A verdadeira arquitetura está na capacidade de um espaço gerar impacto positivo, transformar rotinas em experiências e oferecer dignidade, beleza e oportunidade
Por Maura Robusti*
Existe uma arquitetura que se mede em metros quadrados, volumetria, estética e proporção. Mas há outra, mais rara e profunda, que não se limita às paredes e sim ao que acontece dentro delas.
Há alguns dias, tive a oportunidade de conhecer o Instituto Oswaldo Ribeiro de Mendonça, nas unidades de Orlândia (SP) e Guaíra (SP). Foi nelas que me deparei com algo que ultrapassa qualquer conceito tradicional de arquitetura: um espaço em que a construção mais relevante não é só a física, mas também a humana.
Wilnes Tortoro, Josy Mendonça, Maura Robusti e Valeria VasconcelosMaura Robusti, Fida Aure, Mariana Jabali e Wilnes Tortoro
À primeira vista, tudo está no lugar. A luz natural é generosa, a integração com a natureza é evidente, os ambientes são bem resolvidos e acolhedores. É uma arquitetura bem-feita. Curiosamente, porém, nada disso é o que mais permanece. Rapidamente se percebe que o verdadeiro valor daquele lugar é invisível e, ainda assim, profundamente perceptível.
Cada detalhe parece existir para servir a um propósito maior, de cuidar, desenvolver, acolher. Não são apenas crianças ocupando um espaço, mas vidas sendo reconhecidas, incentivadas e valorizadas em sua individualidade, com oportunidades reais de transformação.
São mais de 500 crianças atendidas e o número, por si só, não traduz a dimensão do que acontece ali. O que se vê é uma equipe profundamente conectada com aquilo que faz; pessoas que carregam um propósito tão claro que ele não precisa ser dito, pois se revela no olhar, no cuidado e na presença.
Nesse contexto, a arquitetura deixa de ser cenário e passa a ser ferramenta; um meio para que experiências aconteçam; um suporte para que histórias sejam reescritas.
Talvez um dos espaços mais simbólicos dessa construção seja, curiosamente, a cozinha. É ali que a dona Lucia transforma ingredientes simples em algo muito maior. Bolos de cenoura ganham vida e, a partir deles, surgem risos, danças e coreografias. É a criação que ultrapassa a receita e se torna experiência.
Em outro ponto, mulheres se reúnem em um projeto de bordados e crochês que, a princípio, poderia ser apenas visto pelo ângulo artesanal. Mas não é. Ali, o que se constrói vai muito além dos fios entrelaçados. Surgem vínculos, autoestima e pertencimento. Mulheres que dedicam seu tempo e saem dali mais fortes, mais confiantes, mais felizes.
Há algo de profundamente transformador nessa troca silenciosa.
É impossível não perceber como esses espaços influenciam diretamente o que é produzido dentro deles. As crianças criam, desenvolvem projetos e se expressam a partir das vivências que aquele ambiente proporciona. O espaço educa, acolhe e potencializa.
Há, ainda, um elemento que amplia essa experiência: a arte como extensão dessa arquitetura viva. Na creche em Ipuã, o artista André Costa desenvolveu, junto às crianças, intervenções nas fachadas que, mais que estética, são expressões coletivas, construídas a muitas mãos, que carregam identidade, pertencimento e memória. Uma forma de trazer a sociedade para dentro.
Ao final da visita, fica uma reflexão sobre o que, de fato, define um bom projeto? Talvez seja o momento de ampliarmos esse conceito. Porque a verdadeira arquitetura da felicidade não está apenas no que se vê, mas no que se sente. Está na capacidade de um espaço gerar impacto positivo, transformar rotinas em experiências e oferecer dignidade, beleza e oportunidade. Porque, no fim, projetar nunca foi apenas sobre espaços; sempre foi sobre pessoas.
