Seja no campo, nos negócios ou em família, Marcelo Bordon mostra que o esforço e a dedicação são os pilares fundamentais de uma vida que inspira admiração
A data de 9 de julho de 2011 entrou para a história do futebol europeu como o dia em que uma cidade parou para se despedir de um ídolo. No estádio Veltins-Arena, em Gelsenkirchen, na Alemanha, cerca de 55 mil torcedores se reuniram para demonstrar todo o carinho e a admiração pelo atleta que tanto tinha feito pelo futebol germânico. E aquele ídolo era o ribeirão-pretano Marcelo Bordon.
Tamanho reconhecimento, ainda mais em terras estrangeiras, pode surpreender as novas gerações ou até pessoas que o conhecem pessoalmente, mas só como empresário. Até porque Bordon não se coloca no mesmo pedestal que seus admiradores o colocaram. Para ele, a despedida grandiosa, mais que o alçar como herói, reconheceu o tipo de pessoa que sempre quis ser: aquela que faz sempre tudo o que pode e se entrega 100%.
Despedida de Marcelo Bordon do Schalke, em 2011 | Créditos: Divulgação
“Eles me respeitam como pessoa. Se você fez, se você marcou mesmo, se foi alguém honesto, eles reconhecem. Eu não me sentia merecedor daquilo tudo. Mas eles acreditaram. E eu espero que o meu caráter, que é a única coisa que vai me fazer entrar no céu, fique marcado por muitas décadas”, compartilha.
Este bate-papo aconteceu no Complexo Esportivo Acahdre, onde o ex-atleta passa grande parte do seu tempo (seja fazendo a gestão ou jogando em alguma das quadras), logo depois a comemoração do seu aniversário de 50 anos.
Legado de capitão
Antes de chegar ao ápice de um estádio lotado por sua causa, foram mais de 20 anos de entrega e dedicação total ao futebol. Nascido e criado em Ribeirão Preto, foi também na cidade que Bordon começou a jogar profissionalmente, no Botafogo Futebol S/A. Pouco depois, já se transferiu para o São Paulo F.C., onde ficou durante cinco anos até aparecer a oportunidade de jogar na Alemanha.
E a oportunidade não era grande só por ser em outro país, mas porque jogar no Schalke era um sonho do atleta – e que só se cumpriu quando ele mostrou, já no Velho Continente, a sua ética de trabalho e, principalmente, o seu compromisso com o esporte.
“Fiquei por cinco anos jogando pelo Stuttgart, que foi excelente para mim e fui por muito tempo capitão do time. Mas, faltando um ano para terminar meu contrato, fui surpreendido pelo presidente do Schalke, que chegou à minha casa e perguntou se eu queria ir jogar para eles. Falei que era meu sonho, mas que tinha um contrato ainda. ‘Não te perguntei se você tem contrato. Perguntei se você quer ir’, foi a resposta dele para mim. Quando eu disse que sim, ele me deu as boas-vindas ao clube dele. Ali senti uma firmeza impressionante. Eles me compraram e, logo na primeira temporada, fiz dois gols que classificaram o time para a Champions League, a primeira do Schalke”, orgulha-se.
Marcelo Bordon jogando pelo Schalke | Crédito: Divulgação
Menos de dois anos após aquela contratação surpresa, Bordon voltou a se tornar capitão, função que desempenhou até sua polêmica saída do clube, em 2010 – uma situação provocada por um desentendimento com o novo treinador, mas que não dava para ser ignorada, não sendo o jogador que ele era e ainda é.
“Esse treinador queria roubar o clube, mas como eu era capitão, seria mais difícil. Porque o capitão lá decide as coisas. Então, ele deu um jeito de se desfazer de mim para conseguir fazer o que queria. Ninguém entendeu nada, porque eu estava numa fase muito boa. Tive que sair de lá sem falar com os torcedores, sem poder explicar nada. Ainda bem que eu tive a chance de voltar, fazer uma conferência de imprensa, explicar e me despedir. Um ano depois. Mas voltei e pude sair com o coração tranquilo”, conta.
