Roma me mostrou, pelas mãos de Caravaggio, que a vida é feita de contrastes, e talvez essa seja a mensagem mais bonita que encontrei
Por Maura Robusti*
Roma sempre me surpreende quando acredito conhecê-la. Desta vez, ela me revelou uma cidade menos monumental e mais humana. A descoberta começou diante de uma pintura de Caravaggio e terminou diante de outra. Entre elas, estavam a arquitetura, a espiritualidade, a arte e, acima de tudo, uma reflexão sobre a própria vida.
A 1ª parada foi o Museo e Cripta dei Cappuccini. Ali, os ossos revestem paredes, moldam arcos, formam ornamentos e desenham ambientes inteiros. Pertencem aos frades capuchinhos, ordem fundada em 1525, e foram organizados ao longo dos séculos em uma composição que, à primeira vista, pode parecer mórbida. Mas não é. É apenas uma forma diferente de olhar para a morte: não como fim, mas como passagem para a vida eterna, o encontro com o Pai.
É nesse cenário que encontrei uma das obras mais comoventes do mestre italiano: São Francisco em Oração, de 1603. O artista tinha profunda admiração por São Francisco, pela espiritualidade franciscana e pelas pessoas simples. Por isso, sua arte é marcada pela humanidade, sensibilidade e compaixão.
Na pintura, São Francisco está ajoelhado. A caveira, símbolo da fragilidade da existência, integra a cena, que acontece em uma caverna, representada com o realismo característico do artista. Um raio ilumina delicadamente o fio dourado da auréola, atravessando o hábito, o cordão franciscano e a própria caveira. De forma simples, mas genial, Caravaggio nos mostra que a luz só se revela plenamente quando atravessa a escuridão.
As caveiras ao redor da cripta nos perturbam porque nos lembram daquilo que insistimos em esquecer. Mas São Francisco parece pairar acima desse medo, como quem sabe que a morte não é o fim, mas o caminho para a vida eterna. Talvez seja justamente por isso que essa pequena obra tenha me marcado tanto. Ela indica a estrada para fora da caverna onde tantas vezes moramos sem perceber.
Não é uma obra majestosa; sua grandeza está justamente na piedade. É um gesto de amor, uma lembrança de que a morte existe, mas abre o caminho para a eternidade.
Dias depois, encontrei outro Caravaggio em um cenário completamente diferente: o magnífico Palazzo Doria Pamphilj. Ali, a elegância se revela em cada detalhe: salões ornamentados, galerias luminosas, espelhos e uma sucessão de ambientes revelam séculos de história da aristocracia romana.
Percorrer seus salões é compreender como a arquitetura também pode narrar uma época. Galerias, tetos pintados e perspectivas conduzem naturalmente o visitante ao encontro das obras.
É ali que está “O Repouso na Fuga para o Egito”, pintado em 1597. Mais uma vez, o que vemos é a delicadeza da condição humana. Maria descansa. O menino dorme. José observa. Um anjo toca violino. A cena é delicada, como se o sagrado habitasse justamente os instantes mais simples.
O Repouso na Fuga para o Egito (Caravaggio, 1957)
Maura Robusti | Crédito: Érico Andrade
Roma me mostrou, pelas mãos de Caravaggio, que a vida é feita de contrastes. Entre o silêncio das criptas e a grandiosidade dos palácios. Entre a escuridão e a luz. A morte existe, é inevitável. Às vezes assusta. Mas não estamos abandonados em nós mesmos.
E talvez essa seja a mensagem mais bonita que encontrei nessa Roma diferente: a de que toda sombra existe porque, em algum lugar, a luz já está a caminho.
* Maura Robusti é diretora do Mundo Robusti, um dos maiores do segmento de móveis e decoração do interior do estado de São Paulo.
A outra Roma de Caravaggio
Roma me mostrou, pelas mãos de Caravaggio, que a vida é feita de contrastes, e talvez essa seja a mensagem mais bonita que encontrei
Por Maura Robusti*
Roma sempre me surpreende quando acredito conhecê-la. Desta vez, ela me revelou uma cidade menos monumental e mais humana. A descoberta começou diante de uma pintura de Caravaggio e terminou diante de outra. Entre elas, estavam a arquitetura, a espiritualidade, a arte e, acima de tudo, uma reflexão sobre a própria vida.
A 1ª parada foi o Museo e Cripta dei Cappuccini. Ali, os ossos revestem paredes, moldam arcos, formam ornamentos e desenham ambientes inteiros. Pertencem aos frades capuchinhos, ordem fundada em 1525, e foram organizados ao longo dos séculos em uma composição que, à primeira vista, pode parecer mórbida. Mas não é. É apenas uma forma diferente de olhar para a morte: não como fim, mas como passagem para a vida eterna, o encontro com o Pai.
É nesse cenário que encontrei uma das obras mais comoventes do mestre italiano: São Francisco em Oração, de 1603. O artista tinha profunda admiração por São Francisco, pela espiritualidade franciscana e pelas pessoas simples. Por isso, sua arte é marcada pela humanidade, sensibilidade e compaixão.
Na pintura, São Francisco está ajoelhado. A caveira, símbolo da fragilidade da existência, integra a cena, que acontece em uma caverna, representada com o realismo característico do artista. Um raio ilumina delicadamente o fio dourado da auréola, atravessando o hábito, o cordão franciscano e a própria caveira. De forma simples, mas genial, Caravaggio nos mostra que a luz só se revela plenamente quando atravessa a escuridão.
As caveiras ao redor da cripta nos perturbam porque nos lembram daquilo que insistimos em esquecer. Mas São Francisco parece pairar acima desse medo, como quem sabe que a morte não é o fim, mas o caminho para a vida eterna. Talvez seja justamente por isso que essa pequena obra tenha me marcado tanto. Ela indica a estrada para fora da caverna onde tantas vezes moramos sem perceber.
Não é uma obra majestosa; sua grandeza está justamente na piedade. É um gesto de amor, uma lembrança de que a morte existe, mas abre o caminho para a eternidade.
Dias depois, encontrei outro Caravaggio em um cenário completamente diferente: o magnífico Palazzo Doria Pamphilj. Ali, a elegância se revela em cada detalhe: salões ornamentados, galerias luminosas, espelhos e uma sucessão de ambientes revelam séculos de história da aristocracia romana.
Percorrer seus salões é compreender como a arquitetura também pode narrar uma época. Galerias, tetos pintados e perspectivas conduzem naturalmente o visitante ao encontro das obras.
É ali que está “O Repouso na Fuga para o Egito”, pintado em 1597. Mais uma vez, o que vemos é a delicadeza da condição humana. Maria descansa. O menino dorme. José observa. Um anjo toca violino. A cena é delicada, como se o sagrado habitasse justamente os instantes mais simples.
Roma me mostrou, pelas mãos de Caravaggio, que a vida é feita de contrastes. Entre o silêncio das criptas e a grandiosidade dos palácios. Entre a escuridão e a luz. A morte existe, é inevitável. Às vezes assusta. Mas não estamos abandonados em nós mesmos.
E talvez essa seja a mensagem mais bonita que encontrei nessa Roma diferente: a de que toda sombra existe porque, em algum lugar, a luz já está a caminho.
* Maura Robusti é diretora do Mundo Robusti, um dos maiores do segmento de móveis e decoração do interior do estado de São Paulo.
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