Um passeio com calma e admiração pelos espaços da artista japonesa no Instituto Inhotim
Por Maura Robusti*
Primeiro vem o jardim, o verde, as bromélias, as congéias, a luz e a sombra. A gente caminha, olha para os lados, tira centenas de fotos e, sem perceber, desacelera. Depois vem o aço corten, quase como um portal. Do lado de fora fica Inhotim; do outro, a mente colorida e “embolotada” de Yayoi Kusama. É preciso diminuir ainda mais o passo para entrar.
É sempre interessante assistir ao encontro da arte e da arquitetura. No pavilhão projetado por Maria Paz e Fernando Maculan, o espaço não está ali apenas para abrigar a obra: ele prepara o corpo e o olhar para aquilo que vem depois. São 1.400m de percurso que fazem a gente desacelerar, olhar, fotografar e, aos poucos, perceber que estamos atravessando uma fronteira entre o mundo real e o universo da artista.
Primeiro vem a Yayoi, depois a arquitetura. Ou, talvez, as duas venham juntas.
Quando entramos em “I’m Here, but Nothing” e “Aftermath of Obliteration of Eternity”, alguma coisa muda. A luz, os reflexos e a repetição fazem a gente perder as referências. O espaço parece não ter fim. O corpo desaparece. O tempo fica suspenso.
Como pode alguém que não percebe de “forma adequada” a realidade e as emoções nos transportar e nos impactar? Como pode uma mente dividida nos levar a sentir a grandeza do universo em uma instalação? Como alguém que “recebeu” tão pouco da vida consegue entregar tanto? É isso que a Yayoi faz: nos leva para dentro dos seus pensamentos.
E talvez aí esteja um divisor de águas. Como sair de Inhotim e não pensar na velocidade do tempo, mas também no infinito? Na vida. Morte. Eternidade. Yayoi repete, repete e repete. Multiplica.
E é impossível não pensar nisso diante de Narcissus Garden. Centenas de esferas espelhadas refletem o espaço, umas às outras e a nós mesmos. A instalação sugere que a gente olhe para as nossas próprias distorções. O que estamos vendo? A obra? Nosso reflexo? O desejo de nos enxergarmos? A necessidade de sermos vistos?
Na Bienal de Veneza de 1966, Narcissus Garden era quase um grito de guerra. As esferas eram vendidas por dois dólares cada, em uma provocação ao mercado, ao ego e à própria ideia de valor. Hoje, algumas delas já alcançaram milhões de dólares em leilões. E o que mudou? A obra ou o nosso olhar sobre ela?
Talvez essa pergunta continue quando a arte encontra a moda, o consumo e a cidade, como na parceria de Yayoi com a Louis Vuitton. A arte sai do museu, ocupa uma praça, uma vitrine, vira desejo.
Mas existe uma diferença entre uma experiência que nos entretém e outra que continua trabalhando dentro de nós depois que termina. Não há nada de errado com o entretenimento. Arte também pode ser lúdica, bonita, fotografável. Mas, para mim, quando termina exatamente na saída, é raso. Com Yayoi, alguma coisa fica – a repetição, os espelhos, o infinito.
Percebemos que sua obra nunca foi apenas sobre ela, mas provável e justamente o contrário: ela nos coloca diante daquilo que somos. Nada sobre como chegamos e de onde viemos, mas sobre para onde estamos indo.
A pergunta que fica é: Yayoi nos convida a olhar para dentro da mente dela ou é para dentro da gente?
* Maura Robusti é diretora do Mundo Robusti, um dos maiores do segmento de móveis e decoração do interior do estado de São Paulo.
Dentro da mente de Yayoi
Um passeio com calma e admiração pelos espaços da artista japonesa no Instituto Inhotim
Por Maura Robusti*
Primeiro vem o jardim, o verde, as bromélias, as congéias, a luz e a sombra. A gente caminha, olha para os lados, tira centenas de fotos e, sem perceber, desacelera. Depois vem o aço corten, quase como um portal. Do lado de fora fica Inhotim; do outro, a mente colorida e “embolotada” de Yayoi Kusama. É preciso diminuir ainda mais o passo para entrar.
É sempre interessante assistir ao encontro da arte e da arquitetura. No pavilhão projetado por Maria Paz e Fernando Maculan, o espaço não está ali apenas para abrigar a obra: ele prepara o corpo e o olhar para aquilo que vem depois. São 1.400m de percurso que fazem a gente desacelerar, olhar, fotografar e, aos poucos, perceber que estamos atravessando uma fronteira entre o mundo real e o universo da artista.
Quando entramos em “I’m Here, but Nothing” e “Aftermath of Obliteration of Eternity”, alguma coisa muda. A luz, os reflexos e a repetição fazem a gente perder as referências. O espaço parece não ter fim. O corpo desaparece. O tempo fica suspenso.
Como pode alguém que não percebe de “forma adequada” a realidade e as emoções nos transportar e nos impactar? Como pode uma mente dividida nos levar a sentir a grandeza do universo em uma instalação? Como alguém que “recebeu” tão pouco da vida consegue entregar tanto? É isso que a Yayoi faz: nos leva para dentro dos seus pensamentos.
E talvez aí esteja um divisor de águas. Como sair de Inhotim e não pensar na velocidade do tempo, mas também no infinito? Na vida. Morte. Eternidade. Yayoi repete, repete e repete. Multiplica.
E é impossível não pensar nisso diante de Narcissus Garden. Centenas de esferas espelhadas refletem o espaço, umas às outras e a nós mesmos. A instalação sugere que a gente olhe para as nossas próprias distorções. O que estamos vendo? A obra? Nosso reflexo? O desejo de nos enxergarmos? A necessidade de sermos vistos?
Na Bienal de Veneza de 1966, Narcissus Garden era quase um grito de guerra. As esferas eram vendidas por dois dólares cada, em uma provocação ao mercado, ao ego e à própria ideia de valor. Hoje, algumas delas já alcançaram milhões de dólares em leilões. E o que mudou? A obra ou o nosso olhar sobre ela?
Talvez essa pergunta continue quando a arte encontra a moda, o consumo e a cidade, como na parceria de Yayoi com a Louis Vuitton. A arte sai do museu, ocupa uma praça, uma vitrine, vira desejo.
Mas existe uma diferença entre uma experiência que nos entretém e outra que continua trabalhando dentro de nós depois que termina. Não há nada de errado com o entretenimento. Arte também pode ser lúdica, bonita, fotografável. Mas, para mim, quando termina exatamente na saída, é raso. Com Yayoi, alguma coisa fica – a repetição, os espelhos, o infinito.
Percebemos que sua obra nunca foi apenas sobre ela, mas provável e justamente o contrário: ela nos coloca diante daquilo que somos. Nada sobre como chegamos e de onde viemos, mas sobre para onde estamos indo.
A pergunta que fica é: Yayoi nos convida a olhar para dentro da mente dela ou é para dentro da gente?
* Maura Robusti é diretora do Mundo Robusti, um dos maiores do segmento de móveis e decoração do interior do estado de São Paulo.
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