Maria Fernanda Navega, sócia-fundadora da Circular Coffee, conta como é construir uma trajetória na qual cada recomeço virou repertório para a próxima fase
Repensando as histórias que compartilho nesta coluna, percebo que existe uma pressão silenciosa para que as trajetórias façam sentido desde o começo, como se sucesso fosse uma linha reta, previsível e organizada.
Mas a história da Maria Fernanda Navega, ou simplesmente “Mafe”, mostra justamente o contrário. Sua jornada não foi planejada e, sim, vivida.
O ponto de partida foi quando ela tinha 15 anos e se mudou para a China. Em um ambiente comercial conhecido por velocidade, escala e exigência, Mafe começou a trabalhar com exportação de máquinas e moldes industriais. Foi ali que teve seu 1º contato com o mundo dos negócios.
Nos anos seguintes, sua trajetória passou por diferentes países, culturas e projetos. Viveu entre Brasil, China e Colômbia; teve uma pousada na Serra da Canastra; criou uma marca de cafés especiais; trabalhou com fermentação de cafés em países produtores; atuou em consultoria internacional de supply chain; e participou de algumas das operações mais relevantes do mercado cafeeiro. “Eu aprendi negócios na China, construí relacionamentos na América Latina e encontrei meu propósito no café”, define.
Hoje, como sócia-fundadora da Circular Coffee, ela lidera uma exportadora construída sobre rastreabilidade, relações diretas com produtores e uma crença muito clara: confiança vale tanto quanto capital.
O peso dos recomeços
Quando pergunto sobre o maior obstáculo da sua trajetória, a resposta de Mafe não vem de uma crise específica. Segundo ela, o maior desafio foi “a soma dos recomeços”.
Construir uma carreira entre países, idiomas, culturas e setores diferentes exigiu mais que adaptação; exigiu resistência emocional. Afinal, existe uma sensação constante de estar começando de novo, enquanto outras pessoas parecem seguir uma rota mais previsível.
Por muito tempo, Mafe acreditou que essa não linearidade poderia ser um erro. Até perceber que era justamente o contrário. “O que eu interpretava como dispersão era, na verdade, repertório”. Cada país ampliou sua leitura de mundo e cada mudança adicionou uma nova perspectiva sobre negócios, pessoas e mercados.
Nesse contexto, em momentos de crise, sua reação nunca foi recuar. Foi, simplesmente, ouvir mais. “Muitas das oportunidades mais importantes da minha vida surgiram de conversas que não estavam no planejamento”. O que se tornou ainda mais evidente no mercado de cafés especiais, isso se torna ainda mais evidente.
Nele, quando o cenário aperta, não é apenas a estrutura operacional que sustenta o negócio, mas a confiança construída antes da necessidade. “Inovar com poucos recursos nunca foi fazer mais com menos. Foi entender que uma rede de relações bem construída é um ativo real”, explica.
Consistência acima da perfeição
Mafe também desenvolveu uma relação muito saudável com os erros ao entender que é diferente de fracassar. “Erro faz parte de qualquer construção relevante. Fracasso seria deixar de aprender com aquilo que aconteceu”, aponta.
Ao longo dos anos, abandonou a busca pela perfeição e passou a priorizar a consistência no longo prazo, o que, segundo ela, “vale muito mais”.
Embora talvez essa seja uma das grandes lições de quem construiu uma carreira internacional sem seguir um roteiro tradicional, a maior reviravolta aconteceu quando percebeu que todas as experiências acumuladas ao longo da vida apontavam para o mesmo lugar: o café.
Não apenas como produto, mas como ecossistema. Comércio exterior, logística, relações internacionais, cadeia produtiva, narrativa de valor e relacionamento com produtores. Tudo convergia para um único ponto. “O café conectou tudo o que eu tinha vivido”.
Assumir a liderança da Circular Coffee representou exatamente esse momento de convergência. “Foi quando deixei de apenas contribuir para projetos e passei a construir algo com visão de longo prazo”, lembra a empresária.