Nos 11 anos em que ficou na Europa, foram quatro Champions League, três UEFA e dedicação exclusiva aos times. “Nunca deixei de entregar o meu máximo em campo; nunca deixei de treinar. Fiz tudo que eu podia e aproveitei o máximo”, avalia. Deixar a Alemanha, com a qual sempre se sentiu conectado, não foi fácil. Contudo, uma outra paixão eliminou qualquer dúvida: “Tive muita dificuldade quando voltei ao Brasil. E se não fosse Ribeirão Preto, eu não voltava. Mas voltei porque sou apaixonado por Ribeirão”.
Acréscimo em novo campo
Antes de aterrissar na capital do agronegócio, o avião de Bordon fez um “desvio” pelo Catar, onde ele viveu seu último ano como atleta profissional, jogando pelo Al-Rayyan. “Minha passagem no Catar foi boa, mas eu senti muito. O que me matou foi que, antes, eu jogava na presença de umas 60 mil pessoas. Ali, eu passei a jogar com 60 pessoas. Aquilo foi me tirando um pouco o brilho, sabe?! No final da carreira, você precisa dessa atmosfera mais fervorosa. Então, foi um pouco difícil para mim, mas, ao mesmo tempo, vivi um momento muito legal, um negócio bem diferente”.
Entre as diferenças, ele cita o horário dos treinos, que normalmente aconteciam durante à noite, por causa do forte calor que faz na região, e em locais próximos do centro de treinamento, o que não demandava viagens rotineiras. Em relação ao que viveu na Europa, muitas vezes o trabalho parecia férias. Ainda assim, não foi o que fez soar o apito final.
“Perto do fim do contrato, tive uma lesão no tendão do quadril, que ia me deixar três meses fora do campo. Foi quando fiz uma escolha que só quando a gente obedece a Deus mesmo que é possível entender. Falei para eles: ‘até aqui vocês me pagaram e eu joguei. A partir de agora, não vou conseguir jogar mais, vocês não precisam me pagar. Peguei todo mundo de surpresa. Tanto que o diretor do comitê falou que era a primeira vez que algo assim acontecia no mundo árabe e deixou todas as portas abertas para mim. Sem nenhum peso, sem nenhuma preocupação. No fim, foi legal também. Tudo foi válido. Não tenho nenhum arrependimento”, garante.
“Não tenho o que reclamar. Fui muito além do que eu imaginava ou pensava. Fiz tudo o que podia e sou supercontente com a minha carreira.”
Jogando em outra posição
Como tinha apenas 36 anos, a aposentadoria como atleta profissional acabou representando apenas o encerramento de um ciclo, já que toda uma vida se abria em direção ao futuro. “Existem pessoas que falam que jogador morre duas vezes, visto que uma delas acontece quando a gente para de jogar. E é realmente estranho. Eu, que nunca tinha tido fim de semana livre, nunca fui dono do meu tempo, de repente estava em casa, sem nada para fazer”, lembra. Mas já na época, todos sabiam – e ele também – que não seria assim por muito tempo.
Pelo contrário, foi só o tempo necessário para a Acahdre Estrutura Fitness nascer e se tornar o principal projeto profissional e também pessoal da vida do ex-atleta, que sempre soube que deveria permanecer na área de saúde e bem-estar. Desde que foi aberta em 2013, a academia virou praticamente uma segunda casa para as centenas de pessoas que escolhem diariamente cuidarem de si mesmas.
“Já tinha o espaço lá na Avenida Wladimir Meirelles e comecei a visualizar a academia, que precisava oferecer algo compatível com a nobreza daquela região. Sempre quis entregar mais que propriamente o lugar. Inclusive, esse é um dos pontos que eu sempre me preocupo demais: oferecer mais do que você cobra”, explica.
Essa lógica acabou resultando também na ampliação dos serviços da academia, com a abertura de um heath center no mesmo prédio e, posteriormente, do Centro de Treinamento, e foi aplicada ainda ao Hand Hoch, um espaço de eventos inaugurado em 2025 e totalmente criado por Bordon, do projeto arquitetônico ao serviço, embora não tenha sido algo planejado antecipadamente – não por ele, pelo menos.
