O excesso de exposição ao ambiente digital pode contribuir para o enfraquecimento de tradições, costumes e práticas que ajudaram a formar valores morais e existenciais
Parte do rol de palavras que entraram para o léxico cotidiano como resultado de um mundo cada vez mais digital e universal, o doomscrolling é a junção de dois termos em inglês: “doom”, que significa “ruína”, “desgraça”, “catástrofe”; e “scroll”, que é o ato de rolar uma tela, página ou conteúdo digital.
Juntas, essas palavras descrevem um comportamento caracterizado pelo hábito de consumir de forma compulsiva conteúdos negativos, alarmantes ou preocupantes nas redes sociais, em portais de notícias e/ou outras plataformas digitais.
Fabiana Esbaile
Para entender melhor esse conceito, o Portal Zumm conversou com a psicóloga Fabiana Esbaile, que explicou que a discussão sobre doomscrolling não é apenas uma questão de tecnologia, mas de como escolhemos viver.
“A riqueza das relações humanas, das conversas presenciais, do serviço ao próximo (cumprimento de responsabilidades) e da participação na comunidade continua sendo fundamental para que a pessoa humana se forme, desenvolva e evolua”, aponta a profissional. E é esse desenvolvimento que, segundo ela, é diretamente impactado pelo doomscrolling.
Responsabilidade em pauta
Em 2026, uma mulher de 20 anos da Califórnia, nos Estados Unidos, ganhou uma ação contra a Meta e o Google ao comprovar que as empresas tinham ciência de que o design ou o sistema operacional do Instagram e do YouTube era potencialmente perigoso quando usado por menores de idade – e, apesar disso, as plataformas não alertaram adequadamente o público sobre os perigos.
De acordo com a denunciante, identificada somente pelas iniciais K.G.M, os recursos de design das plataformas – curtidas, recomendação algorítmica, rolagem infinita, reprodução automática – a deixaram viciada. Ela também alegou que seu vício alimentou depressão, ansiedade, dismorfia corporal e pensamentos suicidas.
Uma ação semelhante foi movida no Novo México, também nos Estados Unidos, que concluiu que a Meta prejudicou conscientemente a saúde mental de crianças e ocultou o que sabia sobre a exploração sexual infantil em suas plataformas.
Ambos os casos reacenderam o debate sobre a responsabilidade dessas empresas na criação das plataformas de redes sociais e as consequências geradas a partir desses produtos, não por causa do que os usuários publicam nelas, mas devido a como foram construídas.
Para Fabiana Esbaile, o doomscrolling, impulsionado por esse design projetado para estimular a permanência do usuário por meio de atualizações constantes e fluxos intermináveis de conteúdo, pode comprometer a capacidade de concentração, reflexão e aprendizado, reduzindo o espaço para leituras mais profundas e para o pensamento crítico.
Além disso, “pode favorecer vícios comportamentais, nos quais a pessoa sente dificuldade de interromper o consumo de conteúdo, mesmo percebendo os prejuízos causados por esse hábito”, complementou.
Rolagem infinita
A psicóloga explica que, do ponto de vista fisiológico, os conteúdos que são negativos, surpreendentes ou ameaçadores ativam estruturas do sistema límbico – região cerebral relacionada às emoções, à motivação e à sobrevivência –, provocando a liberação de dopamina.
“A cada nova informação consumida, o cérebro passa a buscar a próxima atualização, criando um ciclo contínuo de atenção e curiosidade (vício), mesmo quando o conteúdo gera desconforto ou preocupação”, explica a psicóloga.
Ainda segundo a profissional, a sensação de que precisamos estar sempre informados, somada ao medo de perder acontecimentos importantes, tende a reforçar esse hábito, dificultando a interrupção do consumo, mesmo quando ele prejudica o desenvolvimento e bem-estar.
“O fato de esse comportamento também nos distanciar de realidades edificantes, carregadas de sentido, socialização e promoção de saúde, dificulta o desenvolvimento e ativação do córtex pré-frontal, responsável por aquilo que é mais difícil, que nos permite refletir, estabelecer limites e escolher conscientemente onde direcionar nossa atenção”.
Um obstáculo à construção de identidade
Como Fabiana explica, o doomscrolling cria uma barreira no nosso cérebro que nos impede de construir um pensamento crítico e reflexões de uma forma geral. “O excesso de exposição ao ambiente digital pode contribuir para o enfraquecimento de tradições, costumes e práticas que historicamente ajudaram a formar valores morais e existenciais”.
