O sistema criado só na conversa com a IA é a maquete: bonito, funcional na tela, convincente. Mas a construção não aconteceu.
Por Olsen Rodrigo*
A “Lovable”, uma das queridinhas do mundo da tecnologia, avaliada em US$ 6,6 bilhões, comprou recentemente uma empresa de infraestrutura de nuvem e passou a fazer uma promessa ousada: você descreve o sistema dos seus sonhos numa conversa, em português claro, e ele sai do outro lado pronto, funcionando, no ar.
De ponta a ponta, sem precisar de programador. Eu, que vivo de aplicar IA em negócios reais, respondo com o carinho de quem admira a tecnologia: du-vi-do. E explico o porquê nesta coluna, de um jeito que qualquer empresário conseguirá entender. Porque essa história tem dois lados, e os dois interessam ao seu bolso.
Programar conversando? Sim, isso existe
O nome dessa moda é vibe coding: em vez de escrever código, você conversa. Diz à IA “crie um sistema de agendamento para minha clínica”, ela escreve o programa, você testa, pede ajustes e vai refinando no papo. Ferramentas como “Lovable”, “Replit”, “Cursor” e “Claude Code” popularizaram o formato, e hoje qualquer pessoa consegue tirar uma ideia do papel em horas. Sem exagero: coisas que levavam meses ficam de pé em uma tarde.
E aqui vai minha 1ª posição clara: isso é ótimo. Para testar uma ideia antes de investir pesado, mostrar um conceito para um sócio ou investidor, validar se o cliente gosta daquele fluxo, o vibe coding é imbatível. Na minha experiência, prototipar ficou até 10 vezes mais rápido. É uma revolução de verdade, e quem ignorar vai ficar para trás.
O problema começa quando o protótipo, que nasceu para ser um teste, vira o sistema oficial da empresa. E é aí que entra a melhor analogia que conheço.
A maquete não é o prédio
Pense num lançamento imobiliário. No estande de vendas, tem aquela maquete impecável: fachada, jardim, piscina, tudo em miniatura perfeita. Ela convence, encanta, vende apartamento na planta. Agora me diga: alguém muda a família para dentro da maquete?
Claro que não. Porque entre a maquete e o prédio existe uma etapa gigante chamada construção. Fundação calculada por engenheiro, estrutura de concreto, parte elétrica e hidráulica, elevador, para-raios, saída de incêndio. Nada disso aparece na maquete e é exatamente isso que faz um prédio ficar de pé por décadas com gente morando dentro.
O sistema criado só na conversa com a IA é a maquete: bonito, funcional na tela, convincente. Mas a construção não aconteceu. Não tem a “fundação” que aguenta o crescimento da empresa, não tem as “paredes” que separam os dados sensíveis dos curiosos, não tem a “porta corta-fogo” para o dia em que algo der errado. E como a maquete funciona, muita empresa está colocando gente para morar nela.
O que acontece quando moram na maquete
Não é opinião minha, é estatística. Uma empresa de segurança digital analisou 5.600 sistemas criados por vibe coding e publicados na internet: um em cada três estava com as portas abertas para invasores. A própria “Lovable” protagonizou o caso mais famoso de uma falha que, registrada oficialmente, mostrou dezenas de aplicações da plataforma expondo dados pessoais dos usuários, inclusive informações financeiras, por um erro de configuração. E o que é mais assustador: os usuários culparam a “Lovable”!
Agora traga para a sua realidade. Se o seu sistema guarda CPF, prontuário ou dados de cartão de clientes, um vazamento desses conversa direto com a LGPD, a lei de proteção de dados, que prevê multas de até 2% do faturamento. Sem contar o estrago na reputação, que não cabe em planilha. Invasões e vazamento de dados não são questão de “se”, é de “quando”.
Por que a IA erra isso?
Aqui está o ponto que mais repito nesta coluna: a culpa não é da ferramenta. A IA é obediente demais: ela entrega exatamente o que você pediu, do jeito mais rápido possível. Se você pede “um sistema de agendamento”, ela entrega um sistema de agendamento. Você não pediu cofre, alarme, portaria e estrutura reforçada, então ela não coloca. Não por má vontade, mas porque ninguém pediu. E o empresário leigo não sabe que precisava pedir.
É a minha velha tese em roupa nova:
“A IA só acelera a bagunça. Sem um projeto bem feito por trás, ela acelera a ausência de projeto.”
