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O estilo fresco do litoral sardo
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O estilo fresco do litoral sardo

By Redação Zumm on 21 de agosto de 2026

Em alguns projetos que encontrei na Sardenha, a sensação é de que nada foi construído, mas simplesmente descoberto

Por Maura Robusti*

A Sardenha é única. E, embora seja inevitável pensar em suas águas transparentes e areias brancas, a ilha vai muito além da paisagem que encanta à primeira vista. Há ali uma história feita de diferentes povos e culturas que, ao longo dos séculos, deixaram marcas na arquitetura, no artesanato e no modo de viver.

Fenícios, cartagineses e romanos passaram pela ilha, que também viveu a era bizantina e, posteriormente, foi dividida nos reinos de Cagliari, Arborea, Torres e Gallura. Vieram ainda os catalães, os austríacos e, finalmente, a dinastia Saboia, até a incorporação ao Reino da Itália, em 1861. Essa sucessão de influências ajuda a explicar uma identidade tão particular, na qual tradição e contemporaneidade convivem naturalmente. 

É impossível não perceber isso quando observo o trabalho artesanal sardo. A tradição têxtil, familiar e muito antiga, remonta aos tempos romanos. Os desenhos presentes nos tecidos carregam significados que são mais que estética: quase como um alfabeto, possuem uma dimensão simbólica e, muitas vezes, sagrada. 

Na arquitetura e no design de interiores, encontro a mesma essência. O estilo fresco e sofisticado da costa nasce de materiais que pertencem à própria paisagem: pedra bruta, como granito e basalto; madeira maciça, em especial castanheiro e zimbro; terracota e mármore de Orosei. As paredes caiadas se misturam aos tons de areia, bege e terra, enquanto azuis, turquesas e verde-oliva trazem para dentro de casa as cores do mar e da vegetação mediterrânea. 

O mobiliário não busca a produção em escala, e sim a identidade de cada peça. Estúdios criativos têm aproximado mestres artesãos locais de designers contemporâneos, criando ambientes que transitam por um minimalismo acolhedor, com paredes brancas, linhas limpas e detalhes artesanais capazes de aquecer e personalizar os espaços. 

Essa linguagem também aparece nos hotéis, beach clubs e lojas. São estruturas sofisticadas, mas que não intimidam nem se sobrepõem ao entorno. A arquitetura parece saber que não precisa disputar atenção com o mar, as pedras, as oliveiras ou a vegetação. Ela os incorpora. 

Em muitos lugares, o projeto é quase open air. Um forte pode se transformar no telão de uma balada; um desnível natural passa a valorizar a arquitetura; o mar torna-se o cenário de fundo. O impacto visual vem do equilíbrio entre todos esses elementos. 

Talvez por isso eu enxergue algo de Gaudí nessa relação com a natureza: a rejeição ao rígido, ao artificial, e a busca por formas orgânicas. Em alguns projetos, a sensação é de que nada foi construído; foi simplesmente descoberto. As oliveiras ajudam, as grutas também. Entretanto, há algo ainda mais profundo nessa escolha. 

Penso, por exemplo, no trabalho de Andres Fiorese, que não parece querer criar apenas uma obra arquitetônica, mas um cenário. Uma espécie de retorno ao primitivo da ilha, à civilização nurágica, em que a natureza é interpretada. As formas orgânicas se fundem ao granito e criam uma experiência quase teatral. 

E então olho para as marinas, repletas de incríveis barcos que são casas. São belas, sem dúvida. Contudo, diante da grandeza da Costa Sarda, ainda parcialmente selvagem, acabam perdendo. 

A viagem à Sardenha me fez entender que, quando arquitetura, design e natureza encontram o equilíbrio, o resultado não é apenas bonito. Ele nos faz parar, olhar e, por alguns instantes, perguntar: quem somos diante de tudo isso? 

Maura Robusti

* Maura Robusti é diretora do Mundo Robusti, um dos maiores do segmento de móveis e decoração do interior do estado de São Paulo.

Posted in Arq&Decor.
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