Os momentos de convivência familiar, diálogo intergeracional, participação em eventos presenciais, espiritualidade, leitura ou reflexão acabam sendo substituídos por um fluxo contínuo de estímulos digitais e, consequentemente, muitas pessoas passam a dedicar menos tempo à construção de sentido e identidade, tornando-se mais reativas aos acontecimentos imediatos e menos conectadas aos valores que sustentam a vida em sociedade.
“A filosofia nos lembra da importância de cultivar a capacidade de pensar com profundidade, refletir sobre o que realmente importa e orientar nossas ações para o bem”, pontua a psicóloga.
Doomscrolling tem sintomas!
O primeiro “sintoma” e um dos principais sinais de que você “caiu” nesse comportamento/vício é quando você perde a noção do tempo enquanto consome notícias, vídeos ou publicações negativas, e tem dificuldade para interromper esse ciclo. Ou seja: quando a busca por informação deixa de ser consciente e passa a ser passiva, automática e compulsiva, sem um propósito claro.
Isso faz com que, de acordo com Fabiana, depois de longos períodos de navegação, o resultado não seja mais informação ou aprendizado, mas sim ansiedade, irritação, preocupação excessiva ou sensação de esgotamento mental.
Não consigo parar, e agora?
Se você se viu caindo nessa rolagem infinita de notícias (ou conhece alguém que se encaixa em todas as características), saiba que tem solução!
“A primeira estratégia é substituir parte desse tempo por atividades que promovam presença e conexão com a realidade, como leitura, exercício físico, hobbies e convivência social”, indica Fabiana.
Também é importante estabelecer limites claros para o uso das redes sociais e do consumo de notícias. Uma boa dica é fazer uma boa seleção das melhores fontes, bem como (e mais importante) escolher momentos específicos para se atualizar, evitando o acesso constante ao longo do dia.
A profissional orienta ainda que, desenvolver consciência sobre os próprios hábitos digitais, ajuda a recuperar o controle da atenção e a tornar o consumo de informação mais saudável.
“Em uma época marcada pelo excesso de informação, talvez um dos maiores desafios seja recuperar a atenção, a presença e a sabedoria necessárias para viver de forma mais consciente e significativa, para que haja sentido em nossas vidas”.
O que é doomscrolling e como ele afeta a nossa construção de identidade
O excesso de exposição ao ambiente digital pode contribuir para o enfraquecimento de tradições, costumes e práticas que ajudaram a formar valores morais e existenciais
Parte do rol de palavras que entraram para o léxico cotidiano como resultado de um mundo cada vez mais digital e universal, o doomscrolling é a junção de dois termos em inglês: “doom”, que significa “ruína”, “desgraça”, “catástrofe”; e “scroll”, que é o ato de rolar uma tela, página ou conteúdo digital.
Juntas, essas palavras descrevem um comportamento caracterizado pelo hábito de consumir de forma compulsiva conteúdos negativos, alarmantes ou preocupantes nas redes sociais, em portais de notícias e/ou outras plataformas digitais.
Para entender melhor esse conceito, o Portal Zumm conversou com a psicóloga Fabiana Esbaile, que explicou que a discussão sobre doomscrolling não é apenas uma questão de tecnologia, mas de como escolhemos viver.
“A riqueza das relações humanas, das conversas presenciais, do serviço ao próximo (cumprimento de responsabilidades) e da participação na comunidade continua sendo fundamental para que a pessoa humana se forme, desenvolva e evolua”, aponta a profissional. E é esse desenvolvimento que, segundo ela, é diretamente impactado pelo doomscrolling.
Responsabilidade em pauta
Em 2026, uma mulher de 20 anos da Califórnia, nos Estados Unidos, ganhou uma ação contra a Meta e o Google ao comprovar que as empresas tinham ciência de que o design ou o sistema operacional do Instagram e do YouTube era potencialmente perigoso quando usado por menores de idade – e, apesar disso, as plataformas não alertaram adequadamente o público sobre os perigos.
De acordo com a denunciante, identificada somente pelas iniciais K.G.M, os recursos de design das plataformas – curtidas, recomendação algorítmica, rolagem infinita, reprodução automática – a deixaram viciada. Ela também alegou que seu vício alimentou depressão, ansiedade, dismorfia corporal e pensamentos suicidas.
Uma ação semelhante foi movida no Novo México, também nos Estados Unidos, que concluiu que a Meta prejudicou conscientemente a saúde mental de crianças e ocultou o que sabia sobre a exploração sexual infantil em suas plataformas.