“Me parece que era um sonho de Deus para mim, porque eu consegui colocar ele de pé só com três pedreiros. Fiquei ali, todos os dias, durante um ano e três meses, e as ideias foram todas vindo do alto. E ela foi se tornando mais do que eu imaginava e tomando essa proporção, na qual hoje consigo fazer desde casamento a corporativo, aniversário… algo bem flexível”, revela.
Mão para o alto
Tanto a Acahdre, quanto o Hand Hoch revelam ainda outros traços importantes que edificam a personalidade de Bordon e que sempre se fizeram presentes, como o gosto por construir/transformar (“sou fascinado nesse negócio de pegar uma coisa destruída e trazer vida nela”, garante) e sua religiosidade, princípio que rege todas as suas ações.
Não por acaso, o nome do centro de eventos é a expressão em alemão para “mão para o alto” (em sentido de louvor). “Procuro obedecer aquilo que está escrito. Não é nada de mim. Tem a vontade de Deus na nossa vida. Isso muda o caráter, as decisões, os negócios. Não é qualquer coisa que você entra, não é de qualquer jeito que você faz. Inclusive, quando eu falo de ‘entregar mais’ para as pessoas, entregar o melhor, também vem daí. Porque Jesus servia; ele nunca pegou nada”, se justifica.
Janaína e Marcelo Bordon no espaço de eventos Hand Hoch
Afirmando-se como cristão e sem nem mencionar uma religião específica, Bordon se define por meio desse sentimento de servidão, que tem a Bíblia como manual. De acordo com ele, Deus sempre o escolheu, o acolheu e o guiou.
Além das oportunidades no futebol e nos negócios, ele cita como exemplo do Divino em sua vida a criação de uma igreja na Alemanha, a qual fundou junto com outras três pessoas (e que ainda hoje existe no país, embora dividida) e o aprendizado do alemão, idioma que sabe falar embora nunca tenha frequentado nenhuma aula.
“Eu só sabia falar ‘oi’, ‘tchau’, contava até 10 e tal. Mas eu pedi para Deus. Pedi, porque Deus tem todas as línguas. E aí eu sonhei que estava falando alemão e falava perfeitamente. A partir desse dia, meu alemão desenrolou. Sem aprender em lugar nenhum, só no dia a dia. E não esqueço. Então, eu creio que alemão veio do alto mesmo. Acho que ainda não tinha contado isso”, compartilha.
“A gente tem que dar um passo à frente, sabe?! Tem que ‘meter o peito’ e ver o que vai acontecer, porque Deus vai abrindo as portas.”
A maior herança
Se na Alemanha, Bordon gerou tamanha comoção, por aqui, na sua terra natal, o reconhecimento vem de maneira menos estrondosa, mas igualmente valiosa, especialmente quando vem daqueles para quem dedica a própria vida. “Sem a família, acho que não faz sentido continuar”, ressalta.
Janaína Bordon, sua esposa há 26 anos, e os três filhos – Júlia, Filipe e Ricardo – não escondem a admiração que sentem pelo marido e pai, que sempre esteve com eles, mesmo durante a tumultuada vida de jogador. Isso porque a família inteira o acompanhou, fosse no Brasil, na Alemanha ou até no Catar. “Seis meses depois que me casei (em 2000), a gente já foi embora do país. Então, eu nunca fiquei sozinho lá fora – nem aqui, visto que minha esposa foi minha primeira namorada. É assim desde os 13, 14 anos. A gente nunca ficou separado”, conta, tanto sobre a esposa, quanto os filhos – tendo os dois primeiros nascidos no Brasil, no intervalo de temporadas, e o último na Alemanha, quando não foi possível retornar.
“Comecei a entender o tamanho da responsabilidade que ele carregava a partir do momento em que passei a estar ao lado dele todos os dias. Admiro a coragem dele de fazer, de se dispor, de sempre ser o melhor em tudo que faz e de ter o maior coração do mundo.”
