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Marina Kocourek em busca de uma das Majors de corrida
Beleza & Bem-estar

Quando correr deixou de ser correr?

By Redação Zumm on 9 de setembro de 2026

De repente, parecia que ninguém mais podia simplesmente treinar. Era suplemento, vitamina, tênis, tratamento e quase sempre tinha alguém querendo oferecer alguma coisa mágica…

Por Marina Kocourek*

Fiquei um ano sem correr uma maratona e, depois de completar as Majors, achei que era hora de parar. Eu tinha cumprido aquilo que havia me proposto e, naquele momento, não sentia necessidade de provar mais nada para mim mesma. Passei anos treinando, viajando, correndo pelo mundo e completando aquilo que eu tinha colocado como objetivo. Até que as Majors abriram novas possibilidades e a minha vida também. E mais importante que isso: eu senti vontade de voltar.

Voltar para a longa distância e para aquela sensação que só uma maratona proporciona. Os meses de preparação, a ansiedade da largada, a conversa com o próprio corpo durante os longos quilômetros e, finalmente, a chegada.

E foi quando retomei uma planilha de periodização – aquele planejamento que organiza os treinos para que o corpo esteja preparado para enfrentar a prova com segurança e tranquilidade – que me deparei com uma corrida que parecia diferente daquela que eu havia deixado.

Marina Kocourek na Maratona de Montevideu
Marina Kocourek

Recomeçar em um novo contexto

O crescimento da corrida trouxe muita gente nova (o que é maravilhoso!). Para mim, quanto mais pessoas correndo, melhor. Mas também trouxe a sensação de que correr havia deixado de ser um hobby para se transformar em produto ou uma espécie de profissão.

De repente, parecia que ninguém mais podia simplesmente treinar. Era suplemento, vitamina, tênis, tratamento, injeção, estratégias para correr mais, recuperar mais rápido, emagrecer, melhorar a performance… e quase sempre tinha alguém querendo oferecer alguma coisa mágica. 

O que mais me incomodou não foi a existência desses recursos – eles podem até ter seu lugar quando existe orientação profissional e uma necessidade real; o que me assustou foi a banalização e a chance de colocar a saúde de alguém em risco.

Comecei a perceber também um número enorme de pessoas falando sobre suplementação, vitaminas, medicamentos e tratamentos como se fossem especialistas. Gente sem formação médica dando recomendações para um público que, muitas vezes, está apenas começando a correr, e correr por prazer. Sem falar que algumas dessas substâncias sequer têm aprovação da Anvisa para determinadas finalidades.

Essa nova realidade me fez pensar: em que momento correr ficou tão complicado, regrado e exagerado?

Também comecei a ver pessoas abrindo mão de encontros com a família, festas, viagens e momentos importantes porque tinham que cumprir religiosamente uma rotina de treinamento. Fiquei me perguntando se, em algum momento, a gente não estava esquecendo por que começou.

Parte da vida, não a vida inteira

A corrida faz parte da minha vida há muitos anos e hoje uma parte importante do meu trabalho é justamente incentivar mulheres e pessoas a conhecerem esse esporte, a viajarem para correr, a descobrirem tudo o que essa atividade física pode proporcionar. Por isso, não quero ser mal interpretada. Meu desabafo não é contra a corrida, é, de certa forma, a favor dela.

Marina Kocourek na Maratona de Montevideu

Eu quero que mais pessoas corram. Mas quero que elas descubram a corrida como um hobby prazeroso, como um espaço de liberdade, de saúde, de encontro, de superação pessoal, e não como uma espécie de quartel general onde tudo precisa obedecer a uma ordem, a uma planilha, a uma meta e a uma performance.

A corrida precisa caber na vida e não ser o centro dela. Foi isso que quis preservar quando voltei a treinar e, por conta disso, decidi fazer diferente. Minha vida é uma vida de viagens, e a rotina não permite que eu transforme a preparação para uma maratona no centro de tudo – para falar a verdade, eu também não queria isso. Tenho um pouco mais de idade agora e conheço meu corpo, sei o que ele consegue fazer e, principalmente, sei o que ele não consegue.

Diante disso, fiz uma escolha quase subversiva nos tempos atuais: treinei. Só treinei. 

Mantive uma alimentação saudável e fiz os treinos que consegui encaixar na minha vida. Quando meu corpo estava bem, treinei; quando não estava, respeitei. Não procurei fórmula mágica e não quis transformar a maratona em uma operação de guerra, muito menos quis que uma medalha me custasse a vida que existe fora dela.

Queria chegar à largada preparada para aquilo que eu sabia que conseguiria entregar, me sentindo bem e forte. E foi o que aconteceu. Em Sydney, a major da Austrália, corri mais uma maratona feliz. Enfrentei as subidas – e eram muitas –, mas aguentei porque havia treinado para aquilo, com um treinamento encaixado dentro da minha realidade. Foi o suficiente.

Não encontrei um atalho, porque não precisava e não queria um. Avisei meu treinador, na véspera, o tempo que faria e fiz! Quilômetro a quilômetro.

Talvez esse seja o meu verdadeiro desabafo. A corrida, que para mim sempre foi um lugar de liberdade, está começando a carregar uma quantidade enorme de cobrança, de estética, performance, equipamento, suplementação e comportamento. Como se para ser corredor fosse preciso consumir uma determinada quantidade de produtos, seguir uma determinada rotina e viver em função do próximo treino, do melhor pace.

Me recuso. Quero continuar correndo porque gosto de correr, treinar sem deixar de lado minha vida com filhas, netos, namorado, cachorro, papagaio e viagens. A lazer ou a trabalho, quero fazer uma maratona sem precisar me explicar. Quero chegar cansada, mas inteira, cruzar a linha de chegada sabendo que fiz o melhor que meu corpo podia fazer e não o melhor que alguém prometeu que um produto ou tratamento poderia fazer por mim.

Marina Kocourek | Créditos: Erico Andrade

Talvez eu esteja ficando velha para essa nova corrida ou talvez esteja justamente ficando velha o suficiente para saber que não preciso transformar tudo em performance.

A maratona continua sendo longa e a vida, supostamente, também. Mas ainda prefiro aproveitar as duas e ser feliz correndo e enfrentando a vida.

* Marina Kocourek é atleta e empresária no comando da 220Volts, uma agência de viagens que busca levar grupos de mulheres para correr em diferentes lugares do mundo.

Posted in Beleza & Bem-estar, Destaques Capa.
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