Existe o jeito certo (e ele usa muita IA)
A boa notícia: o mercado sério já aprendeu a usar a mesma IA do jeito profissional, e a diferença é a presença do “engenheiro da obra”. Duas práticas resumem isso. A 1ª atende pelo nome de desenvolvimento orientado por especificação, ou seja, antes de a IA escrever qualquer coisa, a equipe faz a planta da obra, um documento detalhando o que o sistema precisa ter, aguentar e proteger. A IA constrói seguindo a planta, e um humano aprova cada etapa antes da próxima.
A 2ª é montar trilhos em volta da IA: regras automáticas que impedem o “pedreiro digital” de sair do projeto. Foi assim que a própria OpenAI, criadora do ChatGPT, relatou ter construído um produto de 1 milhão de linhas de código com apenas três engenheiros conduzindo a IA. A frase deles resume tudo: “humanos pilotam, a IA executa”. Mesmo no caso mais impressionante já publicado, o engenheiro nunca saiu da cabine.
Falei disso numa palestra recente para a turma de Sistemas de Informação da USP de Ribeirão Preto, minha casa de formação. Minha mensagem foi que o profissional de tecnologia virou o piloto dessa nova aeronave. Usar IA não é demérito nenhum; a ferramenta está aí. Demérito é virar as costas para essa revolução. E aviões modernos voam quase sozinhos, mas ninguém embarca num voo sem piloto.
Onde cada coisa mora
Minha conclusão, depois de mais de 20 projetos de IA entregues com ROI (Retorno sobre o Investimento) comprovado, é simples de guardar: vibe coding serve para maquetes, ou seja, protótipos e, no máximo, sistemas internos que não são críticos. Quando o assunto é o cliente final, dado sensível e operação que precisa crescer, é obra de verdade: exige engenharia, arquitetura e segurança.
Vibe coding é uma coisa. Desenvolvimento profissional assistido por IA é outra. A empresa que aprender a distinguir as duas colhe o melhor dos dois mundos: a velocidade da IA com a solidez de quem constrói prédios, e não maquetes.
* Olsen Rodrigo é CEO e fundador da Sintetiza AI. Com 17 anos dedicados à tecnologia em saúde, passando pela Matrix Saúde e por posições C-level (CPO/CTO) no AmorSaúde, hoje aplica inteligência artificial para automatizar e integrar a operação de empresas de diversos setores. É professor de IA aplicada a negócios, conselheiro e coautor de livros sobre liderança, produto e tecnologia. Defende uma IA que amplifica o potencial humano em vez de substituí-lo.
Vibe coding: a moda de criar sistemas conversando com a IA (e o que ela não te conta)
O sistema criado só na conversa com a IA é a maquete: bonito, funcional na tela, convincente. Mas a construção não aconteceu.
Por Olsen Rodrigo*
A “Lovable”, uma das queridinhas do mundo da tecnologia, avaliada em US$ 6,6 bilhões, comprou recentemente uma empresa de infraestrutura de nuvem e passou a fazer uma promessa ousada: você descreve o sistema dos seus sonhos numa conversa, em português claro, e ele sai do outro lado pronto, funcionando, no ar.
De ponta a ponta, sem precisar de programador. Eu, que vivo de aplicar IA em negócios reais, respondo com o carinho de quem admira a tecnologia: du-vi-do. E explico o porquê nesta coluna, de um jeito que qualquer empresário conseguirá entender. Porque essa história tem dois lados, e os dois interessam ao seu bolso.
Programar conversando? Sim, isso existe
O nome dessa moda é vibe coding: em vez de escrever código, você conversa. Diz à IA “crie um sistema de agendamento para minha clínica”, ela escreve o programa, você testa, pede ajustes e vai refinando no papo. Ferramentas como “Lovable”, “Replit”, “Cursor” e “Claude Code” popularizaram o formato, e hoje qualquer pessoa consegue tirar uma ideia do papel em horas. Sem exagero: coisas que levavam meses ficam de pé em uma tarde.
E aqui vai minha 1ª posição clara: isso é ótimo. Para testar uma ideia antes de investir pesado, mostrar um conceito para um sócio ou investidor, validar se o cliente gosta daquele fluxo, o vibe coding é imbatível. Na minha experiência, prototipar ficou até 10 vezes mais rápido. É uma revolução de verdade, e quem ignorar vai ficar para trás.
O problema começa quando o protótipo, que nasceu para ser um teste, vira o sistema oficial da empresa. E é aí que entra a melhor analogia que conheço.
A maquete não é o prédio
Pense num lançamento imobiliário. No estande de vendas, tem aquela maquete impecável: fachada, jardim, piscina, tudo em miniatura perfeita. Ela convence, encanta, vende apartamento na planta. Agora me diga: alguém muda a família para dentro da maquete?