– Julia Bordon
Marcelo com os filhos na despedida dos campos em 2011
Para eles, o pai também é uma grande inspiração de valores, atitudes e até profissional. Enquanto Júlia continua ao seu lado, ajudando-o na administração e no marketing dos negócios, Filipe e Ricardo seguem os passos do pai e já se dedicam profissionalmente ao futebol, inclusive na mesma posição. A única diferença, segundo Bordon, é que nenhum dos dois puxou a sua canhota. Atualmente, ambos moram na Itália, onde jogam pelo S.S. Lazio.
O ex-zagueiro também conta que nunca houve uma pressão para que os filhos seguissem o mesmo caminho. Foi algo natural, mas que, em determinado momento, precisou ser encarado com a devida responsabilidade. “Deixo eles um pouco à vontade, mas, na hora que o negócio vai arder, eu meio que mastigo um pouquinho, porque já passei por tudo. Tento manter para eles um equilíbrio. Quando eles sobem muito, dou uma diminuída; quando caem, eu levanto. Esse é o caminho do sucesso do jogador que chega mais longe. Então, fico por trás, orientando e trazendo um certo equilíbrio, porque sofri demais em toda minha carreira”.
Entre os ensinamentos, está que toda jogada importa: não existe bola perdida. “Sempre falei para eles e falo até hoje: cada bola jogada é um prato de comida. Essa geração não consegue entender isso. Se quiser ser um jogador de alto rendimento, jogar aonde a elite joga, uma bola pode mudar a sua vida. Então, vai em todas, 100%”, aconselha. Essa lição, inclusive, é o que Ricardo lembra da conversa que teve com o pai antes de se profissionalizar, mas, principalmente, assistindo-o durante toda sua carreira: “aprendi a deixar tudo no campo, dar o máximo no que for fazer, aonde for. Isso eu via nele, nem precisava falar”.
Também para Filipe, os exemplos foram mais fortes que qualquer palavra. “Vejo ele como um espelho. Por isso, não é preciso palavras para ele ensinar; só de observar e ver como é seu caráter e suas atitudes. Obviamente não vou conseguir ser a cópia perfeita, mas vou tentar que daqui 20, 30 anos, as pessoas vejam em mim o grande homem que ele é”.
Marcelo Bordon e o filho Ricardo | Crédito: Érico AndradeFilipe Bordon, jogando pelo S.S. Lazio
Talvez seja por toda essa determinação e exemplo que, quando pedido que definissem o pai em uma palavra, as escolhidas foram “humilde”, “guerreiro” e “honesto”.
Segue o jogo
Ao completar 50 anos em 7 de janeiro de 2026, Marcelo Bordon entrou em uma nova fase, não pela idade, mas por decisão pessoal. Depois de se ver em um vídeo e não gostar da sua imagem, ele passou a buscar maior equilíbrio, especialmente em relação à alimentação e ao tempo. “Sempre tive disciplina, mas algumas coisas passavam desapercebidas. Até que senti que comecei a ter um adversário mais terrível de todos: eu mesmo. Então, hoje eu tenho uma alimentação mais controlada. Minha cabeça é mais controlada. E tem que treinar. Se eu não treinar, me dá muita fome. Se eu treino, eu consigo controlar”, revela.
Assim, faz parte dessa nova fase, treinos diários, seja de musculação, ou jogando futebol, futevôlei e tênis (sua nova descoberta esportiva). Além disso, chega a fazer jejum de mais de 18 horas e, uma vez por mês, jejum em oração, quando fica somente à base de água por três dias. No quesito tempo, explica que tem mais atribuições que antes, mas agora determina quando e como vai cumpri-las – muito diferente da vida de jogador, que tinha hora para comer, dormir, sair, viajar.
“Hoje, acordo muito cedo, mas não gosto que me tire da cama por um motivo determinado. Eu tenho esse trauma. E sei que temos um corpo que Deus fez, que é perfeito, mas a gente estraga. Então, eu tomei uma decisão de cuidar dele. E hoje durmo melhor, jogo melhor, tenho mais força que antes”, garante.
