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Coluna do Miguel El Debs com CUBO Montagens Industriais | Crédito: Divulgação
Negócios

Quando sobreviver já não basta

By Redação Zumm on 1 de setembro de 2020

Durante 15 anos, Rafael Reis aprendeu a sobreviver. Construiu uma empresa do zero e fez da confiança sua principal ferramenta de trabalho. Agora vive outro desafio.

Por Miguel El Debs*

Algumas conversas terminam quando desligamos o gravador. Outras começam exatamente ali. Foi assim com Rafael Reis, cofundador da CUBO Montagens Industriais. Enquanto ele me contava sua história, percebi que não estava diante de alguém que simplesmente construiu uma empresa de manutenção industrial; estava diante de quem passou boa parte da vida aprendendo a sobreviver.

Rafael cresceu na periferia de Ribeirão Preto, em uma casa onde a regra era trabalhar para ajudar nas contas. Não havia empresários na família, nem incentivo para a faculdade. Havia apenas a necessidade de colocar comida na mesa.

Historia da CUBO Montagens Industriais | Crédito: Divulgação
A Brasília usada no início da CUBO

Foi estoquista, fez mototáxi, virou serralheiro e aprendeu solda. A faculdade de Engenharia aconteceu depois que um antigo patrão fez a seguinte pergunta: “Se você não pode fazer USP, por que não faz a faculdade que está ao seu alcance?”

Quando decidiu abrir a CUBO ao lado do irmão, também não existia plano de negócios; existia uma Brasília velha, uma máquina de solda e um terreno sem água. Durante mais de um ano, eles levavam galões de água para dentro da empresa porque nem a ligação do abastecimento conseguiam pagar.

Mas havia algo que nunca faltou: reputação. Cada cliente conquistado indicava outro. Aos poucos, a pequena oficina foi entrando em grandes indústrias, até transformar a confiança no maior ativo da empresa.

E a CUBO não foi construída apenas pela capacidade técnica de Rafael. Até porque ele nunca aprendeu a vender; ele aprendeu a resolver problemas.

Caminhos que voltam a se cruzar

Seu irmão Daweson Reis teve um papel importante nessa trajetória. Depois de cerca de 12 anos na região de Campinas (SP), onde construiu experiência em manutenção de veículos – pesados e máquinas –, retornou a Ribeirão Preto trazendo uma experiência que complementava a de Rafael. Foi com o dinheiro de sua rescisão que os dois iniciaram a CUBO.

Rafael e Daweson Reis, da CUBO Montagens Industriais | Crédito: Divulgação
Daweson e Rafael Reis, da CUBO Montagens Industriais | Crédito: Divulgação
Os irmãos Reis em dois momentos importantes dessa história

Enquanto Rafael estava mais ligado à caldeiraria, soldagem e à frente dos negócios, Daweson assumiu boa parte da mecânica, montagem industrial e operação.

Houve uma época em que os dois trabalhavam praticamente de domingo a domingo, das 6h às 22h. Quando o telefone tocava de madrugada, muitas vezes era o irmão quem se levantava para atender. Hoje, Rafael está à frente dos negócios, enquanto Daweson conduz a operação, os líderes, a frota e a gestão dos serviços e a CUBO atende grandes empresas da região.

Algumas jornadas só são possíveis com divisão de carga.

O que ninguém ensina

Desde então, o maior desafio de Rafael não está mais na solda, na manutenção ou na operação. Está dentro dele. Inclusive, em nossa conversa, ele me disse: “Sempre soube lidar com R$ 100 mil. Agora preciso aprender a lidar com R$ 1 milhão”.

Essa frase resume uma realidade que muitos empresários vivem em silêncio. Existe um momento em que o empreendedor deixa de sofrer por falta de trabalho e começa a sofrer pelo peso das decisões.

Rafael e Daweson Reis, da CUBO Montagens Industriais | Crédito: Divulgação

Antes, errar significava perder um cliente; agora, errar pode comprometer dezenas de famílias. Antes, bastava trabalhar mais; agora, é preciso pensar melhor.

Ninguém ensina o empreendedor a deixar de ser operacional. Ele aprende a fabricar, vender e contratar, mas quase nunca aprende a liderar uma empresa que cresce mais rápido que ele próprio.

Válvula de escape

Foi nesse processo que outro elemento da vida de Rafael ganhou importância: o jiu jitsu. Ele começou a treinar no final de 2011, inicialmente procurando uma atividade física para emagrecer. Não se adaptou à musculação e acabou experimentando uma aula da luta.

Durante uma das fases mais difíceis da CUBO, encontrou no tatame uma válvula de escape. Treinava de manhã, ao meio-dia e à noite, e também dava aulas e competia. Quando a empresa estava mal, o jiu jitsu ajudava a manter a cabeça no lugar.

Depois veio a pandemia e quase dois anos afastado. Rafael percebeu novamente o impacto que a prática tinha sobre sua vida. Retomou os treinos, avançou até a faixa marrom e, em dezembro de 2024, recebeu a faixa preta. Considera aquele momento uma divisão de águas.

“Eu não me sentia preparado, mas aprendi a confiar no professor”, confessa Rafael.

E talvez essa declaração também ajude a entender o momento atual de sua vida empresarial. No jiu jitsu, aprendeu a lidar com pressão, reconhecer limites, cair, respirar e continuar. Nos negócios, a lógica não é tão diferente.

Como seguir em frente

Durante 15 anos, Rafael aprendeu a sobreviver. Construiu uma empresa do zero e fez da confiança sua principal ferramenta de trabalho. Agora vive outro desafio: a pergunta já não é mais como manter a empresa de pé, mas como preparar a CUBO para crescer sem depender apenas deles.

Equipe da CUBO Montagens Industriais | Crédito: Divulgação
Equipe da CUBO Montagens Industriais

Rafael parece entender que crescer como empresário exige evoluir como pessoa. Busca conhecimento, investe em formação, ouve mais que fala e admite aquilo que ainda não sabe.

Quando olho para sua trajetória, penso que sobreviver é apenas a 1ª etapa – é pagar a conta, atender o telefone de madrugada, trabalhar de domingo a domingo e encontrar uma saída quando parece não haver nenhuma. Mas chega um momento em que a pergunta muda. Não é mais “como sobrevivo?” e sim “o que eu quero construir a partir de tudo que aprendi?”.

A história da CUBO Montagens Industriais está nessa transição. O negócio que nasceu da necessidade ganhou estrutura, pessoas e responsabilidades. E o homem que precisou aprender a suportar a pressão também descobriu que não precisava fazer tudo sozinho. Daweson, a equipe, os clientes, os parceiros e o próprio tatame fizeram parte dessa construção.

Saí dessa conversa com uma convicção: Rafael já provou que sabe construir estruturas de aço. Agora está construindo algo mais valioso: está edificando uma empresa capaz de crescer sem perder a essência que a trouxe até aqui.

Miguel El Debs | Crédito: Érico Andrade
Miguel El Debs | Crédito: Érico Andrade

Depois de sobreviver, começa a etapa de escolher o que fazer com a força que você ganhou no caminho.

Se você conhece um empreendedor cuja história merece ser contada, escreva para contato@grupozumm.com.br

* Miguel El Debs, sócio do Grupo ZK, conselheiro estratégico de empresas de pequeno e médio porte e Head do LIDE Empreendedor | Ribeirão Preto.

Posted in Negócios.
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