Graças à valorização do que é autêntico e provoca conexões, marcas ganham espaço no mercado de luxo por meio de peças artesanais
Beatriz Gerlack
Ao Portal Zumm, já disse Beatriz Gerlack, fundadora da agência Bridge+55 e que possui anos de experiência no mercado de luxo: “existe uma busca crescente por viagens mais imersivas, gastronomia autoral, produtos feitos à mão, bem-estar emocional e relações mais humanas. O consumidor de luxo hoje quer conexão e não apenas consumo”.
A análise da empresária reflete a realidade que mudou a compreensão do que é luxo, o qual, apesar de historicamente associado à ostentação e ao poder, ganhou novos caminhos e aparece, hoje, ligado a uma postura mais intimista e ao desejo crescente por autenticidade e exclusividade dos produtos adquiridos.
Neste contexto, peças feitas à mão ganham destaque ao ultrapassarem a ideia do que é aesthetic e estabelecer vínculos com o consumidor através de uma identidade própria, difícil de replicar.
O Brasil e o artesanato andam de mãos dadas
Uma pesquisa realizada pelo Sebrae apontou que o setor de artesanato no Brasil, sozinho, representa 3% de todo o Produto Interno Bruto (PIB), com um faturamento aproximado de R$ 102 bilhões.
“O artesanato é uma das mais tradicionais atividades laborais do ser humano, seja na dimensão daquele que mantém a cultura local viva, seja na condição de realizar um trabalho de sustento próprio ou da família. Da união dessas duas dimensões, o artesanato é a própria expressão econômica cultural no Brasil”, apontou Décio Lima, presidente do Sebrae em 2024, quando os dados mais recentes foram divulgados.
E não pense que a valorização do feito à mão acontece só no Brasil. O mercado da moda, grande vitrine para o país, exportou US$ 2,6 bilhões só em 2024, alcançando 217 mercados.
Feito no Brasil e do Brasil
Marisol Garcia
Mesmo que nem sempre 100% do material transformado em produto seja nacional, o que é feito por aqui tem um grande valor, especialmente quando busca valorizar e inserir técnicas e elementos regionais no processo de produção.
A Traço Um, uma marca brasileira especializada na criação de peças de decoração feitas à mão para ambientes internos e externos, por exemplo, utiliza materiais naturais e regionais, como taboa, fibras trançadas e materiais que aproximam o produto do território e do processo artesanal.
Segundo Marisol Garcia, design criativa da marca, a matéria-prima usada vem de uma curadoria de materiais escolhidos de acordo com função, estética e comportamento de cada peça, a fim de se adequarem a cada contexto e propósito dos objetos.
“Nas peças outdoor, utilizamos materiais como o polipropileno com proteção UV, pensado para resistência e uso em áreas externas. Já nas linhas indoor, valorizamos textura, conforto visual e presença, como algodão, chenille, fita de malha, lã, poliéster e outras composições, conforme cada coleção”, explica.
Por outro lado, as peças da Domenica 112, marca de bolsas autorais produzidas em pequena escala, são criadas a partir de material 100% importado, só que sem perder a essência da brasilidade. “O processo criativo é meu: escolha de ferragens, escolha do tecido e do modelo, até a cor do forro. A brasilidade entra na combinação das cores e nas escolhas dos tecidos, mesmo sendo todos eles franceses ou italianos. O olhar, o sentimento e o mood são de uma brasileira que adora o que faz”, conta Ziza Crepaldi, empresária dona da marca.
Ziza Crepaldi
Além dos materiais em si, muito do “feito do Brasil” se encaixa no mundo das ideias, nas inspirações e nas técnicas de produção. Ziza trabalha diretamente com artesãos na produção de suas bolsas e, na hora de planejar novos modelos, se atém às inspirações que partem de todos os lados.
“Me inspiro em tudo o que vejo: na música, nas cidades que visito, nas histórias que vivi e ouvi. E, às vezes, deixo a intuição tomar conta das escolhas”, conta.
Escala X feito à mão
Diferentemente da Domenica 112, a Traço Um possui uma produção maior e, para permanecer no “feito à mão”, teve que respeitar o processo e aplicar métodos que permitissem um aumento de escala sem prejudicar a individualidade de cada peça.
“Produzir em maior escala não significa retirar a presença das mãos. Significa organizar o processo para que a técnica artesanal continue sendo respeitada, com qualidade, consistência e identidade”, aponta Marisol.