E dessa forma, com as energias renovadas, espera seguir vivendo conforme os desígnios de Deus: “Quero continuar na mesma pegada. Não quero parar nada, porque senão a gente envelhece, tanto física quanto mentalmente. Acho que construir, criar, deixa a gente novo. Tenho o maior prazer nisso. E tomara que eu tenha saúde para isso até chegar aos céus”, conclui.
“Tudo o que sonhei foi muito pequeno diante daquilo que Deus fez na minha vida.”
A vida de disciplina e integridade de Marcelo Bordon
Seja no campo, nos negócios ou em família, Marcelo Bordon mostra que o esforço e a dedicação são os pilares fundamentais de uma vida que inspira admiração
A data de 9 de julho de 2011 entrou para a história do futebol europeu como o dia em que uma cidade parou para se despedir de um ídolo. No estádio Veltins-Arena, em Gelsenkirchen, na Alemanha, cerca de 55 mil torcedores se reuniram para demonstrar todo o carinho e a admiração pelo atleta que tanto tinha feito pelo futebol germânico. E aquele ídolo era o ribeirão-pretano Marcelo Bordon.
Tamanho reconhecimento, ainda mais em terras estrangeiras, pode surpreender as novas gerações ou até pessoas que o conhecem pessoalmente, mas só como empresário. Até porque Bordon não se coloca no mesmo pedestal que seus admiradores o colocaram. Para ele, a despedida grandiosa, mais que o alçar como herói, reconheceu o tipo de pessoa que sempre quis ser: aquela que faz sempre tudo o que pode e se entrega 100%.
“Eles me respeitam como pessoa. Se você fez, se você marcou mesmo, se foi alguém honesto, eles reconhecem. Eu não me sentia merecedor daquilo tudo. Mas eles acreditaram. E eu espero que o meu caráter, que é a única coisa que vai me fazer entrar no céu, fique marcado por muitas décadas”, compartilha.
Este bate-papo aconteceu no Complexo Esportivo Acahdre, onde o ex-atleta passa grande parte do seu tempo (seja fazendo a gestão ou jogando em alguma das quadras), logo depois a comemoração do seu aniversário de 50 anos.
Legado de capitão
Antes de chegar ao ápice de um estádio lotado por sua causa, foram mais de 20 anos de entrega e dedicação total ao futebol. Nascido e criado em Ribeirão Preto, foi também na cidade que Bordon começou a jogar profissionalmente, no Botafogo Futebol S/A. Pouco depois, já se transferiu para o São Paulo F.C., onde ficou durante cinco anos até aparecer a oportunidade de jogar na Alemanha.
E a oportunidade não era grande só por ser em outro país, mas porque jogar no Schalke era um sonho do atleta – e que só se cumpriu quando ele mostrou, já no Velho Continente, a sua ética de trabalho e, principalmente, o seu compromisso com o esporte.
“Fiquei por cinco anos jogando pelo Stuttgart, que foi excelente para mim e fui por muito tempo capitão do time. Mas, faltando um ano para terminar meu contrato, fui surpreendido pelo presidente do Schalke, que chegou à minha casa e perguntou se eu queria ir jogar para eles. Falei que era meu sonho, mas que tinha um contrato ainda. ‘Não te perguntei se você tem contrato. Perguntei se você quer ir’, foi a resposta dele para mim. Quando eu disse que sim, ele me deu as boas-vindas ao clube dele. Ali senti uma firmeza impressionante. Eles me compraram e, logo na primeira temporada, fiz dois gols que classificaram o time para a Champions League, a primeira do Schalke”, orgulha-se.
Menos de dois anos após aquela contratação surpresa, Bordon voltou a se tornar capitão, função que desempenhou até sua polêmica saída do clube, em 2010 – uma situação provocada por um desentendimento com o novo treinador, mas que não dava para ser ignorada, não sendo o jogador que ele era e ainda é.