O mito do empreendedor solitário
Existe um mito muito forte no empreendedorismo que é a ideia de que os grandes resultados são construídos por pessoas autossuficientes. Mafe aprendeu exatamente o contrário: “Nada relevante se constrói sozinho”, garante.
São os clientes que acreditam antes da estrutura existir; os parceiros que permanecem antes dos resultados aparecerem; e as equipes que dividem o peso dos momentos difíceis.
Segundo ela, toda trajetória consistente é sustentada por uma rede de confiança. E quanto antes o empreendedor entender isso, mais rápido deixará de tentar carregar tudo sozinho.
A história da Mafe me fez lembrar que algumas das trajetórias mais sólidas não são as mais lineares; são aquelas construídas com coragem para mudar de país, de mercado, de projeto e, principalmente, de perspectiva.
Miguel El Debs | Crédito: Érico Andrade
Por muito tempo, ela acreditou que precisava justificar cada escolha que fugia do caminho esperado. Hoje, entende que foram justamente essas experiências que construíram sua visão de mundo.
“Valorize sua história enquanto ela está sendo vivida”, aconselha. E talvez esse seja um conselho que sirva para todos nós. Porque muitas vezes só enxergamos a força da nossa trajetória quando olhamos para trás, esquecendo que ela está sendo construída agora, uma conversa, uma decisão, um aprendizado e um café de cada vez.
Se você conhece alguém com uma história empreendedora que merece ser contada, escreva para contato@grupozumm.com.br.
* Miguel El Debs é empresário, head do DBS|Hub e do LIDE Empreendedor, sócio do Grupo ZK, e conselheiro estratégico com foco em Branding e Marketing.
Nem todo caminho precisa ser reto para fazer sentido
Maria Fernanda Navega, sócia-fundadora da Circular Coffee, conta como é construir uma trajetória na qual cada recomeço virou repertório para a próxima fase
Repensando as histórias que compartilho nesta coluna, percebo que existe uma pressão silenciosa para que as trajetórias façam sentido desde o começo, como se sucesso fosse uma linha reta, previsível e organizada.
Mas a história da Maria Fernanda Navega, ou simplesmente “Mafe”, mostra justamente o contrário. Sua jornada não foi planejada e, sim, vivida.
O ponto de partida foi quando ela tinha 15 anos e se mudou para a China. Em um ambiente comercial conhecido por velocidade, escala e exigência, Mafe começou a trabalhar com exportação de máquinas e moldes industriais. Foi ali que teve seu 1º contato com o mundo dos negócios.
Nos anos seguintes, sua trajetória passou por diferentes países, culturas e projetos. Viveu entre Brasil, China e Colômbia; teve uma pousada na Serra da Canastra; criou uma marca de cafés especiais; trabalhou com fermentação de cafés em países produtores; atuou em consultoria internacional de supply chain; e participou de algumas das operações mais relevantes do mercado cafeeiro. “Eu aprendi negócios na China, construí relacionamentos na América Latina e encontrei meu propósito no café”, define.
Hoje, como sócia-fundadora da Circular Coffee, ela lidera uma exportadora construída sobre rastreabilidade, relações diretas com produtores e uma crença muito clara: confiança vale tanto quanto capital.
O peso dos recomeços
Quando pergunto sobre o maior obstáculo da sua trajetória, a resposta de Mafe não vem de uma crise específica. Segundo ela, o maior desafio foi “a soma dos recomeços”.
Construir uma carreira entre países, idiomas, culturas e setores diferentes exigiu mais que adaptação; exigiu resistência emocional. Afinal, existe uma sensação constante de estar começando de novo, enquanto outras pessoas parecem seguir uma rota mais previsível.
Por muito tempo, Mafe acreditou que essa não linearidade poderia ser um erro. Até perceber que era justamente o contrário. “O que eu interpretava como dispersão era, na verdade, repertório”. Cada país ampliou sua leitura de mundo e cada mudança adicionou uma nova perspectiva sobre negócios, pessoas e mercados.