Inclusive, ela defende que a identidade da marca é construída justamente a partir do encontro entre técnica, matéria e design. Tudo isso junto, guiado pelas inspirações que partem das texturas, da natureza e da forma como as pessoas vivem aqui no Brasil, constituem a identidade da Traço Um.
O valor do que é feito à mão
Marisol acredita também que o reconhecimento do artesanal e do feito no Brasil ainda seja um processo em construção. “Durante muito tempo, o artesanal foi visto como algo simples ou informal. Hoje, existe uma mudança importante: arquitetos, designers, lojistas e consumidores começam a perceber que essa forma de produzir pode ser sofisticada, técnica, contemporânea e muito relevante dentro de um projeto”, explica a design criativa, que ainda aponta um problema dessa construção
“Uma peça feita à mão não carrega apenas o custo do material. Ela carrega tempo, técnica, desenvolvimento, acabamento, equipe e identidade. E muitos consumidores não levam tudo isso em conta”, aponta.
Só que quando o consumidor entende esse processo, ele passa a enxergar a peça de outra forma e permite que o formato se coloque lado a lado ao mercado de luxo. Por isso, para Ziza, hoje as pessoas percebem que, mesmo gostando e usando marcas poderosas, ter uma bolsa diferente, exclusiva, feita com carinho e cuidado, é um diferencial: “Ela é única”.
Brasilidade real
Falar sobre o que vem daqui é uma forte tendência, vide o avanço do Brazilcore, uma moda que utiliza as cores da bandeira brasileira e símbolos que remetem a referências culturais do país combinados a elementos do streetwear em looks do dia a dia, produções fashionistas e de passarela. E, segundo Marisol, esse movimento possui dois lados: pode abrir espaço para conversas importantes sobre origem, matéria, território e valorização do trabalho manual, mas pode atrapalhar quando essas palavras são usadas apenas como discurso, sem processo real por trás.
“É importante que o público consiga ver as mãos, os fios, os teares, os acabamentos, em cada etapa. A brasilidade não deve ser apenas uma estética. Para nós, ela está no modo de fazer, na mistura de referências, nas pessoas e na forma como a matéria é transformada”, reflete.
“Hoje, muitas marcas falam em artesanal, brasilidade e feito à mão, mas nem sempre isso aparece na forma de produzir, na relação com as pessoas, na escolha dos materiais ou na construção da peça.”
Produtos artesanais e ‘Feito no Brasil’ ganham espaço no mercado de luxo
Graças à valorização do que é autêntico e provoca conexões, marcas ganham espaço no mercado de luxo por meio de peças artesanais
Ao Portal Zumm, já disse Beatriz Gerlack, fundadora da agência Bridge+55 e que possui anos de experiência no mercado de luxo: “existe uma busca crescente por viagens mais imersivas, gastronomia autoral, produtos feitos à mão, bem-estar emocional e relações mais humanas. O consumidor de luxo hoje quer conexão e não apenas consumo”.
A análise da empresária reflete a realidade que mudou a compreensão do que é luxo, o qual, apesar de historicamente associado à ostentação e ao poder, ganhou novos caminhos e aparece, hoje, ligado a uma postura mais intimista e ao desejo crescente por autenticidade e exclusividade dos produtos adquiridos.
Neste contexto, peças feitas à mão ganham destaque ao ultrapassarem a ideia do que é aesthetic e estabelecer vínculos com o consumidor através de uma identidade própria, difícil de replicar.
O Brasil e o artesanato andam de mãos dadas
Uma pesquisa realizada pelo Sebrae apontou que o setor de artesanato no Brasil, sozinho, representa 3% de todo o Produto Interno Bruto (PIB), com um faturamento aproximado de R$ 102 bilhões.
“O artesanato é uma das mais tradicionais atividades laborais do ser humano, seja na dimensão daquele que mantém a cultura local viva, seja na condição de realizar um trabalho de sustento próprio ou da família. Da união dessas duas dimensões, o artesanato é a própria expressão econômica cultural no Brasil”, apontou Décio Lima, presidente do Sebrae em 2024, quando os dados mais recentes foram divulgados.
E não pense que a valorização do feito à mão acontece só no Brasil. O mercado da moda, grande vitrine para o país, exportou US$ 2,6 bilhões só em 2024, alcançando 217 mercados.