Claro que não. Porque entre a maquete e o prédio existe uma etapa gigante chamada construção. Fundação calculada por engenheiro, estrutura de concreto, parte elétrica e hidráulica, elevador, para-raios, saída de incêndio. Nada disso aparece na maquete e é exatamente isso que faz um prédio ficar de pé por décadas com gente morando dentro.
O sistema criado só na conversa com a IA é a maquete: bonito, funcional na tela, convincente. Mas a construção não aconteceu. Não tem a “fundação” que aguenta o crescimento da empresa, não tem as “paredes” que separam os dados sensíveis dos curiosos, não tem a “porta corta-fogo” para o dia em que algo der errado. E como a maquete funciona, muita empresa está colocando gente para morar nela.
O que acontece quando moram na maquete
Não é opinião minha, é estatística. Uma empresa de segurança digital analisou 5.600 sistemas criados por vibe coding e publicados na internet: um em cada três estava com as portas abertas para invasores. A própria “Lovable” protagonizou o caso mais famoso de uma falha que, registrada oficialmente, mostrou dezenas de aplicações da plataforma expondo dados pessoais dos usuários, inclusive informações financeiras, por um erro de configuração. E o que é mais assustador: os usuários culparam a “Lovable”!
Agora traga para a sua realidade. Se o seu sistema guarda CPF, prontuário ou dados de cartão de clientes, um vazamento desses conversa direto com a LGPD, a lei de proteção de dados, que prevê multas de até 2% do faturamento. Sem contar o estrago na reputação, que não cabe em planilha. Invasões e vazamento de dados não são questão de “se”, é de “quando”.
Por que a IA erra isso?
Aqui está o ponto que mais repito nesta coluna: a culpa não é da ferramenta. A IA é obediente demais: ela entrega exatamente o que você pediu, do jeito mais rápido possível. Se você pede “um sistema de agendamento”, ela entrega um sistema de agendamento. Você não pediu cofre, alarme, portaria e estrutura reforçada, então ela não coloca. Não por má vontade, mas porque ninguém pediu. E o empresário leigo não sabe que precisava pedir.
É a minha velha tese em roupa nova:
Existe o jeito certo (e ele usa muita IA)
A boa notícia: o mercado sério já aprendeu a usar a mesma IA do jeito profissional, e a diferença é a presença do “engenheiro da obra”. Duas práticas resumem isso. A 1ª atende pelo nome de desenvolvimento orientado por especificação, ou seja, antes de a IA escrever qualquer coisa, a equipe faz a planta da obra, um documento detalhando o que o sistema precisa ter, aguentar e proteger. A IA constrói seguindo a planta, e um humano aprova cada etapa antes da próxima.
A 2ª é montar trilhos em volta da IA: regras automáticas que impedem o “pedreiro digital” de sair do projeto. Foi assim que a própria OpenAI, criadora do ChatGPT, relatou ter construído um produto de 1 milhão de linhas de código com apenas três engenheiros conduzindo a IA. A frase deles resume tudo: “humanos pilotam, a IA executa”. Mesmo no caso mais impressionante já publicado, o engenheiro nunca saiu da cabine.
Falei disso numa palestra recente para a turma de Sistemas de Informação da USP de Ribeirão Preto, minha casa de formação. Minha mensagem foi que o profissional de tecnologia virou o piloto dessa nova aeronave. Usar IA não é demérito nenhum; a ferramenta está aí. Demérito é virar as costas para essa revolução. E aviões modernos voam quase sozinhos, mas ninguém embarca num voo sem piloto.
Onde cada coisa mora
Minha conclusão, depois de mais de 20 projetos de IA entregues com ROI (Retorno sobre o Investimento) comprovado, é simples de guardar: vibe coding serve para maquetes, ou seja, protótipos e, no máximo, sistemas internos que não são críticos. Quando o assunto é o cliente final, dado sensível e operação que precisa crescer, é obra de verdade: exige engenharia, arquitetura e segurança.
Vibe coding é uma coisa. Desenvolvimento profissional assistido por IA é outra. A empresa que aprender a distinguir as duas colhe o melhor dos dois mundos: a velocidade da IA com a solidez de quem constrói prédios, e não maquetes.
* Olsen Rodrigo é CEO e fundador da Sintetiza AI. Com 17 anos dedicados à tecnologia em saúde, passando pela Matrix Saúde e por posições C-level (CPO/CTO) no AmorSaúde, hoje aplica inteligência artificial para automatizar e integrar a operação de empresas de diversos setores. É professor de IA aplicada a negócios, conselheiro e coautor de livros sobre liderança, produto e tecnologia. Defende uma IA que amplifica o potencial humano em vez de substituí-lo.
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