“Esse treinador queria roubar o clube, mas como eu era capitão, seria mais difícil. Porque o capitão lá decide as coisas. Então, ele deu um jeito de se desfazer de mim para conseguir fazer o que queria. Ninguém entendeu nada, porque eu estava numa fase muito boa. Tive que sair de lá sem falar com os torcedores, sem poder explicar nada. Ainda bem que eu tive a chance de voltar, fazer uma conferência de imprensa, explicar e me despedir. Um ano depois. Mas voltei e pude sair com o coração tranquilo”, conta.
Nos 11 anos em que ficou na Europa, foram quatro Champions League, três UEFA e dedicação exclusiva aos times. “Nunca deixei de entregar o meu máximo em campo; nunca deixei de treinar. Fiz tudo que eu podia e aproveitei o máximo”, avalia. Deixar a Alemanha, com a qual sempre se sentiu conectado, não foi fácil. Contudo, uma outra paixão eliminou qualquer dúvida: “Tive muita dificuldade quando voltei ao Brasil. E se não fosse Ribeirão Preto, eu não voltava. Mas voltei porque sou apaixonado por Ribeirão”.
Acréscimo em novo campo
Antes de aterrissar na capital do agronegócio, o avião de Bordon fez um “desvio” pelo Catar, onde ele viveu seu último ano como atleta profissional, jogando pelo Al-Rayyan. “Minha passagem no Catar foi boa, mas eu senti muito. O que me matou foi que, antes, eu jogava na presença de umas 60 mil pessoas. Ali, eu passei a jogar com 60 pessoas. Aquilo foi me tirando um pouco o brilho, sabe?! No final da carreira, você precisa dessa atmosfera mais fervorosa. Então, foi um pouco difícil para mim, mas, ao mesmo tempo, vivi um momento muito legal, um negócio bem diferente”.
Entre as diferenças, ele cita o horário dos treinos, que normalmente aconteciam durante à noite, por causa do forte calor que faz na região, e em locais próximos do centro de treinamento, o que não demandava viagens rotineiras. Em relação ao que viveu na Europa, muitas vezes o trabalho parecia férias. Ainda assim, não foi o que fez soar o apito final.
“Perto do fim do contrato, tive uma lesão no tendão do quadril, que ia me deixar três meses fora do campo. Foi quando fiz uma escolha que só quando a gente obedece a Deus mesmo que é possível entender. Falei para eles: ‘até aqui vocês me pagaram e eu joguei. A partir de agora, não vou conseguir jogar mais, vocês não precisam me pagar. Peguei todo mundo de surpresa. Tanto que o diretor do comitê falou que era a primeira vez que algo assim acontecia no mundo árabe e deixou todas as portas abertas para mim. Sem nenhum peso, sem nenhuma preocupação. No fim, foi legal também. Tudo foi válido. Não tenho nenhum arrependimento”, garante.
Jogando em outra posição
Como tinha apenas 36 anos, a aposentadoria como atleta profissional acabou representando apenas o encerramento de um ciclo, já que toda uma vida se abria em direção ao futuro. “Existem pessoas que falam que jogador morre duas vezes, visto que uma delas acontece quando a gente para de jogar. E é realmente estranho. Eu, que nunca tinha tido fim de semana livre, nunca fui dono do meu tempo, de repente estava em casa, sem nada para fazer”, lembra. Mas já na época, todos sabiam – e ele também – que não seria assim por muito tempo.
Pelo contrário, foi só o tempo necessário para a Acahdre Estrutura Fitness nascer e se tornar o principal projeto profissional e também pessoal da vida do ex-atleta, que sempre soube que deveria permanecer na área de saúde e bem-estar. Desde que foi aberta em 2013, a academia virou praticamente uma segunda casa para as centenas de pessoas que escolhem diariamente cuidarem de si mesmas.
“Já tinha o espaço lá na Avenida Wladimir Meirelles e comecei a visualizar a academia, que precisava oferecer algo compatível com a nobreza daquela região. Sempre quis entregar mais que propriamente o lugar. Inclusive, esse é um dos pontos que eu sempre me preocupo demais: oferecer mais do que você cobra”, explica.