Ambos os casos reacenderam o debate sobre a responsabilidade dessas empresas na criação das plataformas de redes sociais e as consequências geradas a partir desses produtos, não por causa do que os usuários publicam nelas, mas devido a como foram construídas.
Para Fabiana Esbaile, o doomscrolling, impulsionado por esse design projetado para estimular a permanência do usuário por meio de atualizações constantes e fluxos intermináveis de conteúdo, pode comprometer a capacidade de concentração, reflexão e aprendizado, reduzindo o espaço para leituras mais profundas e para o pensamento crítico.
Além disso, “pode favorecer vícios comportamentais, nos quais a pessoa sente dificuldade de interromper o consumo de conteúdo, mesmo percebendo os prejuízos causados por esse hábito”, complementou.
Rolagem infinita
A psicóloga explica que, do ponto de vista fisiológico, os conteúdos que são negativos, surpreendentes ou ameaçadores ativam estruturas do sistema límbico – região cerebral relacionada às emoções, à motivação e à sobrevivência –, provocando a liberação de dopamina.
Ainda segundo a profissional, a sensação de que precisamos estar sempre informados, somada ao medo de perder acontecimentos importantes, tende a reforçar esse hábito, dificultando a interrupção do consumo, mesmo quando ele prejudica o desenvolvimento e bem-estar.
“O fato de esse comportamento também nos distanciar de realidades edificantes, carregadas de sentido, socialização e promoção de saúde, dificulta o desenvolvimento e ativação do córtex pré-frontal, responsável por aquilo que é mais difícil, que nos permite refletir, estabelecer limites e escolher conscientemente onde direcionar nossa atenção”.
Um obstáculo à construção de identidade
Como Fabiana explica, o doomscrolling cria uma barreira no nosso cérebro que nos impede de construir um pensamento crítico e reflexões de uma forma geral. “O excesso de exposição ao ambiente digital pode contribuir para o enfraquecimento de tradições, costumes e práticas que historicamente ajudaram a formar valores morais e existenciais”.
Os momentos de convivência familiar, diálogo intergeracional, participação em eventos presenciais, espiritualidade, leitura ou reflexão acabam sendo substituídos por um fluxo contínuo de estímulos digitais e, consequentemente, muitas pessoas passam a dedicar menos tempo à construção de sentido e identidade, tornando-se mais reativas aos acontecimentos imediatos e menos conectadas aos valores que sustentam a vida em sociedade.
Doomscrolling tem sintomas!
O primeiro “sintoma” e um dos principais sinais de que você “caiu” nesse comportamento/vício é quando você perde a noção do tempo enquanto consome notícias, vídeos ou publicações negativas, e tem dificuldade para interromper esse ciclo. Ou seja: quando a busca por informação deixa de ser consciente e passa a ser passiva, automática e compulsiva, sem um propósito claro.
Isso faz com que, de acordo com Fabiana, depois de longos períodos de navegação, o resultado não seja mais informação ou aprendizado, mas sim ansiedade, irritação, preocupação excessiva ou sensação de esgotamento mental.
Não consigo parar, e agora?
Se você se viu caindo nessa rolagem infinita de notícias (ou conhece alguém que se encaixa em todas as características), saiba que tem solução!
“A primeira estratégia é substituir parte desse tempo por atividades que promovam presença e conexão com a realidade, como leitura, exercício físico, hobbies e convivência social”, indica Fabiana.
Também é importante estabelecer limites claros para o uso das redes sociais e do consumo de notícias. Uma boa dica é fazer uma boa seleção das melhores fontes, bem como (e mais importante) escolher momentos específicos para se atualizar, evitando o acesso constante ao longo do dia.
A profissional orienta ainda que, desenvolver consciência sobre os próprios hábitos digitais, ajuda a recuperar o controle da atenção e a tornar o consumo de informação mais saudável.
Leia também
Brasil terá 1ª fábrica de carro voador
Embraer e Eve anunciam que a planta industrial, onde será fabricado a …
Especialistas se reúnem para discutir produtividade e incentivos fiscais no setor sucroenergético
Evento acontecerá em 25 de junho no Dabi Business Park, com foco …
NicNet é eleita a internet mais rápida do Brasil
Resultado foi divulgado em plataforma que mede a velocidade de mais de …
USP promove eventos sobre a regulação da inteligência artificial no Brasil
Iniciativa com série de discussões sobre a regulação em Ribeirão Preto será …