Hospital das Clínicas
A inteligência artificial costuma aparecer associada a promessas futuristas. No Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, porém, ela já começa a ser incorporada à rotina de trabalho de médicos, pesquisadores e gestores.
Criado recentemente, o Núcleo de Inteligência Artificial (NIA) representa uma das apostas mais ambiciosas do hospital para os próximos anos. A ideia é construir capacidade própria para desenvolver, treinar e validar sistemas de inteligência artificial voltados às necessidades do SUS.
“O objetivo não é simplesmente comprar tecnologia pronta, mas criar uma estrutura capaz de identificar problemas reais da rotina hospitalar, desenvolver ou adaptar soluções, validar essas ferramentas com segurança e incorporá-las de forma responsável ao cuidado, à pesquisa e à gestão”, garante o médico radiologista Julio Cesar Nather Junior, coordenador do núcleo.
O projeto nasceu de uma matéria-prima valiosa, que são os dados produzidos diariamente pelo próprio hospital. Somente em 2025, o HC realizou mais de 800 mil consultas e procedimentos, mais de 1 milhão de atendimentos multidisciplinares e mais de 4 milhões de exames laboratoriais. Somados a décadas de registros médicos, exames de imagem, laudos e prontuários, esses dados formam uma das maiores bases de informações clínicas do país. Transformar esse volume de informação em conhecimento útil para a assistência, a pesquisa e a gestão é um dos principais objetivos do Núcleo de Inteligência Artificial.
Segundo Nather, o núcleo já atua em projetos que utilizam inteligência artificial para triagem de tomografias de crânio com suspeita de hemorragia, identificação de alterações em ressonâncias magnéticas, detecção de novas lesões em pacientes com esclerose múltipla e análise de radiografias de tórax, abdômen e membros inferiores. “Em vez de substituir especialistas, os sistemas funcionam como uma camada adicional de apoio. Exames potencialmente graves podem ser sinalizados mais rapidamente, permitindo que casos urgentes recebam prioridade”.
Outra frente de trabalho busca atacar um dos maiores gargalos da medicina contemporânea: a burocracia. Projetos em desenvolvimento permitem que a inteligência artificial transforme automaticamente consultas gravadas em textos estruturados para prontuários eletrônicos. Em outra aplicação, sistemas analisam informações já registradas e produzem versões preliminares de relatórios médicos, reduzindo o tempo gasto com tarefas repetitivas.
A expectativa é que os primeiros impactos apareçam justamente nas áreas que concentram grandes volumes de informação. “Diagnóstico por imagem e gestão hospitalar tendem a ser os setores com ganhos mais rápidos. A inteligência artificial pode ajudar a organizar filas, prever demanda, otimizar agendas, apoiar a regulação de leitos e reduzir retrabalho”, explica.
A escolha de desenvolver essas soluções dentro de um hospital universitário também tem uma dimensão estratégica. Enquanto boa parte dos algoritmos disponíveis no mercado internacional é treinada com populações e sistemas de saúde muito diferentes da realidade brasileira, o NIA pretende construir modelos baseados em dados produzidos no próprio SUS.
“Muda muito a lógica. Quando a inteligência artificial é desenvolvida a partir das necessidades do SUS, a prioridade não é apenas criar um produto comercial, mas resolver problemas de acesso, filas, tempo de atendimento, segurança do paciente e uso eficiente dos recursos públicos”, afirma o pesquisador. Ao mesmo tempo, a equipe procura estabelecer salvaguardas para questões éticas e de privacidade, de forma que os projetos passam por processos de governança, anonimização de dados, controle de acesso e avaliação ética antes de serem incorporados às rotinas assistenciais.
O futuro como legado
Com 938 leitos e mais de 52 mil internações registradas em 2025, o HC se consolidou como uma das maiores estruturas hospitalares vinculadas ao SUS no Brasil. Para o diretor da FMRP, Jorge Elias Junior, a importância do hospital vai além da assistência prestada à população. Ao longo de sete décadas, o Hospital das Clínicas se tornou um dos principais ambientes de formação de profissionais de saúde do Brasil, oferecendo aos estudantes contato com diferentes níveis de atenção, casos de alta complexidade e a realidade do sistema público de saúde.
“A crescente adoção de tecnologias como a cirurgia robótica, a inteligência artificial e métodos avançados de diagnóstico influencia diretamente a formação de nossos estudantes e residentes. Essas ferramentas ampliam as possibilidades de diagnóstico, tratamento e gestão do cuidado, mas exigem profissionais capazes de utilizá-las de forma crítica, ética e centrada no ser humano”, afirma.
Segundo o diretor, a expansão do complexo HC-FMRP-Faepa (Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência do HCFMRP), que hoje inclui o Hospital Estadual de Ribeirão Preto, o Hospital Santa Tereza e a nova Unidade de Emergência em construção, amplia ainda mais as oportunidades de ensino, pesquisa e assistência dentro do SUS.
Ao refletir sobre o legado construído ao longo de sete décadas, Cavalli afirma que a principal contribuição do HC para o SUS foi consolidar um modelo de assistência altamente especializada associado ao ensino e à pesquisa. “A referência em alta complexidade salva vidas. São casos que muitas vezes só encontram solução em hospitais com esse perfil”.
70 anos depois de sua criação, o hospital que ajudou a transformar Ribeirão Preto em um dos principais polos de saúde do país continua apostando na mesma estratégia que marcou sua trajetória: combinar assistência, formação de profissionais e produção de conhecimento. A diferença é que, agora, parte desse conhecimento também está sendo usada para ensinar algoritmos, desenvolver novas tecnologias e preparar o SUS para os desafios das próximas décadas.
* Com informações do Jornal da USP
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