Essa lógica acabou resultando também na ampliação dos serviços da academia, com a abertura de um heath center no mesmo prédio e, posteriormente, do Centro de Treinamento, e foi aplicada ainda ao Hand Hoch, um espaço de eventos inaugurado em 2025 e totalmente criado por Bordon, do projeto arquitetônico ao serviço, embora não tenha sido algo planejado antecipadamente – não por ele, pelo menos.
“Me parece que era um sonho de Deus para mim, porque eu consegui colocar ele de pé só com três pedreiros. Fiquei ali, todos os dias, durante um ano e três meses, e as ideias foram todas vindo do alto. E ela foi se tornando mais do que eu imaginava e tomando essa proporção, na qual hoje consigo fazer desde casamento a corporativo, aniversário… algo bem flexível”, revela.
Mão para o alto
Tanto a Acahdre, quanto o Hand Hoch revelam ainda outros traços importantes que edificam a personalidade de Bordon e que sempre se fizeram presentes, como o gosto por construir/transformar (“sou fascinado nesse negócio de pegar uma coisa destruída e trazer vida nela”, garante) e sua religiosidade, princípio que rege todas as suas ações.
Não por acaso, o nome do centro de eventos é a expressão em alemão para “mão para o alto” (em sentido de louvor). “Procuro obedecer aquilo que está escrito. Não é nada de mim. Tem a vontade de Deus na nossa vida. Isso muda o caráter, as decisões, os negócios. Não é qualquer coisa que você entra, não é de qualquer jeito que você faz. Inclusive, quando eu falo de ‘entregar mais’ para as pessoas, entregar o melhor, também vem daí. Porque Jesus servia; ele nunca pegou nada”, se justifica.
Afirmando-se como cristão e sem nem mencionar uma religião específica, Bordon se define por meio desse sentimento de servidão, que tem a Bíblia como manual. De acordo com ele, Deus sempre o escolheu, o acolheu e o guiou.
Além das oportunidades no futebol e nos negócios, ele cita como exemplo do Divino em sua vida a criação de uma igreja na Alemanha, a qual fundou junto com outras três pessoas (e que ainda hoje existe no país, embora dividida) e o aprendizado do alemão, idioma que sabe falar embora nunca tenha frequentado nenhuma aula.
“Eu só sabia falar ‘oi’, ‘tchau’, contava até 10 e tal. Mas eu pedi para Deus. Pedi, porque Deus tem todas as línguas. E aí eu sonhei que estava falando alemão e falava perfeitamente. A partir desse dia, meu alemão desenrolou. Sem aprender em lugar nenhum, só no dia a dia. E não esqueço. Então, eu creio que alemão veio do alto mesmo. Acho que ainda não tinha contado isso”, compartilha.
A maior herança
Se na Alemanha, Bordon gerou tamanha comoção, por aqui, na sua terra natal, o reconhecimento vem de maneira menos estrondosa, mas igualmente valiosa, especialmente quando vem daqueles para quem dedica a própria vida. “Sem a família, acho que não faz sentido continuar”, ressalta.
Janaína Bordon, sua esposa há 26 anos, e os três filhos – Júlia, Filipe e Ricardo – não escondem a admiração que sentem pelo marido e pai, que sempre esteve com eles, mesmo durante a tumultuada vida de jogador. Isso porque a família inteira o acompanhou, fosse no Brasil, na Alemanha ou até no Catar. “Seis meses depois que me casei (em 2000), a gente já foi embora do país. Então, eu nunca fiquei sozinho lá fora – nem aqui, visto que minha esposa foi minha primeira namorada. É assim desde os 13, 14 anos. A gente nunca ficou separado”, conta, tanto sobre a esposa, quanto os filhos – tendo os dois primeiros nascidos no Brasil, no intervalo de temporadas, e o último na Alemanha, quando não foi possível retornar.
