Acabei de voltar do MIT com uma lição que se repetiu em todas as aulas: a tecnologia já está pronta. Quem ainda precisa entrar em campo é a liderança!
Construir um agente de inteligência artificial leva 10 minutos; fazer com que os especialistas da empresa confiem no que ele entrega pode levar três meses. Ouvi essa conta há poucos dias, em Cambridge, nos Estados Unidos, durante um curso de extensão do MIT Sloan para CEOs latino-americanos. Foram três dias e oito sessões com professores do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e executivos de Microsoft e Google. Quase ninguém falou de modelo, de token ou de qual ferramenta assinar. O assunto que dominou a sala foi gente.
A conclusão apareceu logo no 1º dia e ficou até o último: a tecnologia já está madura; o gargalo agora é humano.
Trago o tema ainda quente porque ele muda a pergunta que todo dono de empresa deveria se fazer. Sai o “qual IA eu compro?” e entra o “qual é a minha responsabilidade com ela?”.
A IA é o GPS. O destino é seu
Pense no GPS do seu carro. Ele calcula a melhor rota, desvia do trânsito e avisa do radar, tudo melhor que qualquer motorista. Mas existe uma coisa que ele nunca fará: decidir para onde você quer ir.
Com a IA acontece o mesmo. Você não precisa saber escrever um prompt sofisticado nem entender como o modelo funciona por dentro; precisa responder a quatro perguntas que nenhuma máquina responde por você:
Qual problema a IA vai resolver?
Que resultado eu espero?
Qual número vai provar esse resultado?
Quem responde por ele?
Parece básico e é! Ainda assim, um relatório do MIT de 2025 mostrou que apenas 5% dos pilotos de IA generativa nas empresas geravam retorno relevante. O Gartner projeta que mais de 40% dos projetos com agentes de IA serão cancelados até o fim de 2027, por custo alto, valor pouco claro e risco mal controlado. Repare: nenhum desses motivos é técnico. Todos são de gestão.
Sem destino definido, a IA vira um taxímetro ligado: roda o mês inteiro e, no fim, sobra só o recibo. E, como sempre repito por aqui, aplicada sobre processo desorganizado ela apenas acelera a bagunça.
Cortar gente é o atalho mais caro
O jeito mais fácil de justificar IA numa planilha é reduzir o quadro. Também é o menos inteligente.
A professora Zeynep Ton, do MIT Sloan, mostrou em aula o caminho oposto com o Sam’s Club, rede de varejo americana. Entre 2017 e 2019, a empresa aumentou salários, simplificou processos e usou tecnologia para tirar peso do trabalho das equipes. Em dois anos, a rotatividade caiu 25%, a produtividade subiu 16% e as vendas cresceram 25% sem nenhuma loja nova.
A frase dela ficou comigo: diante do medo de que produtividade signifique demissão, a única resposta que funciona é crescer. E crescer é uma decisão que só o líder pode tomar.
A IA veio para potencializar as pessoas, e não para substituí-las. Quem usa a eficiência só para cortar automatiza o presente e esquece de construir o futuro.
EPOCH: 5 letras que a máquina não alcança
Se a IA deve potencializar pessoas, falta responder: potencializar o quê? Os pesquisadores Isabella Loaiza e Roberto Rigobon, do MIT Sloan, inverteram a lente. Em vez de medir o que a IA consegue fazer, mediram o que só os humanos trazem. Assim nasceu o método EPOCH:
Empatia: ouvir o cliente nervoso e entender o que ele realmente precisa.
Presença: estar na visita, no chão da operação, na conversa de corredor.
Opinião e ética: decidir quando há dilema e responder pela decisão.
Criatividade: propor o que não está em nenhum dado.
Hope (esperança e visão): mostrar ao time um futuro em que vale acreditar.
Eles analisaram quase 19 mil tarefas profissionais e encontraram um movimento claro: as tarefas que saem dos cargos são as de baixo EPOCH; as que entram são as de alto. E a letra mais ligada ao crescimento do emprego foi justamente o H, de visão e liderança.
Vejo isso todos os dias nos projetos de saúde que conduzo. O médico que deixa de digitar a anamnese não perde espaço para a máquina. A IA transcreve e organiza a consulta, ele revisa, e o tempo recuperado volta para o paciente em forma de escuta e presença. O E e o P ganham espaço na agenda.
Faça o teste na sua empresa
Hoje mesmo levo esse método para uma aula com líderes, e deixo aqui o exercício para você fazer em cinco minutos:
Escolha um cargo da sua empresa e liste as tarefas principais.
Marque, em cada tarefa, quais letras do EPOCH ela exige.
Nenhuma letra? Candidata a ir para a IA. Uma ou duas? A IA prepara e a pessoa decide. Três ou mais? Fica com gente.
Decida para onde vai o tempo que sobrar e quem é o dono dessa mudança.
Quase sempre o papel revela uma surpresa: gente talentosa gastando o dia em tarefas que não pedem nenhuma das cinco letras.
Então, qual é a minha responsabilidade?
Volto à pergunta do título. Como líder ou dono de empresa, cabe a você escolher o problema certo, definir antes como vai medir o resultado, dar um dono a cada iniciativa e usar o ganho de produtividade para crescer, em vez de encolher. Acima de tudo, cabe a você garantir que a máquina assuma o repetitivo e devolva às pessoas tempo para aquilo que nenhum modelo alcança.
A IA pode até fazer o trabalho. Decidir qual trabalho vale a pena, e para quem, continua sendo trabalho de líder.