Nesse contexto, em momentos de crise, sua reação nunca foi recuar. Foi, simplesmente, ouvir mais. “Muitas das oportunidades mais importantes da minha vida surgiram de conversas que não estavam no planejamento”. O que se tornou ainda mais evidente no mercado de cafés especiais, isso se torna ainda mais evidente.
Nele, quando o cenário aperta, não é apenas a estrutura operacional que sustenta o negócio, mas a confiança construída antes da necessidade. “Inovar com poucos recursos nunca foi fazer mais com menos. Foi entender que uma rede de relações bem construída é um ativo real”, explica.
Consistência acima da perfeição
Mafe também desenvolveu uma relação muito saudável com os erros ao entender que é diferente de fracassar. “Erro faz parte de qualquer construção relevante. Fracasso seria deixar de aprender com aquilo que aconteceu”, aponta.
Ao longo dos anos, abandonou a busca pela perfeição e passou a priorizar a consistência no longo prazo, o que, segundo ela, “vale muito mais”.
Embora talvez essa seja uma das grandes lições de quem construiu uma carreira internacional sem seguir um roteiro tradicional, a maior reviravolta aconteceu quando percebeu que todas as experiências acumuladas ao longo da vida apontavam para o mesmo lugar: o café.
Não apenas como produto, mas como ecossistema. Comércio exterior, logística, relações internacionais, cadeia produtiva, narrativa de valor e relacionamento com produtores. Tudo convergia para um único ponto. “O café conectou tudo o que eu tinha vivido”.
Assumir a liderança da Circular Coffee representou exatamente esse momento de convergência. “Foi quando deixei de apenas contribuir para projetos e passei a construir algo com visão de longo prazo”, lembra a empresária.
O mito do empreendedor solitário
Existe um mito muito forte no empreendedorismo que é a ideia de que os grandes resultados são construídos por pessoas autossuficientes. Mafe aprendeu exatamente o contrário: “Nada relevante se constrói sozinho”, garante.
São os clientes que acreditam antes da estrutura existir; os parceiros que permanecem antes dos resultados aparecerem; e as equipes que dividem o peso dos momentos difíceis.
Segundo ela, toda trajetória consistente é sustentada por uma rede de confiança. E quanto antes o empreendedor entender isso, mais rápido deixará de tentar carregar tudo sozinho.
A história da Mafe me fez lembrar que algumas das trajetórias mais sólidas não são as mais lineares; são aquelas construídas com coragem para mudar de país, de mercado, de projeto e, principalmente, de perspectiva.
Por muito tempo, ela acreditou que precisava justificar cada escolha que fugia do caminho esperado. Hoje, entende que foram justamente essas experiências que construíram sua visão de mundo.
“Valorize sua história enquanto ela está sendo vivida”, aconselha. E talvez esse seja um conselho que sirva para todos nós. Porque muitas vezes só enxergamos a força da nossa trajetória quando olhamos para trás, esquecendo que ela está sendo construída agora, uma conversa, uma decisão, um aprendizado e um café de cada vez.
Se você conhece alguém com uma história empreendedora que merece ser contada, escreva para contato@grupozumm.com.br.
* Miguel El Debs é empresário, head do DBS|Hub e do LIDE Empreendedor, sócio do Grupo ZK, e conselheiro estratégico com foco em Branding e Marketing.
Leia também
LinkedIn divulga quais profissões devem se manter em alta durante 2024
A plataforma de mídia social focada em negócios e emprego listou as …
Talk explora vantagens e desafios das franquias como modelo de negócio
Evento será realizado nesta terça-feira (27), com franqueadores e franqueados de marcas …
Alexandra Lima e Marcela Mariani completam 8 anos de parceria com a POPit Comunicação
As empresárias e publicitárias Alexandra Lima e Marcela Mariani contam como nasceu …
Savegnago completa 46 anos com mais de 50 lojas no interior
A “Rede Forte do Interior” faz aniversário em agosto e comemora com …