Maura Robusti | Crédito: Érico Andrade
* Maura Robusti é diretora do Mundo Robusti, um dos maiores do segmento de móveis e decoração do interior do estado de São Paulo.
Nem toda arquitetura está nas paredes
A verdadeira arquitetura está na capacidade de um espaço gerar impacto positivo, transformar rotinas em experiências e oferecer dignidade, beleza e oportunidade
Por Maura Robusti*
Existe uma arquitetura que se mede em metros quadrados, volumetria, estética e proporção. Mas há outra, mais rara e profunda, que não se limita às paredes e sim ao que acontece dentro delas.
Há alguns dias, tive a oportunidade de conhecer o Instituto Oswaldo Ribeiro de Mendonça, nas unidades de Orlândia (SP) e Guaíra (SP). Foi nelas que me deparei com algo que ultrapassa qualquer conceito tradicional de arquitetura: um espaço em que a construção mais relevante não é só a física, mas também a humana.
À primeira vista, tudo está no lugar. A luz natural é generosa, a integração com a natureza é evidente, os ambientes são bem resolvidos e acolhedores. É uma arquitetura bem-feita. Curiosamente, porém, nada disso é o que mais permanece. Rapidamente se percebe que o verdadeiro valor daquele lugar é invisível e, ainda assim, profundamente perceptível.
Cada detalhe parece existir para servir a um propósito maior, de cuidar, desenvolver, acolher. Não são apenas crianças ocupando um espaço, mas vidas sendo reconhecidas, incentivadas e valorizadas em sua individualidade, com oportunidades reais de transformação.
São mais de 500 crianças atendidas e o número, por si só, não traduz a dimensão do que acontece ali. O que se vê é uma equipe profundamente conectada com aquilo que faz; pessoas que carregam um propósito tão claro que ele não precisa ser dito, pois se revela no olhar, no cuidado e na presença.
Nesse contexto, a arquitetura deixa de ser cenário e passa a ser ferramenta; um meio para que experiências aconteçam; um suporte para que histórias sejam reescritas.
Talvez um dos espaços mais simbólicos dessa construção seja, curiosamente, a cozinha. É ali que a dona Lucia transforma ingredientes simples em algo muito maior. Bolos de cenoura ganham vida e, a partir deles, surgem risos, danças e coreografias. É a criação que ultrapassa a receita e se torna experiência.
Em outro ponto, mulheres se reúnem em um projeto de bordados e crochês que, a princípio, poderia ser apenas visto pelo ângulo artesanal. Mas não é. Ali, o que se constrói vai muito além dos fios entrelaçados. Surgem vínculos, autoestima e pertencimento. Mulheres que dedicam seu tempo e saem dali mais fortes, mais confiantes, mais felizes.
Há algo de profundamente transformador nessa troca silenciosa.
É impossível não perceber como esses espaços influenciam diretamente o que é produzido dentro deles. As crianças criam, desenvolvem projetos e se expressam a partir das vivências que aquele ambiente proporciona. O espaço educa, acolhe e potencializa.
Há, ainda, um elemento que amplia essa experiência: a arte como extensão dessa arquitetura viva. Na creche em Ipuã, o artista André Costa desenvolveu, junto às crianças, intervenções nas fachadas que, mais que estética, são expressões coletivas, construídas a muitas mãos, que carregam identidade, pertencimento e memória. Uma forma de trazer a sociedade para dentro.
Ao final da visita, fica uma reflexão sobre o que, de fato, define um bom projeto? Talvez seja o momento de ampliarmos esse conceito. Porque a verdadeira arquitetura da felicidade não está apenas no que se vê, mas no que se sente. Está na capacidade de um espaço gerar impacto positivo, transformar rotinas em experiências e oferecer dignidade, beleza e oportunidade. Porque, no fim, projetar nunca foi apenas sobre espaços; sempre foi sobre pessoas.
* Maura Robusti é diretora do Mundo Robusti, um dos maiores do segmento de móveis e decoração do interior do estado de São Paulo.
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