* Olsen Rodrigo é CEO e fundador da Sintetiza AI. Com 17 anos dedicados à tecnologia em saúde, passando pela Matrix Saúde e por posições C-level (CPO/CTO) no AmorSaúde, hoje aplica inteligência artificial para automatizar e integrar a operação de empresas de diversos setores. É professor de IA aplicada a negócios, conselheiro e coautor de livros sobre liderança, produto e tecnologia. Defende uma IA que amplifica o potencial humano em vez de substituí-lo.
Como líder ou dono de empresa, qual é minha responsabilidade com a IA?
Acabei de voltar do MIT com uma lição que se repetiu em todas as aulas: a tecnologia já está pronta. Quem ainda precisa entrar em campo é a liderança!
Construir um agente de inteligência artificial leva 10 minutos; fazer com que os especialistas da empresa confiem no que ele entrega pode levar três meses. Ouvi essa conta há poucos dias, em Cambridge, nos Estados Unidos, durante um curso de extensão do MIT Sloan para CEOs latino-americanos. Foram três dias e oito sessões com professores do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e executivos de Microsoft e Google. Quase ninguém falou de modelo, de token ou de qual ferramenta assinar. O assunto que dominou a sala foi gente.
Trago o tema ainda quente porque ele muda a pergunta que todo dono de empresa deveria se fazer. Sai o “qual IA eu compro?” e entra o “qual é a minha responsabilidade com ela?”.
A IA é o GPS. O destino é seu
Pense no GPS do seu carro. Ele calcula a melhor rota, desvia do trânsito e avisa do radar, tudo melhor que qualquer motorista. Mas existe uma coisa que ele nunca fará: decidir para onde você quer ir.
Com a IA acontece o mesmo. Você não precisa saber escrever um prompt sofisticado nem entender como o modelo funciona por dentro; precisa responder a quatro perguntas que nenhuma máquina responde por você:
Parece básico e é! Ainda assim, um relatório do MIT de 2025 mostrou que apenas 5% dos pilotos de IA generativa nas empresas geravam retorno relevante. O Gartner projeta que mais de 40% dos projetos com agentes de IA serão cancelados até o fim de 2027, por custo alto, valor pouco claro e risco mal controlado. Repare: nenhum desses motivos é técnico. Todos são de gestão.
Sem destino definido, a IA vira um taxímetro ligado: roda o mês inteiro e, no fim, sobra só o recibo. E, como sempre repito por aqui, aplicada sobre processo desorganizado ela apenas acelera a bagunça.
Cortar gente é o atalho mais caro
O jeito mais fácil de justificar IA numa planilha é reduzir o quadro. Também é o menos inteligente.
A professora Zeynep Ton, do MIT Sloan, mostrou em aula o caminho oposto com o Sam’s Club, rede de varejo americana. Entre 2017 e 2019, a empresa aumentou salários, simplificou processos e usou tecnologia para tirar peso do trabalho das equipes. Em dois anos, a rotatividade caiu 25%, a produtividade subiu 16% e as vendas cresceram 25% sem nenhuma loja nova.
A frase dela ficou comigo: diante do medo de que produtividade signifique demissão, a única resposta que funciona é crescer. E crescer é uma decisão que só o líder pode tomar.
EPOCH: 5 letras que a máquina não alcança
Se a IA deve potencializar pessoas, falta responder: potencializar o quê? Os pesquisadores Isabella Loaiza e Roberto Rigobon, do MIT Sloan, inverteram a lente. Em vez de medir o que a IA consegue fazer, mediram o que só os humanos trazem. Assim nasceu o método EPOCH:
Eles analisaram quase 19 mil tarefas profissionais e encontraram um movimento claro: as tarefas que saem dos cargos são as de baixo EPOCH; as que entram são as de alto. E a letra mais ligada ao crescimento do emprego foi justamente o H, de visão e liderança.
Vejo isso todos os dias nos projetos de saúde que conduzo. O médico que deixa de digitar a anamnese não perde espaço para a máquina. A IA transcreve e organiza a consulta, ele revisa, e o tempo recuperado volta para o paciente em forma de escuta e presença. O E e o P ganham espaço na agenda.
Faça o teste na sua empresa
Hoje mesmo levo esse método para uma aula com líderes, e deixo aqui o exercício para você fazer em cinco minutos:
Quase sempre o papel revela uma surpresa: gente talentosa gastando o dia em tarefas que não pedem nenhuma das cinco letras.
Então, qual é a minha responsabilidade?
Volto à pergunta do título. Como líder ou dono de empresa, cabe a você escolher o problema certo, definir antes como vai medir o resultado, dar um dono a cada iniciativa e usar o ganho de produtividade para crescer, em vez de encolher. Acima de tudo, cabe a você garantir que a máquina assuma o repetitivo e devolva às pessoas tempo para aquilo que nenhum modelo alcança.
A IA pode até fazer o trabalho. Decidir qual trabalho vale a pena, e para quem, continua sendo trabalho de líder.
* Olsen Rodrigo é CEO e fundador da Sintetiza AI. Com 17 anos dedicados à tecnologia em saúde, passando pela Matrix Saúde e por posições C-level (CPO/CTO) no AmorSaúde, hoje aplica inteligência artificial para automatizar e integrar a operação de empresas de diversos setores. É professor de IA aplicada a negócios, conselheiro e coautor de livros sobre liderança, produto e tecnologia. Defende uma IA que amplifica o potencial humano em vez de substituí-lo.
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