Para eles, o pai também é uma grande inspiração de valores, atitudes e até profissional. Enquanto Júlia continua ao seu lado, ajudando-o na administração e no marketing dos negócios, Filipe e Ricardo seguem os passos do pai e já se dedicam profissionalmente ao futebol, inclusive na mesma posição. A única diferença, segundo Bordon, é que nenhum dos dois puxou a sua canhota. Atualmente, ambos moram na Itália, onde jogam pelo S.S. Lazio.
O ex-zagueiro também conta que nunca houve uma pressão para que os filhos seguissem o mesmo caminho. Foi algo natural, mas que, em determinado momento, precisou ser encarado com a devida responsabilidade. “Deixo eles um pouco à vontade, mas, na hora que o negócio vai arder, eu meio que mastigo um pouquinho, porque já passei por tudo. Tento manter para eles um equilíbrio. Quando eles sobem muito, dou uma diminuída; quando caem, eu levanto. Esse é o caminho do sucesso do jogador que chega mais longe. Então, fico por trás, orientando e trazendo um certo equilíbrio, porque sofri demais em toda minha carreira”.
Entre os ensinamentos, está que toda jogada importa: não existe bola perdida. “Sempre falei para eles e falo até hoje: cada bola jogada é um prato de comida. Essa geração não consegue entender isso. Se quiser ser um jogador de alto rendimento, jogar aonde a elite joga, uma bola pode mudar a sua vida. Então, vai em todas, 100%”, aconselha. Essa lição, inclusive, é o que Ricardo lembra da conversa que teve com o pai antes de se profissionalizar, mas, principalmente, assistindo-o durante toda sua carreira: “aprendi a deixar tudo no campo, dar o máximo no que for fazer, aonde for. Isso eu via nele, nem precisava falar”.
Também para Filipe, os exemplos foram mais fortes que qualquer palavra. “Vejo ele como um espelho. Por isso, não é preciso palavras para ele ensinar; só de observar e ver como é seu caráter e suas atitudes. Obviamente não vou conseguir ser a cópia perfeita, mas vou tentar que daqui 20, 30 anos, as pessoas vejam em mim o grande homem que ele é”.
Talvez seja por toda essa determinação e exemplo que, quando pedido que definissem o pai em uma palavra, as escolhidas foram “humilde”, “guerreiro” e “honesto”.
Segue o jogo
Ao completar 50 anos em 7 de janeiro de 2026, Marcelo Bordon entrou em uma nova fase, não pela idade, mas por decisão pessoal. Depois de se ver em um vídeo e não gostar da sua imagem, ele passou a buscar maior equilíbrio, especialmente em relação à alimentação e ao tempo. “Sempre tive disciplina, mas algumas coisas passavam desapercebidas. Até que senti que comecei a ter um adversário mais terrível de todos: eu mesmo. Então, hoje eu tenho uma alimentação mais controlada. Minha cabeça é mais controlada. E tem que treinar. Se eu não treinar, me dá muita fome. Se eu treino, eu consigo controlar”, revela.
Assim, faz parte dessa nova fase, treinos diários, seja de musculação, ou jogando futebol, futevôlei e tênis (sua nova descoberta esportiva). Além disso, chega a fazer jejum de mais de 18 horas e, uma vez por mês, jejum em oração, quando fica somente à base de água por três dias. No quesito tempo, explica que tem mais atribuições que antes, mas agora determina quando e como vai cumpri-las – muito diferente da vida de jogador, que tinha hora para comer, dormir, sair, viajar.
“Hoje, acordo muito cedo, mas não gosto que me tire da cama por um motivo determinado. Eu tenho esse trauma. E sei que temos um corpo que Deus fez, que é perfeito, mas a gente estraga. Então, eu tomei uma decisão de cuidar dele. E hoje durmo melhor, jogo melhor, tenho mais força que antes”, garante.
E dessa forma, com as energias renovadas, espera seguir vivendo conforme os desígnios de Deus: “Quero continuar na mesma pegada. Não quero parar nada, porque senão a gente envelhece, tanto física quanto mentalmente. Acho que construir, criar, deixa a gente novo. Tenho o maior prazer nisso. E tomara que eu tenha saúde para isso até chegar aos céus”, conclui.
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