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Tecnologia

O que US$ 42 bilhões de prejuízo ensinam sobre o valor de sua empresa

By Redação Zumm on 7 de outubro de 2026

O voo de Ícaro da inteligência artificial: a análise de hoje parte dos números do prospecto que a Anthropic, criadora do Claude, preparou e divulgou para abrir capital na bolsa americana

Escrevo esta coluna de Boston. Vou passar a semana no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) ao lado de 30 CEOs latino-americanos, numa imersão sobre inteligência artificial e liderança. Prometo trazer tudo o que aprender por aqui no próximo artigo. Mas hoje o assunto é outro, e ele me acompanhou no avião.

Antes, um combinado. O objetivo desta coluna é manter você bem informado, independentemente da sua área de formação. Hoje, a tecnologia esbarrou de frente no mundo das finanças e dos investimentos. Por isso convidei um amigo para pensar comigo: Pedro Bourreau de Carvalho, planejador financeiro certificado CFP® e especialista em investimentos, dono de uma carreira que admiro muito.

Boa parte do raciocínio que você vai ler nasceu de um artigo dele chamado The Flight of Icarus (“o voo de Ícaro”, na tradução).

Uma conta que não fecha (por enquanto)

Recentemente vieram a público os números do prospecto que a Anthropic, criadora do Claude, preparou para abrir capital na bolsa americana. O documento foi entregue de forma confidencial aos reguladores, mas o conteúdo vazou para a imprensa. O Pedro postou, eu repostei, e a reação foi imediata. Os números assustam:

  • Receita de 2025: cerca de US$ 4,6 bilhões, contra US$ 386 milhões em 2024 (um salto de 12 vezes);
  • Prejuízo líquido de 2025: cerca de US$ 42 bilhões;
  • Valor de mercado: a última rodada privada, em maio, avaliou a empresa em cerca de US$ 965 bilhões. Para o IPO, a mira está acima de US$ 2 trilhões.

Como sou da turma do cético construtivo, preciso fazer justiça aos números antes de criticá-los. Dos US$ 42 bilhões, aproximadamente US$ 34 bilhões são um lançamento contábil, sem saída de caixa: a reavaliação de instrumentos financeiros que podem virar ações no futuro. O prejuízo da operação em si ficou na casa de US$ 8 bilhões.

Bolha de ações da inteligência artificial

Melhorou? Um pouco. Ainda assim, estamos falando de uma empresa que gastou US$ 12,65 bilhões para faturar US$ 4,6 bilhões. Só a conta de computação e infraestrutura foi de US$ 7,33 bilhões, ou seja, cerca de US$ 1,60 em servidor para cada US$ 1 que entrou.

E aquele lançamento “sem caixa” tem custo real para quem comprar a ação: quando esses instrumentos virarem papel, o bolo será dividido em mais fatias.

OpenAI: o mesmo filme, com orçamento maior

A Anthropic não está sozinha nessa fila. A OpenAI, dona do ChatGPT, também entregou seu pedido confidencial de abertura de capital em junho e já sinalizou que a estreia na bolsa ficará para 2027.

  • Valor atual: US$ 852 bilhões, definido na rodada de US$ 122 bilhões fechada em março. Para o IPO, a meta é chegar a US$ 1 trilhão;
  • Prejuízo projetado para 2026: cerca de US$ 14 bilhões;
  • Prejuízo acumulado previsto até 2029: até US$ 115 bilhões;
  • Lucro: em algum momento da década de 2030;
  • Compromissos com data centers: cerca de US$ 1,4 trilhão, segundo o próprio Sam Altman.

Somando as duas, temos quase US$ 3 trilhões em valor pretendido sobre empresas que, juntas, ainda não fecharam um único ano no azul. E é aqui que entra o Pedro.

O voo de Ícaro

Você conhece o mito: Dédalo e seu filho Ícaro estavam presos num labirinto em Creta. Para fugir, o pai construiu asas com penas e cera, e deu ao filho duas recomendações: não voe alto demais, porque o sol derrete a cera; não voe baixo demais, porque a umidade do mar encharca as penas. Ícaro decolou, se encantou
com a altura e subiu. A cera derreteu e ele caiu no mar.

Imagem ilustrativa para a lenda do Voo de ícaro

No artigo, o Pedro usa essa imagem para explicar como o mercado financeiro funciona, e a ideia central dele é desconfortável para quem pensa como gestor tradicional. Ele diz que uma empresa não precisa operar com superávit para valer muito; ela precisa convencer os investidores de que será muito rentável no futuro. O valor de mercado é o preço da expectativa, enquanto o balanço de hoje é só uma parte da história.

Pensa no apartamento na planta. Você paga por um imóvel que ainda não existe — não há parede, não há chave, às vezes não há nem fundação. Por que alguém faz isso? Porque olha para o projeto, para o histórico da construtora, para o bairro que está crescendo e acredita que aquele apartamento valerá mais quando ficar pronto. O comprador paga por uma promessa bem documentada.

A Anthropic e a OpenAI estão vendendo o maior apartamento na planta da história. E há argumentos de sobra para acreditar no projeto: a receita da Anthropic cresceu 12 vezes em um ano, e as duas empresas estão entre as que mais crescem no mundo. O ponto é que, quando a promessa fica grande demais em relação ao que já foi entregue, o mercado passa a voar perto do sol.

