Existe uma relação muito particular entre o mineiro e os espaços que habita, e esse pensamento ajudou a moldar uma das identidades mais autênticas do design brasileiro
Por Maura Robusti*
Antes de compreender a arquitetura e o design, Minas Gerais já ocupava um lugar especial na minha memória graças a minha mãe, que veio desse estado rico em histórias, hospitalidade e afeto.
Através dela, Minas passou a fazer parte da minha formação. O cheiro de polvilho, a terra molhada, o fogão a lenha e um céu tão estrelado que parecia não ter fim deixaram lembranças das férias em família em São João Batista do Glória que o tempo não apagou. Eram experiências que ensinavam, sem que eu percebesse, o valor da simplicidade, do pertencimento e dos encontros.
Nessa mesma época, ainda criança, conheci Ouro Preto, e mesmo que não entendesse o seu valor histórico ou arquitetônico, a sensação de grandeza já me impressionava. Aquela atmosfera quase cinematográfica das ruas de pedra, das igrejas e dos morros despertavam um encantamento difícil de explicar.
Anos depois, voltei à cidade com outro olhar, e revisitar aqueles espaços me permitiu enxergar que a arquitetura tem a capacidade de preservar histórias, valores e modos de viver. Ela não é apenas construção, como também memória materializada.
Em Ouro Preto, essa percepção se torna especialmente evidente uma vez que o barroco mineiro revela uma riqueza que traz uma narrativa sobre fé, cultura, trabalho e identidade. As construções dialogam com o tempo e ajudam a contar quem fomos e quem somos.
Por sua história estar ligada aos homens e mulheres escravizados que foram explorados nas minas de ouro, artesãos que transformaram matéria-prima em arte, e às diferentes camadas sociais que ajudaram a construir a identidade brasileira, sua arquitetura carrega registros de dor, resistência, criatividade e transformação.
Caminhar por suas ruas é compreender que preservar patrimônio não se resume a conservar edifícios, mas manter vivas as histórias que eles carregam.
Não por acaso, Ouro Preto abriga um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos do mundo e algumas das obras mais emblemáticas de Aleijadinho.
Talvez por isso Minas tenha tanta influência sobre a forma como entendemos a casa e o design. Existe uma relação muito particular entre o mineiro e os espaços que habita – a casa não é apenas abrigo, é lugar de encontro, acolhimento e construção de memórias.
Esse pensamento ajudou a moldar uma das identidades mais autênticas do design brasileiro: uma identidade que valoriza materiais naturais, técnicas artesanais, texturas, imperfeições e objetos que carregam história.
Maura Robusti | Crédito: Érico Andrade
A partir dessa identidade, o estado se tornou referência em mobiliário, artesanato e produção autoral, e hoje fabrica peças que trabalham para transmitir tradição e pertencimento, de modo a atravessar gerações sem perder significado e ajudando a transformar uma casa em lar.
Para muitos, Ouro Preto representa patrimônio, história e arquitetura. Para mim, ela é uma forma de viver que valoriza pessoas, memórias e espaços que construímos ao longo da vida. Minas Gerais, como um todo, deixou de ser uma referência geográfica, é uma maneira de sentir, de receber e de habitar o mundo.
Algumas memórias, por mais que o tempo passe, continuam morando dentro da gente, como aquelas casas para as quais sempre encontramos o caminho de volta.
* Maura Robusti é diretora do Mundo Robusti, um dos maiores do segmento de móveis e decoração do interior do estado de São Paulo.
Minas Gerais tem gosto de memória
Existe uma relação muito particular entre o mineiro e os espaços que habita, e esse pensamento ajudou a moldar uma das identidades mais autênticas do design brasileiro
Por Maura Robusti*
Antes de compreender a arquitetura e o design, Minas Gerais já ocupava um lugar especial na minha memória graças a minha mãe, que veio desse estado rico em histórias, hospitalidade e afeto.
Através dela, Minas passou a fazer parte da minha formação. O cheiro de polvilho, a terra molhada, o fogão a lenha e um céu tão estrelado que parecia não ter fim deixaram lembranças das férias em família em São João Batista do Glória que o tempo não apagou. Eram experiências que ensinavam, sem que eu percebesse, o valor da simplicidade, do pertencimento e dos encontros.
Nessa mesma época, ainda criança, conheci Ouro Preto, e mesmo que não entendesse o seu valor histórico ou arquitetônico, a sensação de grandeza já me impressionava. Aquela atmosfera quase cinematográfica das ruas de pedra, das igrejas e dos morros despertavam um encantamento difícil de explicar.
Anos depois, voltei à cidade com outro olhar, e revisitar aqueles espaços me permitiu enxergar que a arquitetura tem a capacidade de preservar histórias, valores e modos de viver. Ela não é apenas construção, como também memória materializada.
Em Ouro Preto, essa percepção se torna especialmente evidente uma vez que o barroco mineiro revela uma riqueza que traz uma narrativa sobre fé, cultura, trabalho e identidade. As construções dialogam com o tempo e ajudam a contar quem fomos e quem somos.
Por sua história estar ligada aos homens e mulheres escravizados que foram explorados nas minas de ouro, artesãos que transformaram matéria-prima em arte, e às diferentes camadas sociais que ajudaram a construir a identidade brasileira, sua arquitetura carrega registros de dor, resistência, criatividade e transformação.
Não por acaso, Ouro Preto abriga um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos do mundo e algumas das obras mais emblemáticas de Aleijadinho.
Talvez por isso Minas tenha tanta influência sobre a forma como entendemos a casa e o design. Existe uma relação muito particular entre o mineiro e os espaços que habita – a casa não é apenas abrigo, é lugar de encontro, acolhimento e construção de memórias.
Esse pensamento ajudou a moldar uma das identidades mais autênticas do design brasileiro: uma identidade que valoriza materiais naturais, técnicas artesanais, texturas, imperfeições e objetos que carregam história.
A partir dessa identidade, o estado se tornou referência em mobiliário, artesanato e produção autoral, e hoje fabrica peças que trabalham para transmitir tradição e pertencimento, de modo a atravessar gerações sem perder significado e ajudando a transformar uma casa em lar.
Para muitos, Ouro Preto representa patrimônio, história e arquitetura. Para mim, ela é uma forma de viver que valoriza pessoas, memórias e espaços que construímos ao longo da vida. Minas Gerais, como um todo, deixou de ser uma referência geográfica, é uma maneira de sentir, de receber e de habitar o mundo.
Algumas memórias, por mais que o tempo passe, continuam morando dentro da gente, como aquelas casas para as quais sempre encontramos o caminho de volta.
* Maura Robusti é diretora do Mundo Robusti, um dos maiores do segmento de móveis e decoração do interior do estado de São Paulo.
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