Feito no Brasil e do Brasil
Mesmo que nem sempre 100% do material transformado em produto seja nacional, o que é feito por aqui tem um grande valor, especialmente quando busca valorizar e inserir técnicas e elementos regionais no processo de produção.
A Traço Um, uma marca brasileira especializada na criação de peças de decoração feitas à mão para ambientes internos e externos, por exemplo, utiliza materiais naturais e regionais, como taboa, fibras trançadas e materiais que aproximam o produto do território e do processo artesanal.
Segundo Marisol Garcia, design criativa da marca, a matéria-prima usada vem de uma curadoria de materiais escolhidos de acordo com função, estética e comportamento de cada peça, a fim de se adequarem a cada contexto e propósito dos objetos.
“Nas peças outdoor, utilizamos materiais como o polipropileno com proteção UV, pensado para resistência e uso em áreas externas. Já nas linhas indoor, valorizamos textura, conforto visual e presença, como algodão, chenille, fita de malha, lã, poliéster e outras composições, conforme cada coleção”, explica.
Por outro lado, as peças da Domenica 112, marca de bolsas autorais produzidas em pequena escala, são criadas a partir de material 100% importado, só que sem perder a essência da brasilidade. “O processo criativo é meu: escolha de ferragens, escolha do tecido e do modelo, até a cor do forro. A brasilidade entra na combinação das cores e nas escolhas dos tecidos, mesmo sendo todos eles franceses ou italianos. O olhar, o sentimento e o mood são de uma brasileira que adora o que faz”, conta Ziza Crepaldi, empresária dona da marca.
Além dos materiais em si, muito do “feito do Brasil” se encaixa no mundo das ideias, nas inspirações e nas técnicas de produção. Ziza trabalha diretamente com artesãos na produção de suas bolsas e, na hora de planejar novos modelos, se atém às inspirações que partem de todos os lados.
Escala X feito à mão
Diferentemente da Domenica 112, a Traço Um possui uma produção maior e, para permanecer no “feito à mão”, teve que respeitar o processo e aplicar métodos que permitissem um aumento de escala sem prejudicar a individualidade de cada peça.
“Produzir em maior escala não significa retirar a presença das mãos. Significa organizar o processo para que a técnica artesanal continue sendo respeitada, com qualidade, consistência e identidade”, aponta Marisol.
Inclusive, ela defende que a identidade da marca é construída justamente a partir do encontro entre técnica, matéria e design. Tudo isso junto, guiado pelas inspirações que partem das texturas, da natureza e da forma como as pessoas vivem aqui no Brasil, constituem a identidade da Traço Um.
O valor do que é feito à mão
Marisol acredita também que o reconhecimento do artesanal e do feito no Brasil ainda seja um processo em construção. “Durante muito tempo, o artesanal foi visto como algo simples ou informal. Hoje, existe uma mudança importante: arquitetos, designers, lojistas e consumidores começam a perceber que essa forma de produzir pode ser sofisticada, técnica, contemporânea e muito relevante dentro de um projeto”, explica a design criativa, que ainda aponta um problema dessa construção
Só que quando o consumidor entende esse processo, ele passa a enxergar a peça de outra forma e permite que o formato se coloque lado a lado ao mercado de luxo. Por isso, para Ziza, hoje as pessoas percebem que, mesmo gostando e usando marcas poderosas, ter uma bolsa diferente, exclusiva, feita com carinho e cuidado, é um diferencial: “Ela é única”.
Brasilidade real
Falar sobre o que vem daqui é uma forte tendência, vide o avanço do Brazilcore, uma moda que utiliza as cores da bandeira brasileira e símbolos que remetem a referências culturais do país combinados a elementos do streetwear em looks do dia a dia, produções fashionistas e de passarela. E, segundo Marisol, esse movimento possui dois lados: pode abrir espaço para conversas importantes sobre origem, matéria, território e valorização do trabalho manual, mas pode atrapalhar quando essas palavras são usadas apenas como discurso, sem processo real por trás.
“É importante que o público consiga ver as mãos, os fios, os teares, os acabamentos, em cada etapa. A brasilidade não deve ser apenas uma estética. Para nós, ela está no modo de fazer, na mistura de referências, nas pessoas e na forma como a matéria é transformada”, reflete.
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