Valor de mercado é expectativa. Mas expectativa sem recibo é só cera esperando o sol.

Onde a cera começa a derreter

Quem viveu o ano 2000 já viu esse filme. Na bolha da internet, empresas sem lucro valiam fortunas porque prometiam dominar o futuro digital. A promessa estava certa: a internet de fato mudou tudo. Mas a maioria das empresas que a vendiam quebrou. Até a Amazon, que sobreviveu e virou o que virou, viu suas ações caírem mais de 90% entre o pico e o fundo. A tecnologia venceu, mas boa parte de quem comprou no topo, não.

Lendo o prospecto da Anthropic com o olhar de quem constrói empresa, três pontos me chamaram atenção:

1. Compromissos que não se cancelam: São cerca de US$ 518 bilhões contratados em computação para os próximos 10 anos com Google, Amazon, Microsoft, Broadcom e outros. Aproximadamente 80% disso não pode ser cancelado. É custo fixo apostando que a receita vai chegar.

2. Concentração de clientes: Dois clientes responderam por quase 25% da receita de 2025, e os grandes contratos não são de longo prazo.

3. Sócio, fornecedor, cliente e concorrente ao mesmo tempo: Amazon, Google e Microsoft ocupam todos esses papéis na mesma relação.

Foi o que escrevi quando repostei o Pedro: boa parte desses IPOs é especulação. Quando a diligência vier forte e a promessa tiver que virar resultado, quem paga a conta que não fecha é o investidor que comprou no auge da euforia. O fundador e os fundos que entraram cedo já garantiram a parte deles.

E por que isso importa para a sua empresa?

Você não abrirá capital em Nova York no ano que vem, e eu também não. Mas a lógica que precifica a Anthropic é a mesma que precifica o seu negócio quando chega um sócio, um fundo, um comprador ou até o gerente do banco analisando seu crédito. Quem chega olha o caixa de hoje, claro, mas compra mesmo a sua capacidade de gerar resultado amanhã.

Então deixo a pergunta que o artigo do Pedro me deixou e que agora repasso para você: o que você está fazendo para a sua empresa ter essa projeção?

Projeção, aqui, é a planta do apartamento: coisa concreta, que dá para auditar. Responda com sinceridade:

  • A sua receita se repete ou você recomeça do zero todo mês? Contrato recorrente vale mais que venda avulsa, em qualquer mesa de negociação;
  • A sua operação cresce sem a folha crescer junto? Se cada cliente novo exige uma pessoa nova, você tem um teto, e o comprador enxerga esse teto;
  • Os seus dados estão organizados? Histórico de clientes, margens por produto, funil de vendas. Empresa que não se conhece não convence ninguém sobre o próprio futuro;
  • A sua tecnologia é ativo ou aluguel? Sistema feito sob medida para o seu processo entra no valor da empresa. Uma colcha de ferramentas que não se conversam entra como custo;
  • Você depende de um cliente só? Se a Anthropic é questionada por ter 25% da receita em dois clientes, imagine a sua empresa com 60% em um.

E aqui entra a inteligência artificial, no lugar certo: ela é uma das melhores ferramentas que já existiram para construir essa projeção. Atender mais sem contratar na mesma proporção, transformar dados soltos em decisão, abrir janelas de venda enquanto a concorrência dorme. Vejo isso todos os dias nos projetos da Sintetiza.

Mas sigo repetindo o que disse na estreia desta coluna: aplicada sobre processo desorganizado e sistemas que não se conversam, a IA só acelera a bagunça. Aí ela vira mais uma linha de custo no balanço, e não uma linha de crescimento na projeção.

Nem perto do sol, nem perto do mar

O detalhe do mito que quase todo mundo esquece é que Dédalo fez dois alertas, não um. Voar alto demais derrete a cera. Voar baixo demais encharca as penas e afunda do mesmo jeito.

Imagem ilustrativa para a lenda do Voo de ícaro

Para a sua empresa, voar alto demais é vender um futuro que a operação não sustenta: prometer escala sem processo, falar de IA sem dados, inflar o valor sem lastro. Já voar baixo demais é tocar o negócio só pelo caixa do mês, sem construir nada que faça alguém acreditar no amanhã. Uma empresa assim pode até ser saudável, mas vale pouco, porque não tem história para contar.

O meio do caminho é onde se constrói valor de verdade: uma projeção ambiciosa, sustentada por recibos. Receita que se repete, operação que escala, dados que provam e tecnologia que é patrimônio. Ícaro caiu porque se esqueceu do que eram feitas as próprias asas.

Na próxima coluna, trago tudo o que estou vendo e aprendendo aqui no MIT. Até lá.

Olsen Rodrigo, CEO e fundador da Sintetiza AI. | Crédito: Divulgação


* Olsen Rodrigo é CEO e fundador da Sintetiza AI. Com 17 anos dedicados à tecnologia em saúde, passando pela Matrix Saúde e por posições C-level (CPO/CTO) no AmorSaúde, hoje aplica inteligência artificial para automatizar e integrar a operação de empresas de diversos setores. É professor de IA aplicada a negócios, conselheiro e coautor de livros sobre liderança, produto e tecnologia. Defende uma IA que amplifica o potencial humano em vez de substituí-lo.

Posted in Destaques Capa, Tecnologia.
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